Calandra e LinoType

23 nov

Prof. Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br

Quando dei os primeiros passos no jornalismo, na década de 60, caí no poço da realidade profissional e do primitivismo secular da impressão de notícias e reportagens.
Sem pauta definida, saía às ruas para coletar fatos e transformá-los em notícias.

Na volta, sentado diante de uma Remington, redigia o apurado entregando as laudas para os linotipadores — profissionais que “digitavam” os textos em máquinas LinoType.

Na volta, sentado diante de uma Remington, redigia o apurado entregando as laudas para os linotipadores — profissionais que “digitavam” os textos em máquinas LinoType.

Os tempos eram outros, claro, com jornalismo de imersão profunda e aguardava-se cansativamente o instante em que “aquelas maravilhosas máquinas” vomitassem as linhas (a uma ou duas colunas) para seguirem até a revisão(?). A revisão era feita por qualquer semialfabetizado, pois o que importava era a fidelidade do texto na lauda em comparação com o que havia sido digitado. Nada de correção do vernáculo, sugestões de
propriedades vocabulares, etc. etc. Esses “revisores” nunca tinham ouvido falar de Napoleão Mendes de Almeida, nem do Aurelião, nem de Cretella Júnior. Simplesmente, o que estava na lauda deveria estar no “copião” para a revisão.

Após ”digitado”, o texto era levado para a calandra — um cilindro de aço envolvido em feltro que rolava manualmente em dois trilhos, sobre o texto em chumbo(linotipado).

Era aí que entrava o “revisor”. Se houvesse algum problema a linha com o descuido voltava para a linotipia, ocorrendo, então, a emenda.
Tudo nos conformes, o conjunto linotipado seguia para a mesa de montagem da página.

No meio tempo, habilidosos gráficos compunham as manchetes ou ilustrações (clichês) e os títulos com as “caixas” — gavetas que tinham tipos maiores (até garrafais) para encimar os textos redigidos. Pelo “timing” da carruagem já passava de uma da manhã.

Hoje isso não existe e é só história de velho jornalismo, mas o relato deve servir aos modernos que trabalham com um PC montando seus textos, matérias e reportagens via algum PageMaker da atualidade, sem o cheiro insuportável do chumbo derretido e das tintas
vagabundas, nauseantes.

Assim é que digitado o texto no PC (terminal da redação), ele segue para uma equipe de diagramação — que também usa um paginador sofisticado alocando o material com absoluta precisão de modo a impedir que assunto de polícia caia no caderno de economia.

Até aqui providenciei uma aula de jornalismo, para principiantes, com o objetivo de deixar clara a inadmissibilidade do ocorrido na última prova do Enem. Vai além da incapacidade, da incúria e da irresponsabilidade. Afinal não estamos falando de qualquer graficazinha do interior, do sertão dos confins, que, mesmo assim, pagina e diagrama um jornal, tabloide ou standard, sem equívocos.

Como pode, uma gráfica do porte da RR Donnelley, com a mais alta e sofisticada tecnologia editorial e de impressão, promover o desastre dos dias 6 e 7 de novembro no Enem? Tem gato na tuba e está miando no tom de lá menor.

Na contrapartida, o Tribunal Federal do Ceará, acolhendo manifestação do Ministério Público, manda anular os exames e ainda proibir a divulgação do gabarito, mas o MEC contesta a medida e o presidente Lula elogia o Enem na segunda-feira, embora hoje admita a possibilidade de novo exame.
Não bastasse isso, o MEC quer processar o repórter que divulgou o tema da redação por um celular, dentro do sanitário de uma escola de Recife. E o desplante chega pela editora-chefe do site do Jornal do Commercio, Benira Maia Barros, afirmando que não estava planejado o repórter divulgar o tema da redação. Mas que doido! Com a informação em mãos, não foi o jornal que a publicou? Não fosse a efetiva intenção, guardassem a informação. Coisa mal contada, não é mesmo?

Diz o MEC que técnicos vão esclarecer por que a aplicação de novo exame aos prejudicados em nada afetará o direito da isonomia, pois a espetacular TRI – Teoria da Resposta ao Item – resolve o problema, quanto às eventuais dificuldades das questões propostas, embora não fale sobre as eventuais facilidades contidas nelas. Afinal, o propósito é reprovar, avaliar ou aprovar?

Digamos, para exemplificar, que eu, candidato, não tenha sido classificado na primeira oportunidade e me julgue apto a dar respostas aprovadoras ao segundo teste — alternativo para os que tiveram problemas no caderno amarelo, como fica?

Então, é possível justificar o desastre e eventual nova proposta de exames com base na TRI, como sendo bálsamo ou placebo para milhões de criaturas tão frustradas que restaram desde domingo, totalizadas pelos primeiros interessados e familiares?

A gráfica diz que assume a responsabilidade.
Qual? A de refazer as 4.6 milhões de provas? Com quais recursos, dela própria ou corroborada pelo MEC que despendeu milhões, até aqui, com todo o processo?

E as Federais, burladas no processo, que não terão(iriam) recursos, agora, para bancar seus próprios vestibulares?

A propósito, aos ausentes nos dias 6 e 7 seria permitido ingressarem no certame da segunda proposta? Não é nada? Quase 30% foi o índice de abstenção, perto de 1.300 milhão, o que de certo modo “ajuda” muito a quem compareceu. Grosso modo, o candidato estaria disputando vaga com os menos 30% de ausentes. Quando ela – eventualmente – se dará, em dezembro ou janeiro ? Esquece! As aulas de 2011 iniciam-se em 01 de fevereiro para se poder cumprir os legais e exigidos dias letivos semestrais, conforme a LDB.

Segundo a educadora Maria Helena Guimarães, uma das criadoras do exame em 1998 durante a gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB), “a mudança do objetivo do Enem – que passou de avaliação do perfil dos estudantes do ensino médio para seleção de alunos para as universidades e institutos federais a partir de 2009 – tornou a prova vulnerável e cobiçada – um objeto de desejo muito valioso”. Querendo dizer (?) que é impossível ou muito mais difícil ter controle de todas as etapas do processo, ou seja, antes era simples avaliação do alunado, das escolas, dos programas/conteúdos mas agora é disputa mesmo.

Laurentino Gomes, autor do livro 1808, está doidão dentro das calças pois sua obra foi citada indicando que a Abertura dos Portos se deu em 2010, quando ocorreu duzentos anos antes. Pode?

De boas intenções e gente que se achava insubstituível o cemitério está lotado.

E.T. O IBGE informa que o país conta hoje com mais de 6.500 municípios mas o Enem só ocorreu em 26% deles, ou seja, 1.700 cidades. Dá pra imaginar os transtornos de deslocamentos dos estudantes. Que pena!