Empreender não é só querer

27 maio

A universidade não tem a estrutura de apoio para a jornada do empreendedor.
Lucas Yuki Nakauchi (Gerente da Endeavor-Brasil)

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Hoje, os adolescentes de 18 a 25 anos talvez tenham mais preocupações com a vida do que seus pais tiveram com a mesma idade. Eles precisam encontrar alternativas ou saídas para a empregabilidade por diversas novas razões que afrontam e atemorizam como a repaginação do mundo, a crise, as mudanças de hábitos e cultura, tudo conduzindo para transformações. Afinal, é nas cabecinhas deles que estão os grandes sonhos de realização pessoal e sobretudo profissional.

Com 20 e poucos anos, sonham com independência financeira, querem mudar o mundo. Mas são os que mais sentem os efeitos da crise ao procurar emprego. A palavra aqui pode ganhar outros sentidos semânticos como ocupação, vaga, oportunidade, trabalho e empreendimento. Assim, crescem nos últimos anos os números de jovens que optaram por abrir o próprio negócio, em vez de disputar vagas “abertas” por qualquer anúncio.

A taxa de empreendedorismo dos que têm de 18 a 24 anos saltou de 16,2%, em 2014, para 20,8%, em 2015 (último levantamento Endeveor). Mais de um quinto dos jovens nessa faixa etária criou o próprio negócio. Em 2007, era de apenas 10,6%. Para especialistas, a maior recessão da história do país e fatores culturais explicam o aumento.

O empreendedorismo pode ser uma alternativa à juventude sem emprego na crise, sobretudo quando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua mostra a taxa de desemprego na faixa de 18 a 24 anos tendo chegado a 25,9% no fim de 2016. No total, o país tem hoje 13,5 milhões de desempregados.

Mídia e críticos ácidos apontam a falta de incentivo nas faculdades e universidades para empreender; nelas, só 36% dos alunos estão satisfeitos com tímidas iniciativas. Outros números, obtidos pela Endeavor-Sebrae, reiteram essa percepção.

Quando avaliam a situação do aluno num conjunto de 70 instituições de ensino, 72,3% não empreendem; potenciais empreendedores são 9,4%, mas empreendedores efetivos representam só 5,7%. O resultado mostra claramente o descompasso entre o que as universidades oferecem e o que os estudantes desejam. Mas o que de fato as universidades oferecem ou não?

Ser dono do próprio negócio, todos sabem, exige qualificativos imprescindíveis para se fixar e crescer. Não numa ordem rígida, mas, quando falte proatividade, interesse margeado por conhecimento, dedicação plena, ter noções básicas de comércio, de mercados, de fluxos bancários (investimentos – resultados), oportunidades e tantos outros que consistiriam num “business plan”[1], o negócio não se sustenta. Ainda que tudo isso tivesse sido abordado em aulas na universidade, há entre o ensinar e o ter aprendido as lições um espaço abissal.

Não se pode ter medo, diz um empreendedor anônimo, porque o que é segurança hoje em dia? Na crise pode-se perder o emprego porque o vento mudou de direção. Para especialistas e consultores, a crise impulsiona uma mudança cultural no jovem que entra no mercado de trabalho de forma muito penetrante e nessa trajetória ele amadurece muito rapidamente porque não existem zonas de conforto, mas de desafios diários. Concorrência, queda de braço e, ao fim do dia, vai-se à lona porque a receita nem se igualou com a despesa.

Lyana Bittencourt, diretora do Grupo Bittencourt, consultoria especializada em franquias, percebe a mudança no dia a dia. Há duas décadas, seu público era formado, principalmente, por executivos em fim de carreira em busca de um plano alternativo para a aposentadoria. Hoje, esse espaço foi tomado por jovens. A coordenadora do Sebrae, Carla Teixeira Panisset, considera que a tendência deve ser mantida, mesmo depois que o mercado de trabalho se reaquecer:

A Endeavor aponta que na universidade um dos principais problemas é a falta de disciplinas voltadas para a capacitação de quem quer abrir o próprio negócio. Enquanto 54,4% das disciplinas de empreendedorismo oferecidas tratam de “inspiração para empreender”, as mais práticas, que ensinam, por exemplo, a construir um plano de negócio ou gerenciar uma rede de franquias, representam só 6,2% dos cursos. Acertos aqui e acolá poderiam mexer com tais cargas horárias, mas há de se considerar que o curso não trata exclusivamente de empreendimentos. Assim, parte do conhecimento precisa ser trazido por autodidatismo. Aliás, a qualificação é importante para definir as chances de sucesso de um empreendimento. Sabidamente, a universidade não tem a estrutura de apoio para toda uma jornada completa do empreendedor e não pode o aluno querer ser monitorado ou ter um preceptor ao seu lado até a porta do negócio.

Por seu turno, a universidade pública deixa a desejar porque, pela própria missão, acaba sendo um pouco academicista. As pessoas se formam para contribuir para a academia, mas existem diversas formas de contribuir com a sociedade, e empreender é uma delas. Uma interrogação fica no horizonte: quais cursos/carreiras precisariam ter (ou não) disciplinas voltadas para o empreendedorismo e com isso reservar uma carga horária satisfatória em detrimento das demais que compõem o currículo, também muito importantes e necessárias para a formação central do curso? Sem respostas diretas, o CNE não se arroja a resolver a questão. Ademais, os mantenedores
teriam suporte e estrutura quando a iniciativa requisitasse laboratórios e equipamentos?

E ao que tudo indica, está nascendo(?) um irmão do empreendedor que já começa a dar o que falar: o movimento maker no Brasil, cuja cultura incentiva pessoas a construírem objetos. E há quem veja relação entre o empreendedorismo e a cultura maker. Já tínhamos ouvido sobre um processo análogo: a bricolagem[2]. O movimento maker nasce sem pretensão de business. É quase subcultura, cuja ideia é a de que não se precisa comprar tudo pronto, mas querer fazer com as próprias mãos. Muitos dos makers veem nisso um caminho para criar um negócio. Por que não vender esse produto se um amigo gostou, outro gostou? Daí para uma produção em escala é só um pulo. Que tal as IES incorporarem uma maquetaria na instituição sob um relativo custo estrutural?

[1] Plano de negócios (do inglês Business Plan), também chamado “plano empresarial”, é um documento que especifica, em linguagem escrita, um negócio que se quer iniciar ou que já está iniciado. Geralmente é escrito por empreendedores, quando há intenção de se iniciar um negócio, mas também pode ser utilizado como ferramenta de marketing interno e gestão. Pode ser uma representação do modelo de negócios a ser seguido. Reúne informações tabulares e escritas de como o negócio é ou deverá ser. De acordo com o pensamento moderno, a utilização de planos estratégicos ou de negócios é um processo dinâmico, sistêmico, participativo e contínuo para a determinação dos objetivos, estratégias e ações da organização.

[2] O conceito surgiu nos Estados Unidos, na década de 1950, com a sugestão “do it yourself” de onde saiu a famosa abreviatura DIY que significa em português faça você mesmo. Isso ocorreu devido ao encarecimento da mão-de-obra e se desenvolveu com a grande visão dos empresários em perceber este nicho, criando produtos fáceis de serem usados, utilizando embalagens com pouca quantidade e todos com manuais explicativos.
Bricolagem, palavra de origem francesa (“bricolage”) significa, fazer pequenos trabalhos por um amador com pouco conhecimento e sem ferramentas profissionais.