Ogeriza aos números

18 maio

Prof. Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br

Nunca tive muita intimidade com os números e quando percebo alguém com grande domínio sobre eles, na matemática ou aritmética, me sinto um tanto pequeno. Pra falar a verdade, bem amedrontado e até tentei tirar tal “paura” lendo algumas obras de Malba Tahan. Ineficazes.

Vez por outra lemos em jornais e revistas, ou mesmo pela TV, a citação equivocada/imprecisa de cifras. Para quem escreveu o texto parece não significar muito a diferença entre milhões e até bilhões, falando, por exemplo, sobre a dívida interna/externa.

Chegam a informar que em algum cataclismo o número de mortes foi de perto de 500 pessoas quando em verdade foram 300 ou 700. E por aí vai. Pouco importando se cem a mais ou cem a menos. Às vezes, milhares como o recente tsunami no Japão.

No mundo da educação, os números são estratosféricos, de uma prodigalidade sem igual, configurando uma bonança, pobreza ou gastança incomum.
Nos últimos dias o noticiário dava que 3 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola e que só metade dos brasileiros entre 15 e 17 anos está no ensino médio.
Explicações necessárias à parte, a mídia precisa situar o universo com exatidão pois metade de 200 milhões de pessoas é uma coisa. Mas, metade dos habitantes com aquela faixa etária ( ? ) é outra coisa. Ou seja, temos 6 milhões de jovens entre 15 e 17 anos ? Aqui começa o “imbroglio” que a mídia tanta gosta: deixar o leitor abobalhado com números.

São números muito robustos para quem gosta deles em condição superlativa.
Como sempre, mais estarrecedores do que os números, são os fatos ligados a eles. A informação de que 14 milhões de jovens com 15 anos de idade não sabem ler nem escrever derruba qualquer colosso grego. É numero supino. Dio Santo.

Vejamos essa cifra apontada no noticiário nacional : temporários chegam a 46% dos professores em São Paulo. Pra quem está discutindo o novo PNE que já deveria estar em vigor ( 2011-2020 ) é mamão com mel. Pode ?

E esta outra : Cresce número de jovens sem escola e emprego e o problema é maior entre as mulheres; ensino médio não prepara para mercado nem para faculdade.

Pra quem gosta de números fatídicos é um deleite: De cada 100 jovens brasileiros, 24 nem estudam nem trabalham. No total, são cerca de 2,4 milhões de pessoas que não conseguem se inserir no mercado ou continuar os estudos. E, apesar da queda geral da taxa de desemprego, esse número vem crescendo.

E a notícia numérica a seguir, não é o máximo ?
Mundo terá mais de 2 bilhões de internautas neste ano, diz UIT
O número de internautas no mundo praticamente vem dobrando desde 2005 e deve ultrapassar a marca de 2 bilhões antes do fim do ano e atingir os 30% da população mundial, segundo levantamento feito pela União Internacional das Telecomunicações (UIT). Deste total, 1,2 bilhão, ou 67%, estarão em países emergentes.

Outra notícia alvissareira, muito auspiciosa, é a de que o número de “professores leigos” no Brasil – que só concluíram o ensino fundamental ou o ensino médio regular – aumentou em todas as etapas da educação básica. Dados do Censo Escolar 2009 mostram que 152.454 profissionais dão aulas sem a formação adequada para alunos matriculados em creches, pré-escolas, ensino fundamental e até ensino médio nas cinco regiões do País. Eles representam apenas 7,7% dos docentes que atuam hoje nas escolas brasileiras. O total é de 1.977.978.

Bom, querer estar entre os dez melhores no PISA, com esse time, é muita pretensão, não é mesmo ?
E esta outra informação, com excelentes “boas novas” ? Segundo o último Censo Escolar, em 2008 foram reprovadas 74 mil crianças de 6 anos, que estavam aprendendo a ler e escrever.
Existem mais de 152 mil escolas públicas e privadas de ensino fundamental no País, com 31 milhões de alunos.

Posso não ter boas intimidades com os números mas que eles gostam de ser confrontados, não tenham dúvidas. O clima é perverso : Um livro, um aluno. O Censo Escolar de 2009 mostra que, especialmente na rede pública do ensino fundamental, a situação requer atenção especial e investimentos urgentes. Nesse nível de ensino, das 152.251 escolas públicas e privadas em funcionamento no país, pouco mais de um terço (34,3%) têm bibliotecas. A situação é pior na rede pública, já que a maioria (75%) das 20,3 mil escolas particulares têm acervo de livros,
Saindo do território do Fundamental e Médio, entrando pelo superior, vem o espetacular feito quantitativo do Brasil que alcançou em 2008 a 13ª posição na classificação mundial em produção científica, ultrapassando a Rússia (15ª) e a Holanda (14ª). De 19.436 artigos em 2007, essa produção subiu para 30.451 publicações em 2008. Estados Unidos, China, Alemanha, Japão e Inglaterra são os cinco primeiros colocados, seguidos da França, Canadá, Itália, Espanha, Índia, Austrália e Coréia do Sul. Com esse aumento na produção científica, o Brasil passa a contribuir com 2,12% dos artigos de todos os 183 países.

Quanto à qualidade das contribuições brasileiras nada se falou. Em São Paulo, a rua 25 de Março contribui com alguns bilhões do PIB nacional “vendendo” produtos chineses. Dá pra entender, né mesmo ? Quem sabe, perguntando, o Ministro da Educação responde.

Dá pra acreditar nesses números a seguir, um tanto fantasmagóricos ?
Quase 7 milhões de brasileiros estudam via internet
Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que 11% dos internautas brasileiros já fizeram cursos online.
O leitor conhece algum deles ?
De acordo com a pesquisa, dos 63 milhões de usuários de internet que existem no Brasil, conforme mostrou o censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2009, aproximadamente 6,9 milhões estudam ou já estudaram à distância pela web.

Para arrematar, Gersem Baniwa, indígena de uma tribo do Amazonas, coordenador geral da educação escolar indígena do MEC, informa que existem 2.836 unidades de ensino e 200 mil estudantes da educação básica, atendidas, conforme o Censo de 2010, aprendendo o português em detrimento da própria língua materna. Que bom !

Índios, “unissez vous” porque a cobra tá fumando cachimbo e a onça chegou pra beber água.
Valha me Deus, me absolvendo.
Meu inferno é o mundo dos números.