E o Brasil, tem Jeito ?

20 maio

Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar
as crianças brasileiras, não consegui.Tentei salvar os índios, não
consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e
fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.
Darcy Ribeiro (1922-1997)

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 

Em 1982, numa conferência, Darcy Ribeiro profetizou: “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. Ele não só tinha razão, como também o país atravessa uma crise no sistema prisional sem precedentes, com 622 mil presos e um déficit de 250 mil vagas.

 

Na virada do ano, escancarou-se o horror bestial (de que o cidadão comum e “de bem” nunca desconfiou): chacinas entre facções do crime organizado, que começaram no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, espalharam-se como metástase por vários outros presídios. E chacina com requintes de crueldade, uma explosão de barbárie, com presos decapitados, desmembrados, incinerados.

 

As fotos devassam a intimidade dos presídios e o caos do sistema prisional. Superlotação das celas imundas infestadas de ratos e baratas (qualquer semelhança com masmorras medievais não é mera coincidência), com presos amontoados como animais à espera da degola. Surgimento de favelas – dentro dos presídios! –, com conhecimento dos agentes carcerários e diretores. Presos com armas de grosso calibre e facões (ambos não são de fabricação “caseira”. Pergunta-se: como estão lá?). Presos desocupados pelos pátios.

Tudo isso ao lado de outras fotos que mostram algumas celas “vip” para quem manda realmente no presídio: os “xerifes”, que dão ordens de massacre e, de dentro das prisões, comandam as ações das facções aqui fora.
A radiografia da população carcerária é previsível: 56% têm entre 18 e 29 anos; 67% são negros; 93% são homens; 53% não concluíram o ensino fundamental.

Dados do último Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), do Ministério da Justiça preveem que, se o crescimento da população carcerária mantiver o ritmo, em 2022 o Brasil superará a marca de 1 milhão de detentos. Segundo a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, também presidente do Conselho Nacional de Justiça, um preso custa ao Estado 13 vezes mais (!) que um estudante: em média, R$ 2,4 mil por mês (R$ 28,8 mil por ano), enquanto um estudante de ensino médio custa atualmente R$ 2,2 mil por ano.
“Investimento em educação, de fato, reduz a vulnerabilidade das pessoas, que ficam menos expostas ao crime. É pacificado na literatura, um fato científico”, afirma o pesquisador Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getulio Vargas e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Mas precisamos ir além desse mantra: temos que exigir qualidade no ensino e menos desigualdade. Países com menos desigualdade geram um povo educado e, consequentemente, menos violento.”


Já e
m 2013, um estudo do departamento de Economia, Administração e Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que para cada investimento de 1% em educação, 0,1% do índice de criminalidade era reduzido. Para obter esse número, a pesquisa analisou o gasto público em educação entre 2000 e 2009, e como o investimento impactou na redução da taxa de homicídios. Depois, observou como uma escola voltada para o desenvolvimento de conhecimento tem menos chance de desenvolver alunos violentos do que escolas com traços como depredação do patrimônio, atuação de gangues e tráficos de drogas.
A escola é um meio de transformação. Mas a boa escola: com professores valorizados, bem formados, para que crianças possam sonhar com um futuro que não seja miserável. “Estamos falando de adolescentes e jovens que moram nas periferias, lugares mais vulneráveis. Os dados mostram que a escolaridade na população carcerária é baixa e a realidade nos mostra que se houvesse escolas de qualidade, de fato, eles poderiam ter um futuro diferente”, garante a psicóloga Vanessa Barros, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais e integrante do Observatório Nacional do Sistema Prisional.
Na mesma revista Veja, de 11 de janeiro, que estampa as fotos da barbárie carcerária, a reportagem “O fausto da senhora Cunha”, como um bofetão na nossa cara, reproduz trechos de conversas no Whatsapp de Cláudia Cruz com amigas: “Nesse momento estou gastando uma grana no f mall! Hahahahah”; “Acabo de comprar a bobo [Bo.BÔ, grife de roupas de luxo] inteira! Rsss”; “To enchendo a barriga em portugal [com p minúsculo mesmo]! Bacalhau saindo pelas orelhas.” Outra reportagem da mesma edição (“Deboche aéreo do governador”) revela que, enquanto Minas Gerais enfrenta calamidade financeira e atrasa salários, Fernando Pimentel [governador de Minas] usa helicóptero do governo para buscar o filho numa festa de ano-novo, coisa que Renan Calheiros, Aécio Neves e Clóvis Carvalho [ministro de FHC em 1999] são useiros e vezeiros em praticar. Ah! E Sérgio Cabral também.
Este, aliás, também, tem uma “patroa” de fazer inveja a muita mulher, quem sabe até a Imelda Marcos tupiniquim, dos milhares de sapatos: joias, roupas, sapatos, restaurantes, viagens… Tudo às nossas expensas!
Eduardo Cunha e Sérgio Cabral estão presos (assim como tantos outros corruptos e corruptores denunciados pela Operação Lava-Jato). As somas conseguidas ilicitamente por todos eles são astronômicas e dariam para, no mínimo, amenizar a crise econômica por que passa o país. Por baixo, pó baixo, construir uma dezena de presídios de primeira classe. Mas, como canta Gal Costa: “Onde está o dinheiro?/ O gato comeu, o gato comeu/ E ninguém viu/ O gato fugiu, o gato fugiu/ O seu paradeiro/ Está no estrangeiro/ Onde está o dinheiro?”.
Toda essa gente frequentou boas escolas, não nasceu em periferia nem morou em favelas, mas, talvez, lhes tenha faltado a escola voltada para o desenvolvimento do conhecimento, do respeito, da ética, da solidariedade, da civilidade e da cidadania, que, acredito, é a única forma de educação que liberta e abre caminhos para se enfrentar, e transformar criativamente, a realidade.
Enquanto esse circo dos horrores, sem picadeiro, domina e hipnotiza plateias, duas outras notícias trazidas pela mídia exacerbam em bons exemplos: em Pernambuco, Sebastião Pereira Duque, 72 anos, catador de lixo, dá exemplo de solidariedade ao construir uma escola para 75 crianças. E não é só isso porque também constrói barracos para quem não tem onde morar, e não é de hoje, isso há 24 anos puxando uma carroça pelas ruas de Olinda. A escola, Nova Esperança mexe com os brios de muitos brasileiros, inclusive com mantenedores de escolas, do Fundamental ao Superior.
Com a picardia que lhe é própria, o jornalista Elio Gaspari, no último dia 15, afirma que o Brasil dá certo ao trazer a notícia de que seis jovens do ensino médio do Rio de Janeiro mergulharam no crowdfunding [a popular vaquinha social] para arrecadar fundos (no mínimo R$ 44 mil para custear as viagens), já que eles foram aceitos para representar o Brasil no torneio de matemática da Universidade de Harvard e do Massachussetts Institute of Technology (MIT), mas nem por isso o Estado lhes deu guarida, ninguém do município, estado ou união moveu palha para que representassem o Brasil no certame, que reúne centenas de estudantes de todo o mundo. Em outras oportunidades, nos últimos seis anos, eles já conquistaram mais de cem medalhas em matemática, física, astronomia e robótica. O extraordinário é que já conseguiram R$ 100 mil.

Que espetáculo, mas também que vergonha de parte das autoridades educacionais.
Encerrando o comentário, Gaspari diz que numa época de “acidentes pavorosos” (Temer, se referindo à carnificina nas prisões) enfim uma iniciativa maravilhosa aquela, claro.