VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA [1]

21 ago

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

(…) foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra.

Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!. Lá sou amigo do rei”.                                  

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira foi um dos gênios da literatura brasileira e nesse poema bem expressou o que milhares de brasileiros desejam, no íntimo, como realização de vida: o sossego, a paz e a tranquilidade, contrariada pelo turbilhão diário de muitos inconvenientes, dissabores, desalentos e sobretudo desencantos da cidade grande.

O poema refere-se a um vindouro distante, repleto de coisas novas, uma espécie de modernidade e de eldorado terreal, um sonho, um desejo como fuga da sua realidade melancólica e da solidão.

Afinal, saindo em direção a Pasárgada deixa-se para trás “o Quinto dos Infernos”, que é onde tudo de ruim acontece: analfabetismo, violência geral, inflação galopante, juros escorchantes, megacorrupção, creche sem vagas, trânsito caótico, ônibus lotados, multas de trânsito a dar com pau, guerra entre torcidas, pancadões na esquina. E dá-lhe infortúnios como greves em setores essenciais, água racionada, preço da energia elétrica lá em cima, árvores caindo em todo lugar, enchente e políticos tripudiando a consciência nacional.

Afora os travos que atravessam o paladar como, se chove, o metrô para ou vai mais devagar (único no mundo!); filas quilométricas para tudo, sempre; poluição fatal; alimentos contaminados e datas de vencimento expiradas, nos supermercados; e da programação de TV pouco se salva, um lixo (ainda não reciclável).

Aí, a Ministra Ada Pellegrini Grinover sai-se com esta: “Com crise de poderes, Judiciário tomou conta de tudo”, afirmando que, enquanto o Brasil não adotar um regime de governo com menos concentração de poder, problemas políticos e econômicos continuarão paralisando o país.

Mas, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman [2], as instituições políticas perderam representatividade porque sofrem com um ‘déficit perpétuo de poder’. Ele denuncia a perda de referências políticas, culturais e morais da civilização, que desemboca num sentimento de incerteza quanto ao futuro que costuma perpassar de maneira difusa os diferentes estratos sociais.

Há dois fatores que, pelo menos no Brasil, explicam esse desalento. O primeiro é a destruição da confiança, que, entre nós, já atinge quase a totalidade da opinião pública informada. Ninguém mais acredita que partidos e candidatos tenham outro objetivo que não seja o enriquecimento rápido e ilícito. O segundo fator é o preço crescente, em termos econômicos, dos conchavos entre partidos. O custo da multiplicação de ministérios inúteis, de cargos supérfluos, da perda de eficiência, da irracionalidade na aplicação de recursos, da incompetência na escolha e gestão de projetos e do custo das reformas, que não se fazem porque mexem com os interesses dos partidos, beira valores astronômicos. E o sentimento é de decadência.

Comumente, associa-se o conceito de decadência às imagens – e também às realidades – de declínio econômico, de disfuncionalidade política, de regressão social, de queda relativa nos padrões de vida, de desordem institucional, de involução moral, quando não ao caos gerador de conflitos exacerbados. Estes, sim, possíveis gatilhos do colapso de toda uma sociedade, que, felizmente, ainda não soçobrou na anomia e na desorganização, a que são normalmente associadas essas noções de decadência ou de declínio.

O diplomata Paulo Roberto de Almeida [2], ao criar o Pequeno Manual Prático da Decadência (http://diplomatizzando.blogspot.com/2013/04/pequeno-manual-de-decadencia-para-uso.html), estabeleceu dez tópicos para subsidiar diagnósticos de sinais precursores de uma decadência anunciada (não necessariamente percebida). Segundo ele, pode-se saber que um país, ou uma sociedade, está em decadência quando:

  • o sentimento de mal-estar se torna generalizado na sociedade, ainda que possa ser difuso;
  • os avanços econômicos são lentos, ou menores, em relação a outros povos e sociedades;
  • os progressos sociais são igualmente lentos ou repartidos de maneira desigual;

4   a lei passa a não ser mais respeitada pelos cidadãos ou pelos próprios agentes públicos;

5   as elites se tornam autocentradas, focadas exclusivamente no benefício próprio;

6   a corrupção é disseminada nos diversos canais de intermediação dos intercâmbios sociais;

7   há uma desafeição pelas causas nacionais, com ascensão de corporativismos e particularismos;

8   a cultura da integração na corrente nacional é substituída por reivindicações exclusivistas;

9   a geração corrente não se preocupa com a seguinte, nos planos fiscal, ambiental ou outros;

10  ocorre a degradação moral ou ética nos costumes, a despeito mesmo de “avanços” materiais.

Para o Reverendo Hernandes Dias Lopes, “a sociedade brasileira está doente. Suas entranhas estão infectas. Seu mal é grave e crônico. O perigo de morte é iminente. A decadência da sociedade é moral e espiritual. Alcançamos o progresso científico e econômico, mas nossa cultura está moribunda. Conhecemos os segredos da ciência, mas não conhecemos as profundezas abissais do nosso próprio coração. Amealhamos riquezas e despontamo-nos como a sétima economia do planeta, mas nosso povo chafurda num pântano nauseabundo de pecados vis. Temos as maiores reservas naturais do planeta, mas estamos perdendo nosso senso de valores. Agigantamo-nos diante do cenário mundial, mas apequenamo-nos diante do espelho da verdade” (http://hernandesdiaslopes.com.br/).

Novamente é Bauman, um dos pensadores mais eminentes do declínio da civilização, quem nos dá régua e compasso para traçar uma saída: “Sou tudo, menos desesperançoso. Confio que os jovens possam perseguir e consertar o estrago que os mais velhos fizeram. Como e se forem capazes de pôr isso em prática, dependerá da imaginação e da determinação deles. Para que se deem uma oportunidade, os jovens precisam resistir às pressões da fragmentação e recuperar a consciência da responsabilidade compartilhada para o futuro do planeta e seus habitantes” (http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/02/bzygmunt-baumanb-vivemos-o-fim-do-futuro.html).

Novamente, eu me repito, sem cansar: o antídoto para esse declínio é a educação transformadora, capaz de criar Pasárgadas, espaços acolhedores, sem distinção de cor, etnia, gênero, classe social, onde a criatividade dê o diapasão de um novo tempo.

 

[1] Pasárgada, uma cidade da antiga Pérsia, é atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, no Irã, situado 87 km a nordeste de Persépolis. Foi a primeira capital da Pérsia Aqueménida, no tempo de Ciro II da Pérsia, e coexistiu com as demais, dado que era costume persa manter várias capitais em simultâneo, em função da vastidão do seu império.

[2] Zygmunt Bauman é professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman tornou-se uma figura de referência da sociologia.

[3] Diplomata, mestre em planejamento econômico pelo Colégio dos Países em Desenvolvimento da Universidade de Estado de Antuérpia e doutor em ciências sociais pela Universidade de Bruxelas. Trabalhou como assessor especial no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.