Unha encravada e privilégios

1 jan

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Daqui pra frente quem tiver exceções fisiológicas e anamorfológicas, de nascimento ou não, está seguro e garantido, porque está chegando um arrastão legisferante total (Congresso e STF), no qual todos os excepcionais, no sentido de “diferentes”, serão os privilegiados do atual século. Entendam-se negros, pardos, índios, homossexuais, pobretões (com ou sem terra, com ou sem teto ).
Qualquer hora dessas, surgirão tantas novidades que até os sem-unha ou os de unha encravada merecerão alguma benesse pública. As tais cotas de tudo quanto é situação / condição estão na pauta do dia, do botequim à igreja, da praça à favela. É um Deus dará irresponsável, inconsequente, primando pelo absurdo e perigoso precedente circunstancial. E ponha risco nisso, pois é irreversível. De momento estão as vagas a preencher nas universidades por cotas raciais. E por que não também as religiosas, as para homossexuais, toxicômanos, presidiários etc., etc.? Ingressar, portanto, está fácil. Quero ver continuar e concluir o curso pois vai beirar a apropriação indébita de quem pega uma vaga para depois desprezá-la, bem na linha do “como é de graça não custa nada”.

Estamos todos bebendo a cicuta dos privilegiados / contemplados ou a dos conformados e derrotados pela incúria governamental nos setores em que o manto da proteção desce solene e mansamente.
Isso de bolsa-família, todas as demais pochettes e assemelhadas, não é justiça social, mas sabidamente demagogia barata e populista.
Isso de cotas para negros na universidade é o descalabro para acobertar com um lençol puído
todo o fracasso do ensino fundamental e médio, cujos estágios estão no bico do corvo e ele
vai ingerir/digerir. Quem viver verá.
Governos se sucedem, no município, estado e federação, sem que esse núcleo de alfabetização crie massa, destaque e excelência para o chamado mínimo de posicionamento sociocultural.

Não identificados os milhões de analfabetos totais, os milhões de analfabetos funcionais, os semialfabetizados, o governo insiste em “resolver” a questão no topo da iceberg, isso que
está à mostra nas estatísticas sob a chuva de verão. Ninguém lembra quando caiu, com qual intensidade e onde. Não teve como propiciar educação de qualidade aos negros, pardos, índios e demais então vai “franquear” o acesso à universidade. Meu Deus! E os branquelinhos que obtiveram a mesma formação? Como ficam? Não terão como participar das cotas? Sim, porque não é questão de raça e cor, mas de infortúnios, prevaricação, desmandos, desídia e, sobretudo, crime de ausência no setor com salas de aulas em escolas de lata, sem teto e sem piso, sem lousa e sem giz, sem salário docente e administrativo, sem currículos / conteúdos, sem direção, sem reuniões, sem APMs locais. Ou seja, um degredo dentro de navio português colonial. Uniforme, calçados e livros entregues só sessenta dias após o início das aulas, absurdo com o ENEM na casa dos 6 milhões de almas batendo às portas da universidade.

O novo Plano Decenal de Educação ainda tergiversa nos corredores do Planalto com um atraso de no mínimo um ano e meio de vigência. Até aqui tem arestas que ninguém resolve, ninguém
quer dar solução, menos por “não querer” e mais por “não saber”, incompetência pura das tiriricas e mexericas federais. O pleito da hora é porcentagem em cima do PIB, outra hora é fundeado no pré-sal e por aí vai. Sobre a construção estrutural do plano ninguém ouve falar.

E assim, de favorecimentos a ajudadouros, vamos construindo uma sociedade errática em total abandono à Constituição Federal, na qual todos são iguais perante a lei. É bem getulino, né mesmo, a lei, ora a lei.

Agora chegaram com mais uma: estudantes surdos e disléxicos terão mais tempo para fazer o Enem, como se no “chão da fábrica” algum deles pudesse fazer qualquer tarefa além do horário regulamentar.

Hoje a mídia fala que 90% das universidades federais estão em greve, envolvendo milhares de professores que, ao depois de tudo, ainda serão beneficiados com um solene indulto sem descontos na folha mensal. Quem viver verá. E as bandeiras estão desfraldadas há quase sessenta dias, ou seja, estão subtraindo perto de 160 horas de estudos da moçada. Sabe quando irão repor isso?