Para o Brasil a torre do Pisa ruiu

8 jan

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

As pessoas precisam de três coisas: prudência
no ânimo, silêncio na língua e vergonha na cara.
Sócrates

Vergonha era um qualificativo muito temido, quando acompanhado de “falta” de vergonha. Os mais velhos enrubescem(iam) quando alguém dispara(va) uma cobrança se o indivíduo “não tinha vergonha na cara”.

A rigor a vergonha nunca esteve ou deixou de estar na cara de qualquer um, mas muito interiormente, no âmago da personalidade, do caráter e dignidade.

Eu me alongo um pouco porque o tamanho de nossa vergonha é igual ou maior do que os resultados pífios obtidos pela educação brasileira no PISA 2015, que se arrastam desde o ano 2000 quando foi criado, e com a certeza de que em 2016 será pior. É só olhar para o que aconteceu neste ano com escolas invadidas, falta de aulas, professores em greve, quebradeira e vandalismo por meses.

Na tentativa de compreender os fatores que contribuíram para esses resultados negativos, o UOL conversou com quatro especialistas na área da educação. Um dos argumentos foi unânime: o problema da formação do professor.

Conforme a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) [1], no Brasil, muitos jovens querem trabalhar como engenheiros, médicos, advogados e arquitetos. A parcela dos alunos brasileiros de 15 anos que declara interesse pelo magistério, porém, é zero. Por que será?

O dicionário Houaiss [2] exacerba ao tratar do verbete vergonha, conseguindo exatamente retratar a sensação quando conhecidos os resultados dos exames dos que estão entrando no ensino médio, que nos colocam de “lanterninhas” na educação mundial.

Por outras vezes já tratei desse assunto sinalizando algumas ações que poderiam tirar a educação brasileira da UTI, na qual estamos há muitos anos em razão de tantos desacertos, impropriedades, equívocos, erros
despropositados, beirando asneiras e tolices, porque, se há falta de entendimento de parte das autoridades no trato do tema, porque insistem em promover ações de cunho político? Então é hora de fechar para balanço.

Se as tantas medidas empreendidas ao longo dos últimos anos para melhorar o quadro da educação fundamental e média não obtiveram resultados, ao menos os esperados, o que se há de fazer?

Estudiosos e cientistas têm sido chamados para sugerir, opinar, indicar caminhos e alternativas, mas parece que a comunidade tem feito ouvidos moucos. Ouvidos de mercadores persas tolerando o intolerável seja por parte do governo, do ministério afeto, das secretarias de educação (estadual e municipal), dos operadores da educação, sejam públicos ou privados, instalados na isenção de responsabilidades.

Não é sem tempo impor mais rigidez na educação dessas fases, quanto a conteúdos e disciplina em salas de aula, ampliar a carga horária, aumentar a assiduidade, promover uma efetiva proposta de melhoria no curso de Pedagogia, sobretudo nas licenciaturas, que capengam e claudicam por falta de atualidades. De parte dos órgãos voltados ao assalariamento dos docentes, urge uma medida extraordinária, por que não extravagante?, de acomodar interesses que finalmente libertem a categoria dos grilhões que dão inércia; falta de reação, de iniciativa; imobilismo; estagnação.

As licenciaturas carecem, desde o primeiro semestre do curso, da aplicação de efetivas práticas e estágios, única forma de colocar a mão na massa.

Há um engodo, uma enganação, nesse particular, que leva todos os licenciandos a acharem que tais práticas e estágios são para enfeitar pavão, igual pensamento dos professores desses alunos, bem como das coordenações de cursos.

Afinal, onde está o nó górdio do problema, que vem se arrastando há anos, sem qualquer alteração do quadro? Ao que tudo indica, há uma orquestração para que as coisas caminhem mesmo na direção do fracasso e da derrota?

Quando o próprio ministro da pasta, Mendonça Filho, considerou uma “tragédia” o desempenho brasileiro no Pisa, é evidente que está tudo dito. Entre 2012 e 2015, os alunos brasileiros ficaram estagnados em leitura e ciências e retrocederam em matemática. “Temos investimento superior a 6% do PIB em educação. Como proporção, somos dos mais expressivos, e mesmo assim o desempenho não acompanha aquilo que é alocado para a educação. Não basta só investir mais, tem que investir com qualidade. As políticas públicas para educação fracassaram. O fracasso é claro”, disse. Ele reconhece que “há elementos positivos”, como mais inclusão, redução da repetência. “Melhorou o fluxo e diminuiu a exclusão. Temos mais acesso à educação, mas ela não melhorou em qualidade”, resumiu.

É possível afirmar que não se trata de uma questão de dinheiro, porque ele existe e é destinado, mas sua aplicação é promíscua, repleta de locupletação das verbas, como o caso das merendas, quantidade enorme de professores com afastamento, sempre de licença, adoecidos e ausentes das salas de aulas, gente que se acha preparada para o magistério mas não tem sequer a formação do ensino médio embora ocupe uma docência…

O MEC precisa urgentemente estruturar uma tropa de elite para tratar do assunto, sem muita verborragia e tergiversação, coisa de efetividade para solução, na linha de aplicabilidades. Como disse antes, fechar para balanço. Uma equipe com autonomia absoluta sem muito comício e palanques, sem salamaleques, cumprimentos exagerados; polidez afetada; rapapés e mesuras corporativas que só afloram vaidades e orgulhos pessoais ou grupais, mas distanciam-se abissalmente do efetivo propósito e finalidade: resolver o problema pois pela frente temos que mostrar resultados com o PNE (Plano Nacional de Educação), a reforma do ensino médio, seja com três, meia dúzia, dez ou quinze disciplinas, regime parcial ou integral, municiar laboratórios, pois apenas 11% das escolas os têm (portanto, inexistentes na maioria das escolas públicas), prover bibliotecas com assustadora insuficiência de acervo, quando não inexistentes nas escolas.

O quadro é negro e estamos escrevendo a história da educação também com giz negro, ou seja, ninguém vai ler / saber nada sobre essa lição.

 

[1] A OCDE, uma organização internacional, composta por 34 países e com sede em Paris, França, tem por objetivo promover políticas que visem ao desenvolvimento econômico e ao bem-estar social de pessoas por todo o mundo.

 

[2]

1 desonra que ultraja, humilha; opróbrio;

2 – o sentimento desse ultraje, dessa desonra ou humilhação; opróbrio;

3 – sentimento penoso causado pela inferioridade, indecência ou indignidade;

4 – sentimento de insegurança causado por medo do ridículo e do julgamento
    dos outros; timidez, acanhamento, recato, decoro;

5 – sentimento da própria honra, dignidade, honestidade; brio;

6 – atitude ou situação indecorosa ou vexatória.