A Educação não Educa. É uma Fraude

22 dez

Até hoje conhecemos apenas revoluções políticas e
 ideológicas, e o que sucede agora é uma revolução
 da consciência… Só despertando de nosso cego sonambulismo poderemos evoluir.   Claudio Naranjo

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Conhecer pessoalmente Cláudio Naranjo, professor em Berkeley desde 1968, depois de ter lido algumas de suas obras, ouvir suas palestras e sobretudo mergulhar reflexivamente nas suas teorias, é algo extraordinário. Não sem razão estão a indicá-lo para o Prêmio Nobel da Paz 2015. Ultimamente esteve em São Paulo nos meses de maio e agosto proferindo palestras no Colégio Dante Alighieri. A revista Época, no final de maio, trouxe-o de volta à cena em extensa entrevista.
De postura serena, voz tranquila e olhar amistoso, o médico psiquiatra chileno, de 83 anos, ao falar se impõe: “A educação não educa. É uma fraude. Não se deve confundir instrução com educação”.. Com essa saraivada, procura influenciar a opinião pública e as autoridades com a ideia de que só uma transformação radical na educação poderá mudar o curso catastrófico da História.

Em sua mais nova obra—A Revolução que Esperávamos–(Verbena Editora), Cláudio Naranjo afirma que a crise atual só pode ser superada por uma mudança profunda no modelo educacional. No mundo da psicoterapia, é reconhecido como um dos mais expressivos profissionais da atualidade. Há mais de 40 anos em atividade e com diversos livros publicados, Naranjo fundamentou linhas psicológicas, integrou a sabedoria oriental aos processos científicos ocidentais de estudo do comportamento humano e fundou uma abordagem de desenvolvimento denominada SAT (sigla em inglês para Seekers After Truth, ou Em Busca da Verdade), um programa holístico constituído por práticas da psicoterapia moderna, concepções espirituais, meditação, terapias corporais e de gestalt.

Do alto dos cabelos e longa barba branca, ele sentencia que a crise que estamos enfrentando não é apenas econômica, mas multifacetada e universal, e pode ser um sinal da obsolescência do conjunto de valores, instituições e hábitos interpessoais que chamamos civilização. E vai além dizendo que precisamos de uma mudança da consciência e o melhor caminho é a transformação da educação, por meio de uma nova formação de educadores – orientada não só para a transmissão de informações, mas para o desenvolvimento de competências existenciais. Assim, a crise de valores exige revolução na educação. E conclui que os livros podem transmitir conhecimento, mas atitudes só podem ser ensinadas por pessoas; e o atual modelo educacional deixa o aspecto pessoal do professor em segundo plano. Assim, as escolas ainda não cumprem um dos quatro pilares estabelecidos pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 1990: o de educar para Ser.

A proposta do professor Naranjo é estabelecer o desenvolvimento de competências existenciais, não técnicas, classificadas como amor ao próximo (empático); amor aos ideais (devocional); amor a si (desejos); a consciência do presente; o autoconhecimento (quem sou) e o desapego. Para ele, essas competências, negligenciadas ao longo dos anos, são a forma ideal de os professores difundirem, entre si, os resultados encontrados no desenvolvimento a partir de suas experiências, de sua transformação. A formação permite a eles que sejam mais completos como pessoas, consequentemente, melhores profissionais. E isso não se restringe ao educador, mas a todos os profissionais, em qualquer área. Equivale dizer que é preciso ser uma boa pessoa, é preciso relacionar-se com o outro como pessoa, ser um modelo de pessoa, e não apenas um modelo de saber.

Nas plateias, Naranjo inquieta os acomodados, nas poltronas, nas consciências e no ensimesmamento, e na soberba com disparos de grosso calibre como quando afirma que a educação destina-se ao desenvolvimento humano, não à incorporação de conhecimentos. Para que passar anos oferecendo ao jovem o conhecimento do mundo exterior quando já o encontramos no Google? De que serve essa prática? Isso é um roubo da vida do jovem. Isso serve para quê? Para passar anos somente para aprender a se sentar quieto? Para treinar a obediência? Nesse contexto, o educador tem imposta uma vestimenta interna de atitude, de respeito à autoridade educacional. Isso dificulta que ele tenha uma voz transformadora. Algo como impor que o objetivo da educação seja manter as pessoas adormecidas, robóticas, obedientes à força do trabalho construída com a Era Industrial, o que continua sendo a motivação opressiva da educação.

Temos um sistema que instrui e usa de forma fraudulenta a palavra educação para designar o que é apenas a transmissão de informações. É um programa que rouba a infância e a juventude das pessoas, ocupando-as com um conteúdo pesado, transmitido de maneira catedrática e inadequada. O aluno passa horas ouvindo, inerte, como funciona o intestino de um animal, como é a flora num local distante e os nomes dos afluentes de um grande rio. É uma aberração ocupar todo o tempo da criança com informações tão distantes dela, enquanto há tanto conteúdo dentro dela que pode ser usado para que ela se desenvolva. Como esse monte de informações pode ser mais importante que o autoconhecimento de cada um? Para Naranjo, o nome educação é usado para designar algo que se aproxima de uma lavagem cerebral. É um sistema que quer um rebanho para robotizar. A criança é preparada, por anos, para funcionar num sistema alienante, e não para desenvolver suas potencialidades intelectuais, amorosas, naturais e espontâneas.

Toda a placidez com que Naranjo coloca suas ideias em público parece acompanhar uma expressão usada pelo presidente americano Theodore Roosevelt: “Fale suavemente, mas tenha sempre um porrete na mão. Você irá longe”. Frases de efeito – como “A educação atual produz zumbis” e a afirmação de que ”As crianças são tachadas como doentes com distúrbios de atenção e de aprendizado, mas em muitos casos trata-se de uma negação sã da mente da criança de não querer aprender o irrelevante” – caem como bombas nos auditórios.
Com atitude politicamente correta, ele diz que “os ministros da Educação me recebem muito bem. Eles concordam com meu ponto de vista, mas na prática não fazem nada. Pode ser que isso ocorra por causa da própria inércia do sistema. O ministro é como um visitante que passa pelos ministérios e consegue apenas resolver o que é urgente. Ele mesmo não estabelece prioridades”.