Trocentos Milhões de Desempregados [1]

31 jul

Sejam dez, onze ou doze milhões faria diferença ?
Um milhão já é o fim de muitos mundos.

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 

A mídia busca vorazmente os números para informar a população e justifica que os dados são coletados de fontes fidedignas. E alardeia com isso o declínio da empregabilidade, majoração do desemprego provocando os céticos, por aí indo no chamado jornalismo negativo que tem a máxima de quanto pior, melhor.

Os números vão se alterar, quando e como isso vai ocorrer senão para pior?

A avaliação do quadro funcional de muitos veículos de comunicação, sobretudo a mídia impressa, explica o tobogã que se tem à frente, ou melhor, penhascos intransponíveis que ameaçam outras centenas de profissionais. E não tem saída quando a questão é simples: não tem anunciante, não tem veículo. O veículo deixa de existir quando não se tem anunciante. Simples assim.

E não é bem isso? É inimaginável alguém ter prazer em anunciar o fim, o apocalipse familiar deflagrando todas as raivas, infortúnios, desesperos e conflitos que o ser humano suporta porque sem emprego, em última análise, é ficar sem comer já que tudo o mais fica para além do último desejo: roupa, carro, estudo, viagem, caderneta de poupança, etc. e põe etc. nisso.

Mas, porém, todavia, quem perdeu o emprego e amarga o seguro desemprego, filas enormes de entrevistas, envio de currículo para todo canto, ampliação ou (re)ativamento do network, na base do “quem sabe…?” Até a pizza da sexta-feira ou do sábado fica para depois…

A realidade é que bem ou mal estamos perto de contabilizar 12 milhões de gente que perdeu o emprego pelas mais diversas razões, as quais não interessam para o despedido, mas a mesma mídia ainda não apareceu com resultados focados nos diversos públicos e assim generaliza tudo, consagrando mais temores, mais desilusões, perda da esperança, descrença, sentimento de tristeza, frustração, desapontamento, decepção. Ficamos sujeitos a um estado emotivo do qual todos fugimos, sempre, pois transmite sofrimento e dor.

Nada mais triste do que um pai de família desempregado, do que um jovem recém-admitido no primeiro emprego, do que um veterano ocupando uma função por vários anos ter de deixar o local, dispensado.

Do outro lado, o empresário, o comerciante, o industrial, o banqueiro, o dirigente de escola, todos aflitos com a necessária tomada de medida para estancar prejuízos, cessação de vendas, interrupções industriais e por aí vamos.

O que não se sabe, ao certo, é

1-) do volume que a imprensa indica como desempregados, qual a formação deles? Qual o nível de escolaridade? São de qual sexo?

2-) quantos só têm a escolarização básica, quantos têm graduação e pós?

3-) quais as idades desses indivíduos? Ou seja, quantos até 20 anos, de 20 a 30 anos, de 30 a 40 anos, de 40 anos ou mais ?

4-) como e quando o desemprego poderá ser revertido? Se reempregado como ficará a nova situação de faixa salarial? Será igual ou menor do que a anterior? Como ficam seus projetos?

5-) independentemente de vínculo laboral com CLT, seja como avulso, temporário ou autônomo, como, de que forma, quando isso ocorrerá?

6-) particularmente na questão educacional, os desempregados carregam(vam) alguma relação com o FIES, quantos dependiam do Pronatec ou Sisutec? Vão parar de estudar, vão adiar seus projetos de vida? Até quando? É um acontecimento que causa grande sofrimento e prejuízo (físico, moral, material, emocional). A pior desgraça que pode se abater para a juventude, fracasso completo, grande revés, uma ruína para o percurso educacional interrompido, difícil de ser superado. A retomada é tão mais distante quanto foi o ingresso na universidade.

Em outras palavras, o problema é muito mais grave pois, dependendo do quadro/perfil, há toda uma maneira própria de ver e entender o cenário. Não são simplesmente 12 milhões de desempregados, genericamente.

O desemprego aumentou em todas as regiões do Brasil na comparação com o ano passado, segundo dados do primeiro trimestre do ano oferecidos pelo IBGE e mostram que está mais forte no Nordeste do Brasil. No Nordeste, são 12,8%. A taxa é um pouco menor no Sudeste e no Norte e está abaixo dos 10% nas regiões Centro-Oeste e Sul.

A Bahia é o estado com maior índice de desemprego: 15,5% da população economicamente ativa não está conseguindo encontrar ocupação. Esses números são a expressão maior da recessão, que obriga empresas a demitir, quando não a fechar.

A taxa de desocupação atingiu, no primeiro trimestre deste ano, 10,9%, e a população desocupada chegou a 11,1 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa é a maior taxa de desemprego da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua) iniciada em 2012.

Teóricos afirmam que o desemprego pode ser classificado como:
1-) tecnológico: ocorre em países que substituem o trabalho humano pelo robotizado e que apenas buscam especialistas e extinguem o trabalho braçal;

2-) estrutural: existe em países subdesenvolvidos por causa de concentrações de mão de obra em trabalhos rurais, pela ausência de desenvolvimento tecnológico;

3-) conjuntural: quando há baixa estimulação de investimentos no país acarretando em baixas remunerações para altos preços de mercado.

Para Gabriela Cabral, do Mundo Educação, no Brasil, o desemprego é provocado por baixa qualificação, educação precária, trabalhos informais, precariedade na proteção social, migração de áreas rurais que são pouco desenvolvidas, etc. Hoje, o país ocupa o terceiro lugar no ranking mundial de desempregados perdendo somente para a Índia e a Rússia. São cerca de 1,5 milhões de desempregados somente na cidade de São Paulo. Essa amostra nos conduz à avaliação em termos nacionais: um desastre.

Medidas como reforma tributária, agrária e social amenizariam o problema do desemprego no país, mas a prioridade de focar a distribuição de trabalho, melhorias na área da educação, saúde, habitação, transporte, alimentação e outras devem partir do governo que tem como obrigação projetar soluções e aplicá-las convenientemente.

[1] O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) coletou dados em perto de 38.500 domicílios situados nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre.
Nem os institutos de pesquisa se entendem e mostram disparidades quando o índice de desemprego medido pelo DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconomicos traz diferenças se confrontados com os do IBGE em razão de metodologia de cálculos. Para o IBGE são quase 11 milhões e para o DIEESE SAP quase 14 milhões. Para cada milhão a representação é de 1%. Ou seja, 4% não tem significado  quando um milhão já é o fim de muitos mundos?