Inovação Incomoda Sectários

7 ago

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.
Jean Cocteau

A palavra, parece, ganhou ares intelectuais, de sofisticação. Fala-se nela e dela como menina-moça.
Salvo se a desatenção fosse demais já faz tempo, há muito vem se falando sobre isso.
É que sobre inovação poucos se dão conta das mudanças, como o caso da blue blade Gillete que andou em passos galopantes até o Mach 3 de hoje.

Os dicionaristas são econômicos nos verbetes, tratando a palavra sem a importância e magnitude que ela merece: ação ou efeito de inovar, aquilo que é novo, coisa nova, novidade (Houaiss).

Antonio Carlos Teixeira, o Senhor Pense Diferente (www.pensediferente.com.br), um papa brasileiro em criatividade e inovação tem algumas instigantes reflexões, em especial para o setor de educação: “Por que, muitas vezes, é tão difícil pensar diferente, implantar a gestão da inovação? O que nos impede de transformar novas ideias em novos negócios? Na escola, quais são os fatores que atrapalham e os que ajudam a inovação? Qual é o ambiente mais adequado para aplicar o Processo Criativo? Como criar um clima mais favorável às novas ideias? Que comportamentos e atitudes deverão ser evitados? A excessiva preocupação com um programa engessado, o medo de tentar novas alternativas, o “sempre fizemos assim” e punições por erros desestimulam a criatividade e inovação”.  

Teixeira questiona se o que a escola prioriza é empenho total na busca de melhores maneiras de transmitir o conhecimento ou fazer tudo funcionar sem problemas, sem surpresas, na mesmice? Para ele, os erros e os fracassos são vistos como parte de um processo, que integra a aprendizagem, por isso não devem ser reprimidos nem punidos. “Os Diretores e Orientadores ouvem críticas e questionamentos sobre normas e tabus? Ao invés de dizerem “não”, aceitam o “por que não?”, permitem que as pessoas perguntem “E se…”?

Segundo Teixeira, muitas escolas já identificaram a importância da criatividade e da inovação como diferencial competitivo. E estão dispostas a tratá-la como um sistema, não como ocorrências eventuais. Porém, na hora de implementar, muitas das dúvidas acima aparecem. O corpo discente percebe o quanto é fácil ou difícil aceitar a criatividade e inovação em seu trabalho. O clima organizacional gera pessoas com mais ou com menos motivação, para criar ideias inovadoras.

Um provocador perguntaria “e daí?”, acrescentando outras indagações como quem faz ou deixa de fazer, quando acontece, como e por que surge? Existem condicionantes para que o processo de inovação ocorra, qualquer um é capaz de inovar? Qual o combustível da inovação, ser criativo, encontrar ambiência ou ao contrário buscar a solitude e o retiro e desprezar a característica essencial da nova geração e dos novos tempos – a colaboração?

Na Wikipédia constam 404 mil resultados para a palavra e não faltam desdobramentos como inovação aberta, tecnológica, social, disruptiva, etc.
Tem até Índice Global de Inovação, nosso Ministério da Ciência e Tecnologia também agregou Inovação no título, o Instituto Europeu da Inovação e da Tecnologia. Por aí vai, ou vamos.

A questão que se coloca, no setor educacional, é quem realmente inova, por meio de quais medidas, quanto logrou de sucesso senão diante de alguma temeridade?

Marcelo Pimenta, professor da Pós-Graduação da ESPM e criador do Laboratorium, tem uma colocação sugestiva: “uma pergunta é recorrente: como faço para inovar se meu chefe não suporta inovação? Minha empresa não gosta de nada novo, tenho medo até de expor minhas ideias, o que eu faço? Em ambientes que não são propícios à inovação vale a sabedoria popular: ir comendo o mingau pelas beiradas, como sopa quente”.

Sabidamente, inovação pode gerar crescimento e a pessoa ou empresa que mais cresce não é a famosa de hoje. É a famosa de amanhã. E não depende de segredos, pois já está pronta para se revelar ao mercado. Basta um olho clínico em cima das inovações. Afinal, o consumidor, o usuário, o cliente, tomador de serviços quer é NOVIDADE. O déjà vu não faz parte do repertório da atualidade.

De início, fica-se flertando, namorando, noivando. Degustação é para isso: levar a pessoa para o altar. Se o casamento vai demorar, continuar e persistir é outra história. Ao menos até que apareça outro NOVO. Inovação é muito frágil e volúvel. Muda do dia pra noite (veja-se o caso dos telefones → celulares → smartphones → phablets → …?), acompanha a mudança, que é o estado mais puro no planeta, entre pessoas, bichos ou plantas.
Portanto, é preciso, antes de mais nada, interpretar a inovação e sua adoção, seja com o lado emocional ou o racional (real).

O mundo está repleto de “inovações” exequíveis, ou não. Muitas delas foram para as prateleiras e outras para as gavetas infernais do esquecimento.

O inovador conta com o “impulso de consumo”, com a fantasia, com a mágica do brilho, mais barato (?), mais colorido, mais saboroso, mais duradouro, impressionante, útil. É só adicionar outras centenas de adjetivações e alguém encontra a “sua” resposta. Resta saber se a aceitação do novo deve ser unanimidade.

O fato inegável da inovação é que o inovador quer vender mais, muito mais, e em melhores condições, com mais lucratividade. E o melhor (ou pior) , ser reconhecido com o tal do “diferencial de mercado”: o meu tem um prego a menos, um odor mais suportável, uma densidade mais aceitável, etc. etc.

Inovação sempre aparece como condição de “agregadora de valores”. Quais?
A última tecnologia nos apresentou as lâmpadas led ou as minifluorescentes que duram até oito mil horas. As incandescentes nem são mais produzidas. Então, não são autênticas inovações? TVs tem de plasma, de led, etc. A de tubo já era.

Algum “esperto” (químico), décadas atrás, nos deu o Mandiopã. Lembra dele?
Alguma coisa parecida com a nossa velha pururuca (couro de porco frito no óleo) que se expande ao máximo.
O tal Mandiopã sucumbiu diante da realeza da pipoca ou amendoim salgado torradinho como aperitivo. Afinal, esse era o propósito da inovação: dominar os aperitivos.

Mas, inovação tem alguma coisa a ver com o ensino básico, o universitário, o tecnológico, com os negócios, com o bem-estar? Tudo a ver, mas a questão é deixar de lado ambições, narcisismos e exclusivismos que atraem como ímã gigante todas as pretensões humanas. Um buraco negro de ilusões. O consumo, além de ser imprudente, demora para ser aceito. Vide a oferta de novas gerações de celulares que demoram para ser aceitos e utilizados até que a poeira assente.

Voltando para a educação, o que de novo, inovador mesmo, surgiu nas últimas décadas? Nada, se comparado à tecnologia digital, porque a sala de aula continua a mesma. O professor, quando esse é o ator responsável pelas mudanças no/do planeta, continua lá na frente “tentando” convencer os alunos sobre sua “verdade-realidade”, a velha lousa, e o caduco giz cansado perduram, como se fossem a inovação definitiva.

Então, como trabalhar com a inovação útil, promissora, efetiva e reprodutora de outras inovações?

Inventores de moda, como dizia meu pai, precisam contar com dois elementos: o tempo e as ferramentas. Faltando um não vai dar certo. Mas, inventividade, criação e inovação têm algo a ver entre eles? São sinônimos ou irmãos siameses?
Obedecendo ao verbete do dicionarista, inovação é decorrente da inventividade, que cria e, portanto, inova. Simples assim.

É o mercado que inova criando novas ocupações e funções ou a escola que sai na vanguarda criando e inovando em formações e assim dispondo de detentores de outras, novas habilidades e competências?

O grande inibidor da inovação é o medo, a paura de que não vai dar certo. A ausência deles é que torna os destemidos grandes agentes das mudanças.