Implodiram a Universidade

15 out

Deixar ir, não significa desistir,
mas sim aceitar que há coisas que
não podem ser.   Pedro Quintella

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Até parece que o tempo passou direto, pelo presente, e foi estacionar no futuro, sem contemplação alguma, com nada e ninguém.

 

As mudanças que chegam à humanidade, decorrentes de tecnologias, são muito rápidas, aceleradas demais e as universidades não têm conseguido acompanhar: É voz corrente e assumida que  o modelo de graduação atual deixará bacharéis obsoletos em menos de 10 anos em razão da proposta  ultrapassada de seu formato. Não sem motivo um terço dos alunos do ensino médio e 15% dos universitários duvidam do retorno do investimento que uma graduação pode oferecer.
Deram muita corda no relógio ou colocaram bateria além do estipulado e o resultado foi que os ponteiros saíram em disparada rumo ao futuro sem saber ao certo onde é o estacionamento. Cá para nós, passaram batido.

 

A notícia publicada na semana pelo Correio Braziliense deu conta que “Bacharéis estarão obsoletos em 10 anos”. Otimistas, ou serão pessimistas?
Parece-me que o adjetivo obsoleto não cai bem. Melhor é ultrapassado, superado. Na verdade, quem mal consegue(ia) se sustentar com uma graduação sem ela é impossível. Há diferenças entre ser obsoleto e nascer

obsoleto. Em música diz-se que a pessoa atravessou o compasso e ficou para trás.


Os marketeiros de plantão gostam muito, demais, da palavra obsoleto tratando da evolução natural da tecnologia. É o que diz o professor Ed Cavalcante: “
Alguns itens tecnológicos quando nascem, já têm data prevista para sair de circulação. Isso é o resultado da “Obsolescência Planejada”, processo pelo qual os profissionais de marketing introduzem a obsolescência em determinados produtos para serem  substituídos num tempo mais curto. O consumidor não tem escolha porque os produtos, em geral, só duram o tempo que o produtor quer. Aqui parece que nossos bacharéis estão saindo com tempo de validade já esgotado.
Outra prática nessa mesma linha é a “Obsolescência Perceptiva”. Quando o fabricante não consegue reduzir o tempo de vida de um produto, lança uma “nova” versão com pequenas modificações. No Brasil chamam essa prática de “maquiar o produto”. Os produtos antigos, que têm a mesma funcionalidade, ficam com o aspecto de ultrapassados e o consumidor é induzido a comprar o novo. Aliada a essa prática existe uma propaganda maciça que complementa a “lavagem cerebral”.

 

Estamos oferecendo cursos que estarão extintos daqui a alguns anos e não temos nos preparado para as novas profissões nem atualizado as existentes, motivo pelo qual 30% dos alunos do ensino médio não acreditam que o curso superior trará retorno compensatório. Outros 44% não têm opinião sobre o assunto. O levantamento sugere duas razões principais pelas quais os jovens não estão convencidos de que o terceiro grau compensa: a primeira é que 45% dos alunos buscam um currículo com conteúdos relevantes para o mercado de trabalho e 30% acreditam que terão que complementar a graduação com outros cursos para se sentirem prontos para a vida profissional.
O curioso disso tudo é que quem deve e poderia ensinar é incapaz de aprender, a universidade, na sua majestosa soberba. Que paradoxo, ou seria uma antítese?

 

O conhecimento formal não é mais um diferencial, lamento muito.
No mundo de hoje, não se trata apenas de quais formações ou diplomas cada um de nós possui. Conhecimento está virando commodity, o que importa é atitude. Tudo está indicando que  o conhecimento está ficando obsoleto a cada dia. O que fazer?

É possível avaliar o que está ocorrendo mas nem por isso interromper a máquina que ninguém sabe onde fica o freio. É alguma coisa parecida com tempestade seguida de enchente. Você foge para o telhado ou se molha.

A democratização do ensino dá conta que crescemos numa era em que  todos disputavam acesso aos melhores cursos, escolas e universidades, numa competição desenfreada que privilegiava muito poucos. Havia, assim, escassez dos profissionais mais qualificados. Entretanto, vivemos agora num mundo de abundância de informação e conhecimento quando quem quer aprender e buscar  conhecimento é só acessar o Google  e consumir.

É conferir para acreditar: Procure cursos online para o assunto que quiser. Inúmeros cursos de Harvard, do MIT, da USP e de onde mais você possa imaginar, acessíveis para qualquer um, em plataformas como Coursera, Udacity,edX, Veduca etc. Aliás, muitos deles gratuitos e  muitos em português. As barreiras estão acabando e quem quiser aprender, aprende.

Aí veio a tecnologia da hiperconectividade facilitando a tudo e que apenas num curso você obtém conhecimento, quando existem inúmeros? Num universo hiperconectado, é cada vez mais fácil interagir e trocar conhecimentos com pessoas de todo o mundo.

Fora o papel óbvio das redes sociais, existem hoje diversas plataformas específicas para compartilhamento de conhecimento. Experimente perguntar qualquer coisa, sobre qualquer assunto, em plataformas como o Quora ou Stack Exchange. Em alguns minutos provavelmente você terá respostas de pessoas de diversos lugares do mundo. As melhores respostas são ranqueadas, claro, pelas próprias pessoas. As respostas podem ser de um PhD ou de um jovem de 17 anos, não importa. A hiperconectividade horizontaliza o conhecimento.

Vejam o que fala o pessoal do Quora:”A missão do Quora é compartilhar e crescer o conhecimento do mundo. Uma vasta quantidade de conhecimento que seria valioso para muitas pessoas atualmente está disponível apenas para alguns – ou travado na cabeça das pessoas, ou apenas acessível para grupos seletos. Queremos conectar as pessoas que têm conhecimento com as pessoas que dele necessitam, reunir pessoas com diferentes perspectivas para que possam entender melhor umas às outras, e empoderar todos a partilhar seus conhecimentos em benefício do resto do mundo.”

Não é um blockbuster (de arrasar quarteirão) ?

Como os novos conhecimentos estão surgindo cada vez mais rapidamente, para Leandro Jesus, no Linkedin/Pulse “Vivemos em tempos exponenciais, num ritmo acelerado de geração de informações e conhecimento. O futurista Buckminster Fuller criou o conceito da “Curva de Duplicação do Conhecimento” para explicar esse fenômeno. Para ele, até 1900 o conhecimento humano dobrava a cada século. Ao final da 2ª guerra mundial, o conhecimento já dobrava a cada 25 anos. Hoje, o conhecimento dobra em média a cada 12 meses, e esse ritmo tende a acelerar com o advento de novas tecnologias.

Se você não acredita nesses números, pense apenas em como as tecnologias estão evoluindo rapidamente e no que está se tornando ultrapassado em sua área de atuação. Certamente todos nós temos exemplos na ponta da língua.
Agora, você acha que as ementas de cursos tradicionais, com todas as exigências do MEC, são capazes de acompanhar esse ritmo de mudanças? Segundo um relatório do governo americano, 65% dos estudantes de hoje estão sendo formados para trabalhos que sequer sabemos que existem, com conhecimento que ainda está sendo gerado.”

Boa parte do conhecimento atual está sendo automatizado e uma vez que há abundância de informação e conhecimento na rede, robôs podem interpretá-los para desempenhar atividades tão bem ou até melhor que humanos.
Um bom exemplo é o IBM Watson, que pretende colocar a inteligência artificial para interpretar padrões a partir de um histórico de bilhões de registros médicos e, assim, ajudar no diagnóstico e tratamento de doenças. Essa inteligência pode prevenir erros médicos e mesmo empoderar as pessoas para cuidar preventivamente de sua saúde
A inteligência artificial vai automatizar boa parte do conhecimento de médicos, advogados, engenheiros e muitos outros especialistas. Se vai eliminar ou não a necessidade desses profissionais, é outra questão.

Os argumentos acima, nos levam a concluir  que  precisamos nos reinventar e buscar novas formas de aprender o tempo todo. Em nosso próprio ritmo, da nossa própria maneira, conforme nossas experiências e descobertas prévias. Não precisamos conhecer tudo, pois seria impossível. Mas precisamos saber como acessar, filtrar e aplicar conhecimentos na prática, vivenciando dificuldades e buscando superá-las.

Essa inquietude na busca pelo aprendizado é o que se pode definir como atitude. Atitude é mais importante que o conhecimento prévio de qualquer profissional. Com o conhecimento se tornando obsoleto, somente quem tem atitude vai se manter bem posicionado nessa corrida incessante por aprender e se diferenciar. A regra geral é não parar nunca de aprender!