Pode ?

27 nov

Prof. Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br

Dia desses a Fuvest deu publicidade da relação de candidatos inscritos ao exame de 2011
oferecendo o número de vagas, o volume de inscritos por curso e a relação candidato/vaga.
Nenhuma novidade se comparada à mesma relação de 2010 e anos anteriores, despontando, como cultural, as mesmas e sempre carreiras campeãs: medicina, direito e administração deixando na rabeira do processo todas as engenharias e licenciaturas.

A delicadeza na análise reside na persistência social de tais escolhas quando o mercado está
exigentemente ávido por engenharias — civil, elétrica, mecânica, alimentos e ambiente.
Agrava o fato de a sociedade só enxergar o umbigo, ou seja, o que hoje o mercado reclama, sem no entanto haver qualquer preocupação com o futuro. Em outras e simples palavras, o mercado de trabalho não será o mesmo daqui a quatro ou cinco anos quando então os ingressantes de agora serão os egressos de amanhã.
Se há culpados nesse cenário pouco ou nada importa mas o todo social vai pagar pesado
pedágio pela incúria. Mas, se existem culpados, há toda uma cadeia em cipoal determinando há muitos anos aquelas escolhas e o exemplo maior fica para as escolas de Direito no país que já somam um montante maior que todas as escolas no planeta. Pode ?

A que se atribuiria o desinteresse pelas engenharias, sobretudo pelas licenciaturas ?
Quanto às primeiras, a falência do ensino de matemática pode explicar ? Com relação às segundas, o baixo salário nas escolas públicas — maior campo de empregabilidade —também explicaria isso ?
Se houvesse redução drástica no volume de vagas, tanto nas escolas de Direito como Administração, pela dificuldade de acesso aí inerente, faria a juventude migrar para outros cursos ?
Há influências determinantes tanto para a procura dos cursos “campeões” como aos “derrotados”, por exemplo, por contaminação familiar, durante a educação do médio, em cursinhos, etc. etc. ?
Insisto na escolha temporal: o ingressante só estará formado daqui a quatro ou cinco anos e lá na frente, com certeza o quadro será outro. E com mais absoluta certeza ofertando vagas de emprego em proporção decuplicada às de hoje, nas áreas ora desconsideradas.

Nossos poucos cursos de engenharias e licenciaturas são poucos e jurássicos. Para as “engs”
faltam docentes e laboratórios, para as “licencs” inexiste norte magnético com formações
capazes, com novas tecnologias pedagógicas. Elas sequer têm no currículo disciplinas voltadas
para a EAD. Pode ?

Apenas para ilustrar, a Fuvest apresenta 560 vagas para Direito com 10.668 candidatos mas Pedagogia oferece 180 vagas para 995 candidatos, enquanto que Geografia oferta 170 vagas para uma procura de 778 candidatos, História contabiliza 270 vagas para 1.659 candidatos.
Em Letras, com 849 vagas ( um sucesso ) tem 3.333 candidatos (lá vai a língua ladeira abaixo ).

O Brasil, hoje, com seu rebanho, ocupa o honroso primeiro lugar em exportação de carne mas as vagas de Medicina Veterinária somam só 140 para uma procura da ordem de 2.152 candidatos. Na ressalva, Química-Licenciatura tem 70 vagas para 269 candidatos. Pode ?
As interrogações colocadas são para o número de vagas como para o de candidatos. Pode ?

Definitivamente, não temos um plano nacional de educação mas o para o próximo decênio ( 2011-2020) está se discutindo isso, embora o anterior (2001-2010)tivesse falhado em 66% de seu escopo. Com isso, no Congresso a questão ferve ou amorna, o CNE quase descarta sua responsabilidade, a iniciativa privada, pifiamente introduz na sua agenda de discussões, o MEC, como peão condutor de boiada conduz as rezes.Pode ?

Até aqui, tudo indica que as escolas superiores, sobretudo as privadas, não têm um “learning center”, reduto de discussões curriculares e programáticas, com influências majoritárias sobre
a oferta de cursos que interessem às instituições e ao país, para deixarem de vez as comodites e avançar com tratores sobre as manufaturas, a exemplo de um Japão. Prevalece a síndrome do umbigo. Ninguém preocupado e interessado em atravessar os séculos como inúmeras escolas européias e americanas, para não falar nas asiáticas.

Como diz Ryon Braga ( Revista Ensino Superior -SEMESP), não é que as escolas estão interessadíssimas nos meios mas não nos fins, pouco importando o amanhã mas preocupadíssimas com o presente. Pode ?

A propósito e para finalizar, quantos jovens você conhece que tiveram a escolha/opção acertada de cursos superiores com fundamento de vocação, de felicidade, de realização pessoal e profissional ?

No entremeio, como vai a educação no fundamental e médio ? Ah! Uma beleza! Na base do não quero nem que Deus me ajude porque pode estragar. Só o Diabo tem a solução.
Cachorro sem rabo não passa sobre pinguela, ou, passarinho que vive ao lado de morcego acaba dormindo de ponta-cabeça.
Mas afinal onde está o problema, como última pergunta ?
Arrisco dizer que é a mais alta falta de informação. A desinformação total e absoluta, decorrente da ausência de leituras, seja de jornais, revistas, TV e rádio que apregoam sistematicamente como “surfar o mercado nas ondas das oportunidades”, conforme Roberto Macedo.

Para arremate, envolvido com seletivo diferenciado, agendado e de entrevistas complementares, sujeitando os seletivandos a um questionário “básico” de entrevistas, as porcentagens de distanciamento dos noticiários de jornais e revistas, afora os de TV e rádio, os resultados foram aterrorizantes, em clima de globalização: menos de 10% estão lendo jornais e revistas semanais, assistindo aos telejornais ou ouvindo notícias em rádio. Tem de tudo que não importa para a profissionalização e empregabilidade: literatura espírita, de auto-ajuda, gospel, romances, sertanejo, axé e outras modalidades musicais. E o que é pior, “os caras” da geração Y estão aí, na porta de entrada das nacionais ou não, com um “iPod” pendurado nas “orelhas”, Pode ?

Mas o MEC, por derradeiro, via Enem, entende que não podem participar do certame os que
foram reprovados. Por que ? Submetam-se a quantos seletivos aparecerem até darem respostas aprovacionais. Qual o problema ? Acertou tá dentro !

Por acaso, o MEC/CNE restringe o número de vestibulares/seletivos em instituições particulares, impedindo que o candidato não se submeta ao vestibular/seletivo seguinte, mesmo que ele ocorra na próxima semana . Qual o problema ?

Não por acaso, em Brasília, tem gente se refestelando nos melhores restaurantes da cidade, após o expediente: Felicitá, Famiglia Pomodoro, Savassi, Taí Delivery. Eta nóis!!!!