Linhas Cruzadas (Fogo Cruzado)

27 maio

Linhas Cruzadas (Fogo Cruzado)

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Muitos professores não deveriam estar em sala de aula pois 30% deles,  da 5a. a 8a. série não têm o diploma de nível superior. No Brasil, tem professor que sabe menos que aluno.  Professores com ensino Fundamental dão aula no ensino Médio, e por aí vai…

Pelo Censo Escolar, temos mais de 2 milhões de  professores no ensino básico (fundamental e médio) e desse universo 80% atuam na rede pública (municipal, estadual e federal). Chama a atenção que, no ensino médio, 15% dos mais de 600 mil professores não apresentam a escolaridade mínima para dar aula.

Ou seja esse é o quadro negro da qualidade de educação disponível em todo o país, em seus mais de 6 mil municípios, sob a grife de pátria educadora que não passa de um slogan publicitário, quando o governo reduziu R$ 7 bilhões do orçamento da educação.


Concluída a educação básica o jovem estudante quer pleitear uma vaga no curso superior enfrentando todo tipo de adversidades, a partir da carência econômica,  pouca ou nenhuma formação que tenha alguma equivalência àqueles que disputam essa mesma vaga, porém com ótima formação do ensino privado, a questão das cotas, a drástica redução de oferta de financiamentos como o FIES. Quem tem renda baixa agora não tem Fies, ou seja, pobre precisa pagar. Se com o Fies, os juros estão na base dos 6,5% a.a.
com  ressalva de que não existe mais financiamento de 100%.

 

De quebra, como exigência para a conquista do Fies o candidato precisa alcançar a pontuação mínima de 450 no Enem com uma renda do estudante que vai de 0,5 até 2,5 salários mínimos. A maioria das famílias brasileiras – 66% vivem com pouco mais de dois mil reais mensais.

Se o leitor achou pouco, o sistema ainda estabelece áreas prioritárias de atendimento: saúde, engenharia e licenciaturas. Para as demais é contar com a sorte.


Esse é o instante quando as linhas se cruzam (do fogo cruzado), quando o egresso do ensino público básico não consegue ir para o público superior mas o jovem oriundo do básico privado com certeza vai lograr sucesso no superior público, às expensas do contribuinte. Injustiças ? O contribuinte paga ensino da pior qualidade para os pobres, no básico, mas também paga educação de primeira linha para os ricos que ingressam na universidade pública. Perversidade.

Para 2016 há restrições impostas ao FIES no desenvolvimento do ensino superior brasileiro que vão colocar um freio em sua expansão. A previsão inicial de disponibilidade de vagas em 2016 é de 320 a 350 mil (250 no 1º e 70 no 2º semestre).


Afora a temeridade de não se conseguir alcançar  uma das principais metas do PNE que é atingir uma taxa de escolarização líquida no ensino superior de 33% até 2024. Ou seja, impossível de ser alcançada.  

 

Por algum motivo, o povo brasileiro, sendo pobres ou não, não dá importância à educação. Ninguém é considerado rico no Brasil por ser culto mas pela casa, pela conta bancária, pelo tamanho do carro. Não pelo grau de cultura e educação. Mesmo quem gasta dinheiro para estudar não está em busca de cultura, está em busca do emprego que a educação lhe dá. Uma segunda razão é social e política: o Brasil é um país dividido em duas classes bem separadas. Tudo o que é da parte rica é resolvido. O que é da parte pobre é abandonado.

 

O Enem já existe há algum tempo. Ninguém dava importância até servir de vestibular para a universidade. Quando era para avaliar a educação de base, ninguém se preocupava em saber a nota do aluno. As pessoas não percebem que, pior do que as baixas notas, é o fato de que quem faz o Enem são os melhores. Os 13 milhões de analfabetos hoje existentes no país não fazem o Enem, e 60% dos alunos não terminam o Ensino Médio e não têm direito de fazer o Enem. Foi espanto e surpresa geral e nos surpreendemos com 500 mil que tiraram nota zero (na redação), mas ninguém se surpreende que há outros 13 milhões que tirariam zero porque não sabem ler.

Michel Aires de Souza, do site Filosofonet é objetivo na avaliação dizendo que o governo culpa os professores pela má qualidade do ensino, mas não enxerga o verdadeiro problema e tenta resolvê-lo com receitas prontas e acabadas. Em São Paulo o governo criou  a progressão continuada, os ciclos, a avaliação contínua, a recuperação paralela, deu um novo sentido ao conceito de escola (a escola aprendente), deu também um novo sentido ao papel do coordenador. Contudo, nenhuma dessas ações surtiu efeito. As avaliações externas como Saresp, Saeb, Prova Brasil demonstram resultados pífios. O governo se exime da culpa e diz que o problema está na formação dos professores.  O que o governo ainda não enxergou, por miopia, é que os problemas da educação são de ordem política, social e cultural. São vários os fatores que levam o aluno a um déficit de aprendizagem.

 

A entrada de  estudantes pertencentes a  segmentos menos favorecidos na instituição de ensino superior é recente.

Tal novidade, provocou a recomposição da problemática das desigualdades educacionais entre classes sociais no campo da sociologia da educação e renovou as pesquisas sobre trajetória escolar e condições sociais, particularmente, entre os jovens. Mas os dados afirmam que ao menos 20% dos alunos de federais poderiam pagar mensalidade. O perfil desses estudantes não difere muito do de particulares.

No Brasil, o filho do rico estuda na universidade pública, e o do pobre vai para a particular. Esta é provavelmente uma das afirmações mais repetidas em conversas sobre o perfil dos estudantes no ensino superior no país. As estatísticas do IBGE mostram outro cenário.
A renda média por pessoa no domicílio de um universitário em instituição pública no Brasil é de R$ 1.189, conforme o Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2012. Entre os alunos de instituições particulares de ensino superior, esse valor chega a R$ 1.332, ou 12% a mais. É possível identificar que, apesar de ainda ter um perfil de universitário com renda um pouco superior ao das públicas, foi no setor particular em que houve maior queda na renda média de seus alunos, provavelmente por efeito do ingresso de alunos mais pobres com bolsas do ProUni e crédito estudantil.

Para os operadores da educação nacional todo dia é de se prevenir contra espantos do que é estampado pela mídia como a que informa:
A rede estadual de ensino de São Paulo registrou a exoneração de 9.279 professores entre janeiro de 2011 e junho de 2015. Esse número representa a saída de 172 docentes da sala de aula por mês, em média.
Diretores de escolas da rede municipal de ensino são escolhidos apenas com base em indicação política em 74,4% dos municípios brasileiros. Os dados são referentes a 2014.
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o Perfil dos Estados e dos Municípios Brasileiros referente ao ano de 2014. O estudo mostrou, entre diversos aspectos, que 12 Estados não possuem plano estadual de educação.
Cerca de 40% dos municípios brasileiros não têm secretaria para tratar exclusivamente da educação, revela a pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

E para fechar com chave de lata um recorte da situação, o jornal O Globo – em Editorial recente publica que Aposentadoria engatilha bomba-relógio na Educação. Estudo do MEC mostra que, nos próximos seis anos, até 40% dos professores do ensino médio no país poderão sair das salas de aula, ao optar pela inatividade.
No contencioso da Educação brasileira, não são poucos os sinais de que o país vive crise sistêmica no setor. Em 2014, por exemplo, num ranking de 36 países elaborado no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as nações de maior Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil amargou o penúltimo lugar, levando-se em conta o desempenho de alunos no teste internacional Pisa (que avalia conhecimentos de leitura, matemática e ciências dos adolescentes). Também no ano passado, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostrou que, de 2011 a 2013, o desempenho no ensino médio do país caiu em 13 estados. E é notória a medíocre performance do saber na Universidade brasileira, salvo exceções, na comparação com unidades de ensino superior internacionais.

Em torno desses sinais, em si preocupantes, arma-se uma bomba-relógio: até 2021, cerca de 40% dos professores no ensino médio poderão se aposentar. Essa estimativa, calculada em estudo do Ministério da Educação, sinaliza que, se até agora as demandas relacionadas ao universo da rede de ensino vêm sendo empurradas para a frente, a iminência de uma grande debandada de docentes das salas de aula constitui um risco para o qual não se pode fechar os olhos. Há um colapso no horizonte.