Salas de aula para o futuro

22 nov

Luís Paulo Kufner
Psicopedagogo e Orientador Educacional

É possível aproximar de forma inteligente tradição e inovação? Há espaço para conquistar o sucesso sem acompanhar a evolução dos tempos? Quando se discute isso no âmbito da educação as respostas não parecem tão simples.

Há alguns dias tive o prazer de ler um artigo muito interessante, intitulado “A Implosão da Sala de Aula”, de autoria do professor Roney Signorini. O texto convidava a uma reflexão sobre a imperiosa necessidade de fazer chegar ao mundo universitário uma espécie de atualização estrutural. A proposta versava sobre a possibilidade de uma ampla discussão que ousasse abranger novas arquiteturas, revisar programas, conteúdos, currículos e propor um expressivo investimento na didática, com base no incentivo à criatividade e utilização de todas as tecnologias e metodologias disponíveis.

Simplesmente instigante! Deixei lhe um comentário no blog.
Motivado pelas ideias do articulista, fui convidado pelo próprio a prosseguir no caminho dos questionamentos que envolvem a questão e a apreciar o não menos instigante artigo do professor Gabriel Mario Rodrigues, “O descompasso entre universidade e realidade empresarial”.

O conteúdo, que também recomendo, joga luz à dramática situação de boa parte dos jovens alunos, obrigados a conviver com o inaceitável distanciamento existente entre a realidade das empresas e os defasados conteúdos acadêmicos. Também deixei-lhe um comentário no blog.

O assunto parece tão relevante que poderia ensejar um seminário para discuti-lo, ou muito mais que isso.

Não se trata de questionar tudo o que existe, absolutamente! Bem sabemos que há conteúdos tradicionais e fundamentais que sempre deverão ser mantidos. Todos reconhecemos aqueles valorosos e destacados professores, exemplos do que há de mais nobre na docência.

Estes, principalmente, já pautam suas aulas por iniciativas que privilegiam didática, organização de conteúdos, criatividade e um pragmatismo compromissado com o futuro de seus discentes. Por isso, não se permitem desvincular os conteúdos de sua aplicabilidade no mercado de trabalho e se tornam tão importantes. Mas, infelizmente, não constituem a regra!

É comum nos depararmos com toda a sorte de profissionais nas universidades. Parte dos professores acadêmicos se refugia nas universidades à procura de mestrados e doutorados, muitas vezes estimulados somente por bolsas de estudo. Muitos, até por mediocridade, após não lograrem êxito em suas profissões, com o intuito de complementar suas rendas e/ou sobreviver, ministram aulas sem demonstrar qualquer vocação ou compromisso com a docência. Em alguns casos, desconhecem completamente o mercado para o qual preparam seus discípulos, desestimulando-os.

Contrariam as mais simples noções da essência que envolve o nobre ofício de ensinar, quais sejam, formar e oferecer um modelo com amor e responsabilidade.
Os currículos acadêmicos, por sua vez, parecem existir para formar verdadeiros “Franksteins”, com seus conteúdos desconexos, que não dialogam entre si e muito menos com o mercado de trabalho.

Assim, só por acaso poderiam oferecer às empresas um perfil de profissional parecido com o desejado. Não seria no mínimo coerente entender a expectativa dos empresários para atualizar os perfis dos jovens em formação? Não é isso que nos sugere a genuína aplicação do marketing de resultado? Estudar as necessidades e as aspirações do cliente para satisfazê-lo integralmente e conquistá-lo?

Em consequência, um hiato cada vez maior se cria entre jovens sonhadores estudantes e empresas ávidas por novos e preciosos talentos. É o resultado de convivermos com a dinâmica do mercado de um lado, e o estático mundo acadêmico de outro. A modernidade está aí, para que as pontes sejam erguidas e as conexões estabelecidas. A zona de conforto já está sendo abandonada por iniciativas heroicas e pontuais. Aproximar esses dois mundos com qualidade e visão de futuro já tem nome em outros países: parceria. A universidade alimenta as empresas com profissionais atualizados e capacitados e estas investem naquelas para torná-las, cada vez mais, seus celeiros de talentos.

Para concluir, talvez, estarrecer, pouco (para não dizer nada) se ensina ou discute sobre liderança, gestão de pessoas, planejamento estratégico e empreendedorismo no meio acadêmico. Estes tópicos são considerados transversais e fundamentais a quaisquer negócios que evolvam equipes e vislumbrem algum tipo de sucesso. Qual atividade pode prescindir do emprego destes conteúdos em associação à sua formação específica? Qual empresário não observa os traços de liderança e visão estratégica como diferenciais em seus mais destacados colaboradores?

Não há mais como postergar. Temos de fazer as opções! Olhar para o futuro com ações no presente ou assistir, de forma passiva, as passadas largas do progresso alheio. A propósito, para responder aos questionamentos do início do texto: sim, é possível aproximar tradição e inovação; já contamos com boas iniciativas nesse sentido aqui no Brasil, felizmente!