Do Lado Direito, não do Avesso

16 jul

Prof. Roney Signorini –
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Há poucos dias, neste junho de 2013, chegou-nos às mãos outra edição da excelente revista (nº 177) do IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor -– trazendo ótima entrevista concedida pela profa. Lisete Arelaro, diretora da Faculdade de Educação da USP, na qual ela deita críticas contra a expansão de empresas privadas no ensino superior sob o título Democratização às Avessas na Educação.

Do lide da matéria, para efeito de economia, alguns trechos com aspas,
“… Lisete expressa preocupação com a baixa qualidade na formação em faculdades particulares, critica a falta de política de formação de pesquisadores, cobra rigor na fiscalização do MEC, alerta para o perigo da disseminação dos cursos na modalidade EAD e comenta o impacto da contratação de sistemas de ensino nas escolas públicas”.

Para uma análise isenta sobre dita entrevista, é forçoso perguntar se as afirmações foram feitas com base em apreciação dos IGCs e CPCs das IES, principalmente nas licenciaturas e bacharelados dos cursos de formação. Embora tendo alguma intimidade com as estatísticas do INEP, não consigo localizar todos esses cursos. Ou seja, quantos são, em quais habilitações, número de ingressantes e concluintes, grau de evasão/desistência, repetências e retenções, retomadas, transferências, etc. etc. E, sobretudo das origens do público que procura pelas carreiras de magistério, do fundamental ao médio. Sabe-se que a quase totalidade saiu do ensino público, o que quer dizer, mal e sofridamente concluído. Portanto, tal pecha decorre da incúria governamental – municipal, estadual ou federal – subtraindo-se do cenário a responsabilidade da iniciativa privada.

Tal premissa, por si só, inocenta a iniciativa privada, que não criou a aprovação automática(promoção continuada), o PROUNI, o SISU e o ENEM. Muito menos as cotas no plexo educacional, absurdo no qual não prevalece a meritocracia.

Nesta incursão apreciativa, ficam de lado os demais cursos e áreas pois exigiria alongamentos que só podem merecer atenção por especificidades, o que é tarefa hercúlea para o momento.

Vale aqui, por lembrança, episódio que pode bem retratar o quadro, a justificar alguma deficiência em propostas educativas no setor privado, quando ouvi de um diretor de TV sobre o baixo índice da programação do canal. Dizia ele que é impossível elevar os índices no IBOPE pela simples razão de que falta boa programação pela inexistência de anunciantes. E faltam anunciantes pela péssima programação. Como resolver senão tirar o programa do ar, fechar o núcleo de produção, despedir os contatos (gente que aproxima a estação da agência de publicidade)?

De fato podem faltar algumas condições à iniciativa privada para a mantença de alguns cursos de Formação, diferentemente daquelas que o poder público municia como os listados pela professora Lisete: “… jornada e condições de trabalho para os professores, equipamentos, atualização de conhecimento, sendo pagos para melhorar o conhecimento, podendo ir ao exterior, tendo bolsas de estudo permanente, enfim, condições de trabalho bastante razoáveis.”

Dentre as milhares de IES, muitas centenas se aplicam a fazer de suas escolas casas dignas desse nome, envidando esforços gigantescos para a continuidade da tradição, do nome, da qualidade e sobretudo pela consequência natural de seus propósitos, que é a possibilidade de empregabilidade. Ninguém menospreza clientela. Seria o fim da linha.

Quanto ao gigantismo que alguns grupos educacionais estão alcançando no cenário brasileiro/mundial eu ressaltaria duas opiniões: ainda bem, pois sem a eficácia administrativa deles o que seria das instituições que beiravam a pobreza podendo culminar em fechamento com consequências desastrosas para o setor, para as famílias e aos próprios estudantes; por segundo, se tudo que é grande começou pequeno, se tudo que está errado tem de ir ao acerto, pois só com ele existe compromisso , é de se esperar que o pão venha depois da farinha.

Ninguém em sã consciência deseja transitar por loucuras, desplantes e demências educacionais. Tudo a seu tempo e a cada passo, melhor, sobretudo se o clima for cooperativo entre públicas e privadas, sem o que algumas etapas poderão ser mais difíceis, morosas e custosas. São fundamentais parcerias e reciprocidades no único escopo do educador que precisa ver o conjunto como bem nacional. E nada de trazer paralelismos com outros povos/nações porque nesse tocante cada um é cada um com seus projetos de todas as ordens, inclusive o político. Não é preciso buscar isonomia com a China, EUA ou Chile onde há histórias, culturas, genes e DNAs totalmente diferentes. Assim evitamos a esparrela de tratar diferentes como iguais.

Se a iniciativa foi governamental na criação do PROUNI, por certo razões e motivos existiam, quem sabe os de que, embora “custando” aos cofres públicos, isso represente, com algum acerto, que as mesmas vagas aplicadas no setor público fossem seis vezes mais caras ao erário.

Embora, adiante-se, os alunos contemplados com o beneficio sejam atendidos com expressivíssimo volume de Mestres e Doutores, com regimes de dedicação, e minimamente por simples graduados, conforme o INEP, aprendendo em laboratórios com investimentos quase cinco vezes superiores ao que os governos fazem em suas escolas, majorando acervos bibliotecários sem igual na história. Particularmente, não sou adepto às quantidades, daí porque inclinar-me somente à qualidade bibliográfica, descartando dissertações e teses transformadas em obras de consulta regressivas/digressivas. E cá pra nós, como tem.

Tratar sobre EAD em pequeno espaço editorial é correr riscos, a iniciar porque engatinha no país, tem sérios problemas sobretudo de capacitação docente para os AVAs – ambiente virtual de aprendizagem -(quantas licenciaturas no país estão dedicando ao menos uma disciplina curricular para isso ?) , inadequação de aplicação da modalidade a todo e qualquer curso/área, momentos de presencialidade, bibliografias ao dispor (sérios problemas autorais), equipamento e instrumental informatizado necessário, imersão no conceito da auto responsabilidade e compromisso pessoal, boa formação anterior dos vários atores envolvidos, conhecimento prévio de currículos e conteúdos a desenvolver. E por aí vai. Mas que é uma realidade mundial não tenhamos dúvida.

Embora não tendo procuração de governo(s), sempre respeitosamente às colocações da professora Lisete, como até aqui dedicado , é preciso expor discordância a dois pontos de sua entrevista:

1-) os sistemas privados de ensino que estão adentrando nas redes públicas do país têm razões que podem ser justificadas pela própria desídia de governos, que nunca conseguiu formular em nível nacional os conteúdos programáticos, até mesmo caminhando à deriva na postulação deles. O jornalista Fábio Takashi, pela Folha, em 7/12/09 informava que por levantamento feito no Estado de São Paulo 37% das redes municipais de ensino não possuíam currículo para suas escolas. De onde adotar/comprar o projeto pronto, construído, acredito, em total sintonia para com o público a que se destina. Afinal, as centenas de docentes, pedagogos e operadores da educação que estão a formular tais sistemas são gente de nomeada, dotados de muitas habilidades e competências, que talvez tenham migrado do setor público ao privado levando suas inteligências, à procura de melhores salários, reconhecimento e respeito.

2-) quanto ao PNE 2001-2010 há pouco por dizer dada a sua falência de não implementação sequer em 50% do que foi estruturado. Ou seja, jogaram uma pá de cal. Quanto ao de 2011-2020, é uma caixa preta, ou de Pandora. Já decorreram seis meses e ainda desfila em passarelas de orgulhos e vaidades, com muitos holofotes, reiterando a síndrome do spotlight político.