Qualidade versus Eficácia

21 mar

Prof. Roney Signorini – Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Integrei por seis anos o Conselho Fiscal da CET, em São Paulo.
No período, acompanhei todos os esforços da Companhia buscando a implantação de Qualidade, a da reserva endógena mas que pudesse ser extensiva à toda a cidade , trabalho delicado e dedicado de experts, exitoso na consecução em outras empresas. De todas as medidas, dentro de um plano traçado, restou um expediente que nunca conseguiu ser superado, ainda que o empenho para a sinalização semafórica, sinalização horizontal e vertical, placas, zona azul, etc. etc., consumissem cada vez mais os minguados recursos que a Prefeitura disponibilizava. Mas o que não deu tanto certo como o desejado, o esperado ? Simples, porque a população não considerava tais medidas como a de quem buscava Qualidade mas sim a possibilidade de trafegar sem vigilância, sem a presença “antipática” dos marronzinhos a aplicar multas. Conforme a cultural política da impunidade. Sem multas, aí sim a empresa teria Qualidade pois contrariar interesse é inimigo feito.

Invadindo outro cenário, o da educação, o que o tomador desse serviço reputa como Qualidade se o que ele busca é aprioristicamente o diploma e não o conhecimento, o aprendizado, para enfrentar o dificílimo mercado de trabalho ? Só ele não sabe disso.
Aliás, esse “comprador de serviços” é um dos poucos que não sabe o que está comprando e pagando ( ? ). É a compra no escuro. Quando as coisas clareiam um pouco ele vira um bicho de exigências. Afinal, ele está pagando e impensável uma reprovação. Esta dentre muitas outras razões o leva a soltar todos os cachorros no Enade como revolta e vingança.
Na outra ponta as IES se digladiando para buscar respeito, consideração e visibilidade responsável junto aos seus públicos: famílias, imprensa, MEC, mundo intelectual e sociedade em geral. Mas, a imagem positiva não aparece, não na justa relação de todo o esforço despendido, de todas as ordens e naturezas. Falta o elementar: comunicação dirigida a cada público, evitando assim o “case” de MKT do ovo da pata.
Como coordenador de curso, ouvi às centenas que “… só estou aqui por causa do diploma porque já sou profissional da área.” Ah. meu Deus !

Então, o que importa é ter BOA IMAGEM no mercado ? Como conquistar essa imagem se a relação Custo x Benefício entre os interessados não tiver o mesmo quilate ? Qual a pedra de toque para a justa consideração de Qualidade ? Como propiciar ensino de boa Qualidade sem o ônus de manter um plexus universitário à altura das exigências de um mundo globalizado ? Ou seja, o melhor corpo docente, os melhores laboratórios, a melhor biblioteca, a melhor extensão, a melhor pesquisa ( iniciação científica ), os melhores conteúdos programáticos, a rigidez nas avaliações ? Não exagero se disser que isto basta. Ainda que sem ar condicionado nas salas, estacionamento gratuito, boleto de cobrança das mensalidades, parque de PCs em rede total, diários de classe impressos por sistema, cada sala com projetor multimídia, etc. etc.
Qualidade com efetiva eficácia custa caro. E acima de tudo, o imperativo que os interesses sejam recíprocos, o do tutor e do aprendiz. Faltou tal relação o processo fica capenga. E mais, não se consegue Qualidade com o valor da mensalidade na casa dos “nine,nine”.

Eficácia é a palavra de ordem na avaliação de uma proposta educacional, por exemplo a partir da permanência ou não de determinado curso no elenco de cursos da IES.
Não é possível a existência de curso de Enfermagem onde exista só um hospital na cidade, curso de Comunicação onde exista único jornal e emissora de rádio, etc. etc.
Em quatro anos tem-se duzentos profissionais “aptos” mas desempregados.
Sem falar em corpo docente (in)existente, custosos laboratórios, biblioteca satisfatória, extensões de complementaridade educacional como atendimentos, práticas e estágios, seminários, palestras e conferências. É querer uvas maduras, sem chance.

Bons tempos quando tudo se iniciava pelo ( único ) vestibular das IES por via do Edital constando dia, hora, conteúdos a considerar, número de vagas, etc. etc.
Hoje o processo seletivo de ingresso se dá continuamente, por semanas (ou meses), sem interrupção, avaliando desiguais ( sem a isonomia legal ) como iguais.
É a concorrência atuando no setor.

A busca da condição de Qualidade no ensino passa necessariamente pela eficácia
dos planos de ensino das IES — PDI e CPA atuantes —, seja na graduação regular ou nos tecnológicos porque o fim não é outro — e deve ser — senão a empregabilidade. Fica para depois comentário sobre as pós graduações.
Mestres e Doutores em sala são ótimos se deixarem de aplicar suas dissertações e teses, para semi alfabetizados, mas impondo as realidades programáticas das disciplinas que assumiram. Em que pese algum esforço pessoal, mas nunca porque a IES não podia/desejava dispensar o profissional a quem os currículos dos diversos cursos oferecidos não contemplavam seus saberes ( específicos ? ). Se a dispensa é onerosa o mote é apostar no futuro e não no presente, nesse particular, porque os “opinion makers” estão de plantão: o aluno e/ou o mercado, lembrando que ambos são os consumidores do “produto acabado/formado”.
As famílias e os próprios alunos estão ansiosos por ocupações, sem o que não se terá atingido o fim desejado: EMPREGABILIDADE. Nisso sim se traduz Qualidade e eficácia de educação superior. O resto é conversa de periquito australiano, é “embromation”.
Se eficiência é saber fazer, eficácia é saber fazer bem feito.
E tem mais, é claro, eficiência e eficácia entendido para um não é para todos.

Tentar impor Qualidade para ingressantes que se assemelham a insumos de carregação, concluintes do ensino médio no qual foram aprovados por via de aprovação automática é contrariar a ordem natural das coisas.

Que tal se logo no primeiro dia de aula dos calouros os docentes tivessem em mãos suas redações do seletivo, seus acertos/erros no gabarito das questões de múltipla escolha ? Ah. como o entendimento do nível cultural da classe seria diferente. Vinho para a água.
No setor, querer transferir um produto da Daslu para a 25 de Março é vôo suicida, atitude kamikaze do ponto de vista educacional. Talvez não para a visão de negócios. Mas, que não se espere Qualidade nessa última. É pirataria absoluta.

Como pretender falar de Qualidade no ensino superior se antes, nos ensinos fundamental e médio, a matéria prima chega com defeito ? Com varinha de condão ?
Sejamos realistas, não mais do que o rei e será o suficiente.
Esforços hercúleos no superior não suprirão a formação desejável e esperada para o fundamental e médio. Antes de discutir a validade educacional de Qualidade no superior — grande preocupação do momento —, para a qual as IES particulares estão(riam) prontas a implementar imediatamente, a discussão, em tom de cobrança, deve recair sobre as secretarias municipal e estadual de educação. Sem o que não tem jogo. Novamente os periquitos palradores estão no palco.

Vem aí o novo PNE sem que fosse obtido nem 45% de bons resultados no plano anterior. Como é que pode ? O senhor de engenho ( MEC ) quer açúcar com cana seca. Nem o gado consome.