Construindo uma Educação de Qualidade

20 maio

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com


Com esse título o Instituto Ayrton Senna ( IAS ), a Fundação Santillana, ELDiálogo Interamericano e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal realizaram em São Paulo um painel para discussões reunindo cardeais da educação como Viviane Senna, Ariel Fiszbein, André Lázaro, Eduardo Queiroz, Cesar Callegari( CNE ), Marialba Carneiro (Undime ),Antonio Neto ( Consed ).
A razão principal foi a apresentação do relatório “Construindo uma educação de qualidade: um pacto com o futuro da América Latina”, tarefa entregue a Ariel Fiszbein, diretor executivo da comissão ElDiálogo. Desejando conhecer o inteiro teor do relatório acesse http://www.institutoayrtonsenna.org.br/arquivos/Construindo-uma-educacao-de-qualidade.pdf

O evento foi concluído brilhantemente com uma mesa-redonda de opiniões com os participantes Emilia Cipriano, Priscila Cruz, Claudia Costin, Ricardo Paes de Barros, Mozart Neves e Ariel Fiszbein.
Para os painelistas, com total consenso, nos últimos anos o processo educativo na América Latina tem sido muito lento, e embora a matrícula e o investimento em educação tenham aumentado em praticamente todos os países da região, os déficits de aprendizagem ainda são muito acentuados e representam um sério desafio para o desenvolvimento com igualdade.

O relatório/livro chama a atenção para o problema da baixa qualidade educativa na região e propõe uma agenda transformadora, identificando áreas prioritárias nas quais são necessárias reformas e inovações. O crescimento quantitativo não foi acompanhado pelo qualitativo.
Alguns dados do relatório são aterradores e fantasmagóricos, com toda certeza já esperados e que o público ansiava não por saber mas por confirmar e assim é que entidades nacionais estão se voltando com todas as forças para mudar esse quadro.

E um bom exemplo é o de que há mais de 20 anos o Instituto Ayrton Senna contribui para desenvolver plenamente os potenciais das novas gerações por meio de uma educação de qualidade. Atuando como um centro de inovação em educação, em parceria com gestores públicos, educadores, pesquisadores e outras organizações, o IAS produz e sistematiza conhecimentos para apoiar a construção de políticas públicas e práticas educacionais efetivas e com base em evidências. Mas tem sido pouco ante o gigantismo do problema.
Sem risco de errar, o instituto, voltado para a educação básica, é o que mais tem contribuído com suas ações para o setor.

O cenário seria desanimador não fosse o empenho férreo para mudar o quadro, de parte dos institutos que operam nessa frequência, como os promotores do evento.

Senão vejamos, 20% dos futuros professores no Brasil têm nota vermelha, é o que destaca Angela Pinho, da Folha de São Paulo, em matéria de segunda-feira(28). Com baixos índices de qualidade da educação, o Brasil está recrutando futuros professores entre os piores alunos do ensino médio.

O resultado pode ser observado em levantamento feito pelo Inep sobre as notas obtidas no Enem, no qual os dados revelam, tristemente, que 19,1% dos candidatos que ingressaram em uma graduação de pedagogia no ano seguinte não conseguiriam sequer um certificado de ensino médio com a nota do exame. Tiraram até 450 pontos, considerando-se a média aritmética das quatro provas objetivas e da redação. Para obter um certificado de ensino médio —possibilidade aberta a pessoas com mais de 18 anos e fora da escola—, é preciso tirar 450 pontos em cada prova e 500 na redação. Mais, portanto, do que esse grupo de quase 1 em 5 futuros professores.

Conforme   ressalta José Francisco Soares, presidente do Inep à época da definição dos 450 pontos, e professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais. Os 450 pontos equivalem ao acerto de 6 a 8 questões por prova no Enem, de um total de 45. Ou seja, um desastre em termos de formação. Os cursos de pedagogia formam, principalmente, profissionais que atuam até a quarta série e educadores em cargos de chefia, como coordenadores e supervisores.

É gritante a distância entre teoria e prática em cursos de formação de professores, citada em diversas pesquisas sobre o tema mas as autoridades fazem ouvidos moucos.. Faltam nas universidades conteúdos sobre como atuar na sala e como alfabetizar, por exemplo.
A qualidade dos cursos também é bastante heterogênea e depende do perfil dos alunos que entram. Nas que recebem os de pior desempenho, com média abaixo de 450 pontos no Enem, alunos têm dificuldade de pensamento lógico, de leitura e de texto, afirma Carlos Monteiro, consultor de ensino superior.

Em entrevista para Flávia Yuri Oshima, da revista Época, (7/11/2016) – uma das maiores pesquisadoras em Educação do Brasil diz que a mentalidade predominante nos cursos de pedagogia é anacrônica e não atende as demandas sociais do país

A professora Bernardete Gatti[1], de 74 anos, interessou-se por formação de professores na década de 1960, quando poucos no país falavam no assunto.. Defende, sobretudo, que nenhuma formação de professores pode ser eficaz sem ênfase nas práticas de como ensinar – algo que não ocorre nas faculdades. Bernardete é a favor da criação de um exame nacional para professores, do aumento de salário, como peça-chave para mudar o perfil dos candidatos à profissão, e de avaliações constantes de professores, atreladas à remuneração.

Para Bernardete, o problema da formação de professores começa na faculdade. Os docentes de pedagogia e das licenciaturas – de matemática, língua portuguesa, biologia etc. – não sabem ensinar para quem dará aula. Isso porque eles mesmos não aprenderam como fazer isso. Para não dizer que a formação didática não existe, podemos dizer que ela é precária. A maioria dos futuros professores não aprende como lecionar. Não recebem na faculdade as ferramentas que possibilitarão que eles planejem da melhor forma possível como ensinar ciências, matemática, física, química e mesmo como alfabetizar. Muitos de nossos professores saem da faculdade sem saber alfabetizar crianças. É um problema grave.

Pelo visto e sabido, se não for possível mexer e mudar esse quadro tudo permanecerá como igual, sem relevância e distinção de preocupações como se estivéssemos “muito bem na fita” do PISA.

Apesar dos pesares, vem por aí mudanças estruturais na configuração do ensino médio. Sobre o corpo docente da área nada se sabe.

[1] Bernardete Gatti fez doutorado na Universidade de Paris, seguiu para o Canadá, para um pós-doutorado na Universidade de Montreal, e para os Estados Unidos, para outro pós-doutorado na área, desta vez na Universidade da Pensilvânia. Deu aulas de psicologia da educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Hoje, coordena as pesquisas da Fundação Carlos Chagas