Barômetro & Bafômetro

21 maio

Por Ana Tereza Pinto Oliveira – Mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP

Dias atrás li interessante e curioso artigo, apócrifo, a respeito de um estudante que se envolvera com questão de Física e devia dar solução a uma medição da altura de um prédio com um barômetro. Vale a pena (re)ler.

A narrativa envolve três personagens: o universitário, o docente que propusera

um problema de prova – e sua consequente avaliação –, além de outro docente

chamado a “fazer a revisão da nota” atribuída, que fora zero, pelo inconformismo desafiador do estudante “prejudicado”.

Instigada por uma paronomásia (emprego de palavras semelhantes no som, porém diversas na significação), fiz uma reflexão a partir da leitura de Barômetro, induzida por outras sobre as gerações mais recentes, que pesquisadores e profissionais de RH, pedagogos e psicólogos vêm fazendo sobre as gerações de final de alfabeto – as chamadas gerações X, Y e Z. Esses profissionais estão tentando entender o comportamento de crianças e jovens multitarefas, que fazem muitas coisas simultaneamente e, colaborativos e ágeis, compartilham ideias com facilidade, mostrando-se acostumados a um ambiente de mudanças e incertezas.

Feliz esse professor que cruzou com um jovem inconformado com respostas únicas e definitivas para um problema. Aliás, o que no passado também não era mutável e incerto? O perfil do aluno questionador sempre foi aquele buscado por quem é realmente mestre. Nada mais revigorante para um professor do que um aluno inquieto, que questiona, que interage.

O triste hoje é o problema do bafômetro – jovens alienados em sala de aula, muitas vezes, por problemas alcoólicos. O extraclasse, em horário de aula, é cada vez mais uma realidade deprimente e assustadora: universidades e faculdades rodeadas de bares que congregam uma horda de “estudantes” cujo interesse é beber cerveja, ouvir “um som” que guincha através de porta-malas abertos com uma parafernália sonoro-digital de fazer inveja a muitos ambientes profissionais, “jogar um lero” na menina(o) e, eventualmente, consumir drogas ilícitas.

Incrédula, ao final da aula, tento passar por ruas abarrotadas de jovens (muitas vezes em situação deprimente de vomitar em calçada) que foram à universidade/faculdade para quê? me pergunto. Como se permite (leia-se MEC e as próprias instituições) a existência desse “poder paralelo” corruptor de uma juventude X, Y, Z, que tem tudo para virar a mesa e propor uma nova realidade – melhor e mais solidária – para o século XXI?

Seremos nós, professores, em parte responsáveis também por essa situação? Está faltando a nós o exercício do não, do cabresto curto na assiduidade e na cobrança de uma postura responsável, esperada de um universitário? Talvez.

Os cursos de formação de professores ainda não mereceram atenção urgente quanto a conteúdos, linguagem e metodologia para enfrentar situações novas advindas de fatores econômicos, sociais, culturais e evolutivos que, somados aos paradigmas existentes em cada família, moldam a identidade dessa nova geração de alunos. Falta-nos a comunicação com essas novas gerações para a qual o mundo não tem fronteiras e informação não é o problema. A questão, no entanto, está exatamente aí: se informação não é o problema, seleção é imperativo sem o qual essa informação é amontoado de entulho sem finalidade.

Acredito que nossa contribuição a essa geração seja ensiná-la a selecionar, a separar o joio do trigo, seja no conhecimento formal, seja nas atitudes. Afinal a embriaguez do conhecimento vale infinitamente mais que uma latinha de cerveja.

Construtivismo e Explodismo
Por Ana Tereza Pinto Oliveira – Mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP

Corre solto por aí que o aprendizado de violão, no Brasil, só pode ser feito de “ouvido”. Nada de partituras, pentagramas e quetais. Pelo menos foi assim que grandes violeiros de outrora chegaram às emissoras de rádio, e ainda hoje.
Não era o que pensava o mestre Francisco de Asis Tárrega Eixea (1852— 1909) um importante violonista espanhol que revolucionou a composição para violão.
Assim como aprender a tocar violão, teoria pedagógica também vem sendo aprendida e executada de orelhada, independente do resultado, se aplicada na base do só ter ouvido falar, lido alguma coisa, presenciado alguma palestra.

Há quase uma década, docentes brasileiros independente se no fundamental, médio ou superior se propõem a colocar em prática, num estalar de dedos, o Construtivismo em salas de aulas.

A concepção do construtivismo não é uma teoria mas referencial para o docente ser levado a solucionar situações de aprendizado. Portanto, valioso instrumento de análise educativa, muito útil para decisões relativas ao planejamento, aplicação e avaliação no ensino, ou seja, ferramenta do pensamento psicopedagógico docente. Um referencial que identifica problemas decorrendo soluções articuladas, interativas e dialeticamente.

Semanas atrás o festejado professor Cláudio de Moura Castro, em sua página na revista VEJA, laborou sobre o assunto com interessante título: Construtivismo e Destrutivismo. E explodiu a matéria com sua inteligência focada no olho da página : O Construtivismo é uma hipótese teórica atraente e que pode ser útil na sala de aula. Mas, nos seus desdobramentos espúrios, vira uma cruzada religiosa, claramente nefasta ao ensino.

E avança no texto, com muita propriedade e com certa ira, com muita razão, batendo com as duas mãos, assumindo que tem a missão árdua de desmontar o construtivismo junto aos seus discípulos mais radicais, culpados de transformar uma ideia interessante numa seita fundamentalista.

Seguindo, enumera quatro equívocos grosseiros e estruturais que em sua visão invalidam a aplicação da teoria na educação: pensar que o docente teria o monopólio da verdade; achar que todo aprendizado requer degraus mentais
contidos no construtivismo e que sem maiores elaborações intelectuais aprendemos ortografia, tabuadas e a etmologia; aceitar uma teoria científica como verdadeira se atribuída a algum guru planetário —que só adota o empirismo, sem observações rigorosas, só no chão das teorias; e por último, de terríveis consequências, imaginar que cada aluno aporende de jeito próprio
e que o modo instrucional adaptado a cada um. Nesse particular, o docente rejeitaria livros e manuais standarizados quando sabidamente estes são superiores às improvisações despreparadas e até inconvenientes. Centenas de pesquisas mostram as vantagens de instruções estruturadas, planificadas e detalhadas.
O construtivismo não nega instruções detalhadas. Afirma-se que é impossível aplicar o método sem elas.
Aulas sem conteúdos e planos previamente definidos definham ao longo do ano letivo.
Com o uso da hipótese teórica do construtivismo, bem alicerçado em detalhes, em detrimento às improvisações e ao achismo egoísta dos docentes, pode-se sem preocupação levar aos alunos a “construírem” seus conhecimentos com incrível facilidade.

É, talvez, o emprego de uma prática docente que mais propicia aprendizagem,
tanto na dimensão individual como na social, assumindo o docente a condição de agente mediador entre o indivíduo, sociedade e o aluno como aprendiz social. A função completa da escola. Não é pouca responsabilidade, transcende a docência para se tornar um monitor, tutor ou preceptor.
Mas isso tudo não ocorre se não houver total apoio das direções, coordenações e reitorias que visem um ensino de qualidade.