A Dança dos Números

16 fev

Prof. Roney Signorini – Consultor Educacional

roneysignorini@ig.com.br

Entre janeiro e fevereiro o noticiário sobre o setor da educação rareia levando os plantonistas da mídia na busca de assuntos nem sempre pautados com a chancela de “importante”.

Está sendo mais uma vez o caso de 2010 quando restou alguma notícia sobre o ENADE e o dragão de uma só cabeça, o ENEM, eventos que se arrastaram com hilariantes acidentes de percursos. A da falha que afetou 915 redações no Enem mais a aloprada publicação dos resultados, com uma autêntica via cruxis para escolha de matrículas, foi surrealista. Picasso e Miró foram rebaixados.

Assim, manteve-se as editorias em pé com material “frio” e atemporal, que deixou certo estarrecimento e perplexidade aos governos dos três níveis pelas informações reveladas.
São de abalar fundações de pirâmides egípcias se interpretadas pelos resultados e conseqüências, mediatas ou não.
Uma delas, a de 19 de janeiro, pela FOLHA, dizia que 6% das vagas no 1º ano não são preenchidas e que em cursos que não são da área de formação de professores o índice cai para 3,5%, desastrosamente. E o contribuinte continuando a pagar as contas nas públicas, pela ociosidade. Ou seja, faltam professores com formação adequada no ensino básico e sobram vagas nas IES públicas em cursos de pedagogia e licenciaturas diversas, demandas e ofertas com desajustes. No ano de 2008 restaram absurdas 4.468 vagas sem preenchimento nos seletivos públicos. Em breve a sociedade enfrentará problema gigantesco com a falta de docentes, chegando ao cúmulo de ter que pagar para estimular a carreira. Estudantes ingressarão pelas licenciaturas desde que sejam remunerados. É uma alternativa. Prova irrefutável da fugas às licenciaturas nos chegou por G.Dimenstein ao afirmar que apenas 2% dos estudantes do ensino médio querem ser professores e que esse fato mostra que a profissão de professor está em baixa, diria até desmoralizada. E, o pior dos dados: os futuros professores são recrutados entre os alunos com as piores notas e que quase 90% são de escolas públicas. Portanto, opção de quem não tem opção.

Quem sabe por isso, no Enem, as licenciaturas tiveram a menor nota de corte quando dos cem cursos com as notas mais baixas, 75 são os que formam professores, como física e matemática. Na Finlândia, os futuros docentes são selecionados entre os 10% melhores alunos do ensino médio.

No dia 20 de janeiro, pelo ESTADÃO, outra notícia escabrosa dando conta que o país logrou o 88º em ranking de ensino mundial do qual participam 128 países avaliados pela UNESCO.
À nossa frente estão Cuba, Argentina, Uruguai, Chile, México, Venezuela, Panamá e Peru, dentro outros. Depois do Brasil estão o Suriname, El Salvador, Guatemala e Nicarágua.
Embora tivéssemos melhorado quando ao Índice de Desenvolvimento Humano ( IDH ) não ocorreu melhora mostrada no Índice de Desenvolvimento Educacional ( IDE ), com resultado 0,883 — a nota varia de 0 a 1 — daí a posição 88º. Para se ter idéia do descalabro, quando se analisa o índice que calcula quantas crianças que entram na 1ª. Série do fundamental concluem a 5ª. Série, o País cai para 0,756, uma ruína.
E não poderia ser diferente quando mais de 17,8 mil escolas não têm energia elétrica e só 37% possuem bibliotecas.

No mesmo dia 20, também no ESTADÃO, um “exocet” para a sociedade informando que 18% dos jovens não estudam, conforme o Ipea, na faixa dos 15 e 17 anos, sob o motivo de trabalho para eles e gravidez precoce para elas.
E às ruins juntou-se a pior, a péssima notícia de que dos 182 mil professores temporários que fizeram em dezembro a prova de seleção do governo paulista, 48,4% , ou 88 mil, não alcançaram a nota 5, a mínima para lecionar. E o índice pode ter sido pior já que até 20% da nota final vêm de uma pontuação recebida pelos anos de serviço na rede. E o ápice do tresloucamento: o secretário do Estado da Educação admite que tais docentes reprovados poderão dar aulas na rede em 2010.

Enquanto notícias nada abonadoras permeiam pela mídia vem uma muito boa estampada no VALOR ECÔNOMICO de que os cursos técnicos respondem por 10% do ensino médio. Ou seja, em 2001 o Brasil contabilizava 462,2 mil matrículas no ciclo profissional, representando só 5% dos 8,398 milhões de alunos no nível médio regular — com pico de 9,169 milhões de matriculados em 2004 — em 2009 fechamos a conta com 861,1 mil estudantes. Isso significa uma participação e expansão de 10% na taxa de matrículas do ensino médio ( 8,337 milhões ), de acordo com o Inep. É realmente auspiciosa e surpreendente a demanda do mercado de trabalho pelos técnicos formados em algum dos 185 cursos, distribuídos por 12 eixos com características científicas e tecnológicas.

Para arrematar, a notícia vem do Rio de Janeiro onde pesquisa mostra que 95% não sabem se vão concluir os estudos e portanto só 5% dos alunos da rede pública estadual têm certeza de que vão concluir o ensino médio.