Brasil uma potência paralímpica

18 set
O mundo é para quem se atreve
Propaganda das Paralimpíadas – Rio 2016

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Novamente brilhamos na abertura dos Jogos Paralímpicos, no Rio de Janeiro, na última quarta-feira, 7 de Setembro, e com isso, quem dera pudéssemos comemorar duas efemérides com dois bravos gritos de independência.

A abertura dos Jogos Paralímpicos 2016, no Rio de Janeiro foi, para mim, muito mais emocionante do que a da Olimpíada Rio 2016: houve um show de criatividade, tecnologia e de momentos imprevisíveis, mas que só adicionaram brilho, emoção e lição para todos nós, que nos consideramos “normais”.

Em um deles, a ex-paratleta Márcia Malsar, que sofre com paralisia cerebral, quando perdeu o equilíbrio enquanto carregava a tocha olímpica e caiu. Com a força de uma campeã dentro e fora das pistas, recusou qualquer ajuda, levantou-se e foi aplaudida de pé pelo Maracanã tão cheio de gente quanto na Olimpíada, abraçando em carinho e respeito os 4,3 mil atletas que desfilaram sob aplausos e chuva. Exemplo de resiliência, Márcia entregou a chama para a ex-velocista Ádria dos Santos, que tem seis participações em Jogos Paralímpicos, 537 medalhas conquistadas no Brasil e outras 70 internacionais. Ádria, então passou a tocha ao último condutor, Clodoaldo Silva, dono de 13 medalhas, sendo seis de ouro. Ao receber a chama, o nadador seguiu rumo à pira, mas se deparou com uma enorme e – para ele, cadeirante – intransponível escada. Nesse momento, a escada se abriu transformando-se em uma rampa de acesso e emocionando o público.

A intenção do Comitê Paralímpico foi justamente causar um momento de reflexão nos espectadores sobre a importância e a necessidade de um mundo desenhado para todos, de uma sociedade realmente igualitária. Esse milagre tecnológico, segundo o site hypeness, é ideia do designer Chan Wen Jie. Seu projeto, Convertible, consiste em um lance de escadas funcionais que se transforma em rampa para cadeirantes, bastando para isso apertar uma alavanca – um conceito user-friendly essencial para quem tem dificuldades de mobilidade.

Apesar do baixo orçamento, a abertura dos Jogos Paralímpicos primou por soluções criativas e sofisticadas. mudar o olhar, acolher a diversidade e conviver sem excluir. Com um espetáculo mutissensorial, a abertura da paralimpíada propiciou à plateia vivenciar a realidade dos atletas paralímpicos, pois instigou o público a usar os sentidos, transmitindo a mensagem para a população mudar a percepção em relação à pessoa com deficiência.

E a pessoa com deficiência esteve presente desde a concepção do espetáculo – a cerimônia foi idealizada pelo escritor, dramaturgo e cadeirante Marcelo Rubens Paiva, pelo design Fred Gelli, sócio da criativa e colaborativa Tátil design de ideias, e pelo artista plástico Vik Muniz, artista plástico brasileiro fotógrafo e pintor, conhecido por usar materiais inusitados em suas obras, como lixo, açúcar e chocolate – à execução do nosso Hino Nacional por João Carlos Martins, de 76 anos, pianista portador de Lesão por Esforço Repetitivo (LER) nas mãos e que já fez 22 cirurgias para amenizar o problema, ao belo espetáculo protagonizado por Amy Purdy, atleta de snowboard, e Kuka, o braço automotivo, ao impecável pas de deux dos dois dançarinos cegos, à loira atleta americana que rebolou com categoria sobre duas próteses, ao impressionante salto de um cadeirante sobre uma rampa em alta velocidade, à projeção do nadador e maior medalhista brasileiro em Paralimpíadas, Daniel Dias, atravessando o gramado com suas braçadas, à chegada dos protagonistas do acontecimento: os para-atletas, enquanto os nomes das delegações eram exibidos em um quebra-cabeças, muito original, transformado em um coração pulsante – em referência ao conceito central da cerimônia, resumido nas frases “O coração não conhece limites”, em português, e”Everybody has a heart”.

O Maracanã se curvou aos atletas que vencem suas deficiências e aprendeu a entender melhor o que virá pela frente nas competições.

Pena que, enquanto essa maravilha de criatividade, superação, perseverança e lição de vida acontecia, os telespectadores brasileiros continuavam alheios a ela, assistindo à programação normal das emissoras, com seu mundo-cão e novelas… Atleta paralímpico, ainda, não vende tênis, camiseta, desodorante e shampoo.

Neste ano, o Brasil, que espera ficar em quinto lugar ao final das competições, terá a maior delegação da história em Jogos Paralímpicos: serão 279 atletas, sendo 181 homens e 98 mulheres. Ao todo, 44 atletas de 11 modalidades já subiram ao pódio em paralimpíadas anteriores. Na de Londres, ficamos em sétimo lugar com 43 medalhas no total (21 de ouro, 14 de prata e oito de bronze). No ano passado, nos jogos Parapan-Americanos de Toronto, o Brasil ficou em primeiro lugar no quadro de medalhas, com 257 no total, sendo 109 de ouro, 74 de prata e 74 de bronze.

O que se percebe é que, desde 1960, quando 400 atletas disputaram em Roma os primeiros – e oficiosos – Jogos Paralímpicos, o campo paradesportivo caminhou do amadorismo abnegado para o profissionalismo. A percepção da mídia, no entanto, apesar de, cada vez mais, tentar eliminar o processo de estereotipagem, reforça a visão que considera a pessoa com deficiência como um problema clínico, tratável, e que, ao ser superado, rende-lhe, então, o mito de herói.

Representantes do Comitê Paralímpico Internacional (CPI) destacam a importância da adoção do esporte como forma de criar sociedades que valorizam a diversidade e a inclusão. Em sessão desse Comitê, a aprovação do certame das paralimpíadas mostra o poder do esporte de unir indivíduos, independentemente da sua condição física e mental, idade, raça, religião, habilidade, orientação sexual ou identidade de gênero.

O que vai ficar destes Jogos Paralímpicos Rio 2016 é uma grande dose de esperança, sem dúvida. Esperança de haver um tratamento inclusivo às pessoas com deficiência. Esperança de que, apesar de todas as adversidades, é bom que as pessoas com deficiência se dediquem ao desporto, e que queiram competir e obter resultados. Esperança de que nossa mídia, responsável pela construção da imagem desses atletas, melhore nosso conhecimento dessa parcela de pessoas e contribua para a mudança de paradigmas sociais em relação às pessoas com deficiência, porque é ela, a mídia, que vai promover a discussão do tema, visando a uma mudança de atitude da população, além de levar-lhe informação capaz de criar e transformar as normas comportamentais para que as pessoas com deficiência vivam uma vida plena, no sentido de participação na sociedade.

Entendo também os Jogos Paralímpicos como um recado provocativo aos jovens universitários brasileiros. Cadê a Mac-Med, a Pauli-Poli[1], dos anos 60 em São Paulo (só para citar as mais conhecidas)? Cadê a realização de torneios e disputas como antes se via, com grandes duelos entre as principais universidades do país? Com o olho na vontade e obstinação férrea desses jovens com deficiência, o que se deve esperar dos bem dotados?

As IES brasileiras poderiam espelhar-se nos números financeiros (só para abordar um dos ângulos da questão) das universidades norte-americanas e incentivar o esporte entre seus alunos: o esporte universitário nos Estados Unidos cresceu a tal ponto que a NCAA, entidade que dita regras e organiza competições, faturou US$ 913 milhões no ano fiscal de 2013 (R$ 2,1 bilhões), segundo reportagem do Globo Esporte.

Universidades americanas são a base do esporte nos Estados Unidos. É delas que saem atletas que disputam – e quase sempre vencem – Jogos Olímpicos e ligas profissionais como NFL (futebol americano), NBA (basquete), MLB (beisebol) e NHL (hóquei).

Segundo o antigo lema Mens sana in corpore sano, o esporte é essencial para a formação do indivíduo, numa prática que alia momentos de aprendizagem, lazer e saúde, numa abordagem integrativa e lúdica, de forma que o esporte não seja apenas um elemento de desempenho, mas também de desenvolvimento humano.

Que o legado destas paralimpíadas não sejam só de infraestrutura, mas sobretudo de mudança de mentalidade. Precisamos dar asas à nossa imaginação e à criatividade, assim como fizeram milhares de pessoas com deficiência. Elas venceram seus medos, não se renderam à autopiedade e são uma lição de vida para todos nós.

Para finalizar, fico com o grito de Vera Garcia[2]: “Qualquer tipo de deficiência física, seja ela por nascença, por acidente ou mesmo por doença, tem sua especificidade e singularidade. De uma maneira ou de outra a deficiência física acaba limitando o nosso corpo. No entanto, precisamos acreditar em nossa capacidade, habilidade e competência”.

[1] Mac-Med, nome dado aos jogos entre estudantes da hoje Universidade Mackenzie e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Pauli-Poli, disputas entre alunos da então Escola Paulista de Medicina e da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

[2]Vera Garcia é paulista, pedagoga e blogueira e amputada do membro superior direito devido a um acidente na infância. http://www.deficienteciente.com.br/5-historias-de-superacao-incriveis.html