Empreendedorismo: elo entre mercado e universidade

11 dez

Universidade e empresas têm de trabalhar juntas pela inovação. A fórmula, vitoriosa em todo o mundo, ainda não vigora no Brasil. Os alunos já perceberam que há algo errado. Os professores, ainda não.

A epígrafe acima é também o “lead” da excelente matéria publicada na revista Época, de 23 de outubro, com a assinatura de Paula Soprana: Universidades brasileiras falham no ensino de empreendedorismo.

Não é bom fazer comparações, salvo se para dar exemplo e com isso balizar circunstâncias, como é o caso do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), fundado em 1861, que se mostra como uma universidade voltada ao empreendedorismo e ajuda o país a se desenvolver. Vejam-se estes números:

1-) 30 mil empresas foram fundadas nas últimas décadas;

2-) 4,6 milhões de pessoas trabalham nessas companhias;

3-) 60 cursos ministrados no MIT têm relação com empreendedorismo;

4-) 279 patentes lançadas em 12 meses, até julho;

5-) 25 companhias criadas em 12 meses, até julho.

Seria bom nos espelharmos neles. Destaque-se, entretanto, que o PIB brasileiro é hoje semelhante ao dos Estados Unidos na década de 1950. Daí a comparação ser inadequada, mas oportuna e, talvez, estimulante.

A discussão é velha, mas sempre atual, o que faz recordar vários embates havidos nas coordenações de cursos, entre docentes, reitores e demais quando afloravam as perguntas para que serve a universidade? e também a quem ela serve?

De bate pronto, a primeira resposta cai sobre as cabeças dos interlocutores: formar o aluno transmitindo-lhe conhecimentos. Quanto à segunda, bem, não há unanimidade, pois uns dizem: ao aluno, à sociedade, à cultura nacional, quando o cliente da universidade não é o aluno, mas o mercado.

Apesar de a maioria dos universitários brasileiros ter a vontade de empreender, poucos deles estão pensando em ter empresas que cresçam rápido em poucos anos. Entre os 58% dos universitários entrevistados que indicaram pensar em empreender no futuro, apenas 11% esperam que suas empresas tenham mais de 25 funcionários cinco anos após a abertura. Mesmo entre outros 11% dos pesquisados, que já são empreendedores, o sonho de ter um negócio que cresça rápido também está longe de ser uma unanimidade: apenas 17,4% esperam alcançar esse resultado.

O fato de a maioria dos universitários não sonhar com grandes negócios não é o único resultado que deixa a desejar. A maioria dos alunos também não se prepara para empreender. Apenas 14,1% indicam que gastam tempo aprendendo a iniciar um novo negócio. Mesmo entre os alunos que “pensam muito em empreender”, apenas 22,6% disseram ter a mesma dedicação para começar a empreender. Esse é o cenário captado pela Endeavor e pelo Sebrae.

Essa falta de prática para empreender também pode ter impacto nos resultados sobre a confiança dos alunos para realizarem atividades típicas de um empreendedor, como contratar, gerir as finanças ou definir uma estratégia para um novo produto. Entre os alunos que apontam baixa dedicação para empreender, apenas 20% se sentem muito confiantes para abrir um negócio. Entre os que dizem se dedicar, esse número dobra: cerca de 40% se sentem muito confiantes. “Se tivermos mais universidades e professores que estimulem seus alunos a inovar, a se preparar e a sonhar grande, com certeza o Brasil poderá ter no futuro grandes histórias de empreendedores”, afirma Pamella Gonçalves, Gerente de Pesquisa da Endeavor.

Mas, afinal, por que a universidade é tão pesada, demora para reagir, adota um corporativismo medieval, se recusa a inovar, se opõe à criatividade e se fecha em si mesma?

No buscador do Google, citando empreendedorismo & universidade surgem 459 mil publicações sobre o assunto.

Conforme Ricardo Schinaider de Aguiar [1], “a aproximação entre o mundo empresarial e o acadêmico pode ser fundamental para a inovação e o desenvolvimento tecnológico do país, e a importância em inovar e gerar novos conhecimentos e tecnologias vem crescendo e mudando a relação entre esses dois núcleos nas últimas décadas. Em todo o mundo, principalmente a partir da segunda metade do século XX, houve a aproximação entre as instituições acadêmicas e o mercado. No Brasil, esse processo ganhou força a partir do início do século XXI e ainda está em expansão. As principais universidades não estão mais apenas empenhadas em produzir conhecimento e formar profissionais, mas também em contribuir com o desenvolvimento tecnológico e econômico do país. Assim, por meio do empreendedorismo estimulado em universidades, está sendo quebrada a barreira cultural que separava o mundo acadêmico das empresas, estabelecendo uma nova e benéfica relação para ambos”.

Em realidade, ainda são poucos os profissionais aptos a incentivar o empreendedorismo no meio acadêmico. Como o ensino dessa área ainda é recente no Brasil, a formação de professores especializados é uma dificuldade, assim como mostrar ao universitário a importância de se preparar para empreender no futuro. O estágio em empresas é uma das maneiras de dar o passo inicial. Entretanto, eles são frequentemente conduzidos de maneira inapropriada e distanciam os estudantes do mundo empresarial. Muitas vezes não estimulam o empreendedorismo nem a troca de conhecimento. Isso acontece, por exemplo, quando os alunos são colocados apenas para realizar tarefas operacionais. Quem sabe, diante desse quadro, esteja a resposta a que as iniciativas são poucas e pequenas. Pífias, exatamente porque a universidade fecha os olhos ao mercado produtivo e se distancia dele levando na rabeira seus universitários. Teria isso algo a ver com política, mortadela versus coxinha, que intelectualoides insistam em esmurrar o capital e pregar que fora dos muros da universidade não existe nada?

A Lei de Inovação, criada em 2004, visa ampliar as parcerias entre universidades e empresas para contribuir com o desenvolvimento tecnológico do país. Os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) são uma das maneiras de tentar estabelecer melhores relações entre institutos de pesquisa e o setor produtivo. Nesses núcleos são detectados resultados de pesquisas com potencial para patentes, entretanto, ainda é observada resistência por parte dos pesquisadores, preocupados que alguém os “roube”.

Apesar dos benefícios oferecidos às universidades públicas, existem dificuldades para realizar o empreendedorismo dentro de universidades. As relações entre empresas e universidades são motivadas por diversos fatores, mas, ao mesmo tempo, são desestimuladas por outras tantas barreiras. Isso se deve ao fato de que ambas as organizações possuem naturezas distintas, com princípios e valores muitas vezes antagônicos. Por um lado, a universidade pode dar mais valor à pesquisa básica do que à pesquisa aplicada e sua comercialização, e ter docentes que não compreendam as necessidades do setor produtivo. Por outro, as empresas têm, em geral, visão imediatista e normalmente exigem o direito de propriedade intelectual.

As diferenças de interesse são parte importante na formação das barreiras. Enquanto as universidades visam à publicação de artigos científicos, as empresas objetivam o desenvolvimento de produtos com aplicações imediatas. Dentro da universidade frequentemente não se escutam as demandas da sociedade e das empresas. O objetivo final de professores é gerar um paper, e pouquíssimas vezes um produto para impactar e beneficiar a sociedade.

Assim, de orgulhos e vaidades com dissertações e teses, vamos pondo lenha na fogueira do atraso.

Tanto o interesse pelas características e comportamentos dos jovens como o tema do empreendedorismo estão crescendo no mundo inteiro. Organizações como o Fórum Econômico Mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) já estudam o fenômeno. No Brasil, organizações como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Fundação Dom Cabral e a Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de pequenas Empresas (Anegepe) também se debruçam sobre o tema.

Como parte desse crescimento, a educação empreendedora se tornou tema recorrente em todo o mundo e começou a ser visto como algo que pode ser ensinado às pessoas e não como um dom ou habilidade inata ao indivíduo. Mas ainda está faltando às instituições de ensino superior estabelecer estratégias para multiplicar o número de universitários que criam empresas inovadoras e transformam os setores em que atuam, gerando milhares de empregos no caminho.

A Endeavor e o Sebrae realizaram, em 2014, a quarta edição da pesquisa Empreendedorismo nas Universidades Brasileiras. O estudo entrevistou 2.230 alunos e 680 professores pertencentes a mais de 70 IES de todas as regiões do país. Os resultados revelam uma clara discrepância entre a percepção dos alunos e professores sobre o papel das universidades. Por mais que 65% dos professores estejam satisfeitos com iniciativas de empreendedorismo dentro da universidade, a média entre os alunos é de apenas 36%. O motivo dessa divergência é o fato de as faculdades não terem programas que apoiem toda a jornada do aluno que quer empreender: a maioria (54%) visa apenas inspirar o aluno a empreender, mas assuntos mais práticos, como o de franquias (3%) e gestão de pequenos negócios (7%) acabam não recebendo a atenção que merecem.

Outro grande desafio enfrentado pelas universidades é a falta de conexão entre seus professores e o mercado: a pesquisa detectou que 48% deles relataram nunca terem tido uma experiência empreendedora, e 38% não têm vontade e/ou tempo para abrir o próprio negócio.

Parece que nos falta reconhecer o papel e o poder da educação empreendedora sobre a inovação e o desenvolvimento econômico do Brasil. Nas universidades e faculdades nos Estados Unidos, o número de programas de educação empreendedora aumentou de um punhado em 1970 para mais de 2.000 em 2015. Desde então professores, pesquisadores, organizações de apoio às empresas e pessoas interessadas em desenvolvimento estão começando a dedicar-se mais à criação e à avaliação do impacto desses cursos.

Por aqui, é preciso conscientizar as Instituições de Ensino Superior sobre seu poder em contribuir com o nosso desenvolvimento econômico e social, atuando como agentes-chave do desenvolvimento do ecossistema empreendedor.

[1] Ricardo Schinaider de Aguiar: biólogo formado pela Unicamp, com especialização em Divulgação Científica também pela Unicamp.