Trabalhar, nem pensar!

25 jun

Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás
que trabalhar nem um dia na tua vida.
Confúcio

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

A mídia resolveu abordar, novamente, o assunto relativo a amorização ao trabalho questionando se amar o trabalho é mesmo necessário.

 

A última abordagem do tema se deu no domingo, dia 2 de abril, pela Folha de São Paulo no caderno Sobre Tudo, nessa edição focando Carreiras, com três participações expressivas: Beatriz Braga dizendo SIM e Sigmar Malvezzi dizendo NÃO à indagação “Será que amar o trabalho é mesmo fundamental?”
Anna Rangel também deu seus pitacos na matéria.

 

Não é de hoje que o tema suscita questionamentos, creio, a partir do surgimento da expressão workaholic, tão ao gosto de psicólogos, terapeutas, profissionais de RH, terapeutas ocupacionais e tantos outros pretendendo interpretar o que se passa com os obstinados pelo trabalho. As vezes trocando
uma série infindável de satisfações, vantagens, comodidades e facilitismos
por uma incessante, exaustiva e cansativa, interminável jornada de trabalho.

O workaholic é um trabalhador compulsivo. É uma pessoa que trabalha compulsivamente. O termo geralmente implica em uma pessoa que gosta de seu trabalho, mas também pode implicar que simplesmente se sente obrigada a fazê-lo. Não há definição médica universalmente aceita desta como uma condição, apesar de que algumas formas de estresse, transtorno de controle de impulso e transtorno obsessivo-compulsivo podem ser relacionadas ao trabalho.

As pessoas viciadas em trabalho sempre existiram, no entanto, esta última década acentuou sua existência motivada pela alta competitividade, vaidade, ganância, necessidade de sobrevivência ou ainda alguma necessidade pessoal de provar algo a alguém ou a si mesmo.

Quando falamos em envolvimento com o trabalho, o patológico e o saudável é sutil e há uma distinção clara entre os obcecados e os apaixonados pela profissão.

Para uns o ofício é tão prazeroso que, por vezes, até perde sua natureza de obrigação e se transforma numa espécie de arte, esporte, brincadeira. Nem parece trabalho. Ainda que amar a profissão seja um ingrediente essencial para a felicidade, é preciso cuidar para que o gosto pelo ofício não se converta em obsessão e não se exacerbe.
O excesso não aparece necessariamente no tempo dedicado ao emprego: nem sempre o workaholic trabalhará mais horas do que um mero apaixonado pelo seu ofício.

Afinal, diz o. consagrado psicólogo húngaro Mihaly Csikszentimihalvi, especialista no assunto, amar o trabalho frequentemente produz o famoso “estado de flow”, ou fluxo. O conceito descreve um estado mental em que o profissional se sente completamente absorto pelo que está fazendo – como se estivesse num túnel e não enxergasse nada além do seu objetivo.

Parece que para o workaholic sua rotina é bastante diferente pois o excesso não é episódico mas um modus operandi, explica André Caldeira, especialista em gestão de carreira e autor do livro “Muito trabalho e pouco stress” (Editora Évora).

Tudo indica que para o workaholic, o trabalho é exatamente como uma droga. Ele não sente mais satisfação, só tenta saciar uma necessidade patológica de vencer sempre e jamais ser visto como incompetente pelos demais. E tem um preço alto: o resultado desse comportamento costuma ser devastador pois gera isolamento social, degradação das relações afetivas, queda de desempenho e abalo da saúde física e mental.

Até aqui fizemos pequena digressão desse quadro no mundo do trabalho mas há um outro lado, quem sabe o esposado por Confúncio que sintetiza espetacularmente isso de trabalhar onde se goste, do que se goste.

Nos idos de 2014 Anna Carolina Rodrigues já escrevia para VOCÊ S/A
que “A ideia de que é preciso ser apaixonado pelo trabalho para ter sucesso virou um mantra.” E deixa claro que esse assunto exige mais discussão.
E ela conta que em 2005, Steve Jobs fez um discurso emocionante para 23 mil alunos da Universidade Stanford, na Califórnia, numa cerimônia de formatura. De lá para cá, o vídeo do evento já foi assistido mais de 20 milhões de vezes no YouTube.

Em determinado momento de sua fala, Jobs foi lapidar: “Você tem de encontrar o que você ama. A única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que faz. Se você ainda não encontrou, continue procurando, e não se acomode”.

O texto do genial fundador da Apple serviu como um grande reforço para a ideia de que associar trabalho à satisfação é um componente essencial do sucesso. Muita gente toma esse raciocínio como verdade absoluta, mas ele não explica algumas questões.

O que fazer com os profissionais que são ótimos fazendo um trabalho que odeiam? Como explicar aqueles que adoram o que fazem, mas têm um péssimo desempenho? Não é o caso de se investigar melhor o discurso da paixão pelo fazer?

Em 2010 Cal Newport, professor de ciência da computação na Universidade de Georgetown, em Washington, ficou obcecado pela ideia de obter resposta a uma pergunta simples: “Por que algumas pessoas acabam amando sua carreira e outras não?”. Cal tinha a tese de que seguir uma vocação inicial não era exatamente o caminho mais eficaz para ter amor pelo trabalho. O resultado da investigação está no livro So Good They Can’t Ignore You (“Tão bom que eles não podem ignorá-lo”)

A premissa do faça o que você ama é muito atraente, mas falseia porque a maioria das pessoas não é programada para amar determinado tipo de trabalho. Aqui o leitor está com a palavra.

Amar o ofício talvez seja mais simples para quem ocupa um cargo de destaque ou tem um negócio de sucesso — o que dá razão para Steve Jobs. Mas, para grande parte dos trabalhadores, a relação entre prazer e fazer é muito conflituosa porque para a maioria das pessoas, a possibilidade de fazer o que ama é limitada pela obrigação de ter de ganhar dinheiro para sobreviver.

Amar o trabalho tornou-se o principal problema que praticamente é uma obrigação nos últimos anos, como se fosse o único caminho para o sucesso. “Há um romantismo ingênuo”, diz Eduardo Ferraz, consultor de gestão de pessoas e autor do livro Seja a Pessoa Certa no Lugar Certo (Gente). “Parece uma falha moral a pessoa trabalhar para sobreviver.”

É frustrante quando a pessoa não encontra o trabalho perfeito, desejado. Mais importante do que trabalhar com o que se ama é pensar em fazer algo que pode gerar crescimento e, eventualmente, satisfação. É preciso destacar que
boa parte do discurso da paixão pela profissão traz embutida uma imagem estilizada de trabalho, em geral mais agradável do que a realidade cotidiana. O profissional supõe que em um trabalho prazeroso será mais fácil ser feliz ou ficar rico, o que nem sempre é verdade.

Acreditar no sucesso pela paixão tem também o problema de diminuir a importância do mérito e do esforço para construir uma carreira. Fazer o que ama é ótimo, mas não se pode ter a ilusão, ou a falsa esperança, de que basta ter a coragem de mudar para uma atividade amada que o sucesso virá a reboque.

Ana Carolina acredita no sucesso pela paixão que tem também o problema de diminuir a importância do mérito e do esforço para construir uma carreira. Fazer o que ama é ótimo, mas não se pode ter a ilusão, ou a falsa esperança, de que basta ter a coragem de mudar para uma atividade amada que o sucesso virá a reboque.

É essencial, mas é preciso estar muito bem preparado para que as expectativas encontrem as oportunidades. Fazer o que se ama é um pouco de acaso e bastante de noção sobre as próprias limitações. Por exemplo, tem gente que ama tocar piano, mas nunca poderia fazer isso profissionalmente.

Caroline conclui que o trabalho ocupa, sim, uma parcela importante da vida de cada um e é fundamental buscar atividades que dão prazer. Mas tem de ser crítico nas decisões de carreira. O profissional deve afastar a ideia ingênua de que uma mudança traz felicidade.

E também deve evitar se sentir culpado ou infeliz por exercer um trabalho pouco prazeroso. Na verdade, a melhor estratégia é enxergar o trabalho como parte de um plano de vida, que tenha múltiplas fontes de satisfação além da profissional.