O que vem primeiro, Inovação ou Criatividade?

5 nov

Se for pensar que hoje estou formando um aluno para ter emprego daqui a 20 anos, eu não posso formar para profissões que já existem, porque elas estão desaparecendo. O que vai sobrar? Só o que depende de criatividade e pensamento crítico. 

Cesar Augusto Amaral Nunes (especialista em avaliação de criatividade)

 

O título deste artigo foi calcado no aforismo picante: o que veio primeiro o ovo ou a galinha ?

A segunda revolução, de 1870, nos trouxe a divisão do trabalho, a eletricidade e a produção em massa. A terceira, de 1969, carregou forte nas tintas levando o homem para os eletrônicos com a tecnologia da informação e produção automatizada com destaque para os voos espaciais. A quarta revolução, que vivemos atualmente, na opinião de Klaus Schwab, chairman do Fórum Mundial de Davos, une mudanças socioeconômicas e demográficas e terá impactos mundiais nos modelos e formas de fazer negócios e no mercado de trabalho. “As mudanças são tão profundas que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de maior promessa ou potencial perigo”, afirmou.

O mercado de trabalho será afetado dramaticamente, mas a grande ameaça aos empregos não está mais na indústria, como nas revoluções passadas, os softwares inteligentes estão chegando ao setor de serviços. Hoje eles são capazes de dirigir veículos, atender clientes em serviços de telemarketing, preencher formulários de Imposto de renda, etc.

Em 1993, a IBM marchava rapidamente para a falência, com um prejuízo previsto de 16 bilhões de dólares e a ameaça de ser retalhada num conjunto de empresas menores. Usando de empatia, isto é, ouvindo seu cliente, colocando-se no seu lugar (uma das etapas do design thinking), logo percebeu que era hora de mudar.

“Nossa prática de estratégia e mudança combina estratégia de negócios e questões tecnológicas para auxiliar as organizações no desenvolvimento, alinhamento e implementação de suas visões de negócio com objetivos de inovação e crescimento”, diz a empresa no relatório Fazendo a mudança acontecer (file:///C:/Users/USER/Downloads/fazendo_a_mudanca_acontecer.pdf). A IBM desenvolveu o Watson [1], seu supercomputador cognitivo, que veio para ajudar em vários setores, pois é projetado para entender, raciocinar e aprender. Tendo chegado ao Brasil no ano passado, o Watson está quase fluente no português e está ficando tão habituado à nossa língua, que seus serviços foram utilizados pelo banco Bradesco neste primeiro semestre de 2016, na função de atendimento aos clientes.

É inevitável que a cada habilidade aprendida pelos computadores, milhões de empregos tenderão a desaparecer. A tecnologia, ao longo do tempo, vai reduzir os postos de trabalho que demandam menos habilidades, como exatamente são os operadores de telemarketing. Foi assim nas linhas de produção robotizadas, nas funções de datilografia e de ascensorista, por exemplo.

À medida que os avanços nas tecnologias de machine learning e robótica avançarem, será inevitável a substituição de funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que envolvam tarefas e procedimento bem definidos poderão ser substituídas por algoritmos sofisticados. Como o custo da computação cai consistentemente ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por máquinas.

A quarta revolução industrial afetará de forma dramática o mercado de trabalho. Claro que novos empregos serão criados, mas exigirão conhecimentos muito especializados e altos níveis de educação. Novas carreiras e funções, que ainda não conhecemos, serão criadas.

A mudança de paradigmas no século XXI exige, com base no conhecimento intangível, gerar novos conhecimentos que, convertidos em processos, produtos e serviços, garantam crescimento econômico e desenvolvimento social responsável. Assim, o conhecimento ganha um lugar de destaque na economia e nas sociedades. A economia do conhecimento caracteriza-se por um papel crescente da produção, da difusão e da utilização dos saberes (o capital intangível, imaterial) na competitividade das empresas e das nações. Essa economia requer ensinar aos futuros cidadãos um conjunto renovado de competências: competências genéricas de aprendizado, competências de criação e inovação e competências de colaboração.

A criatividade é parte de um processo subjetivo e que implica incluir e fazer dialogar as dimensões social, cultural e histórica dos indivíduos. O que, felizmente, até agora, nenhum robô consegue fazer. Para formar cidadãos do século XXI, a escola deve formar alunos capazes de aprender a triar, a selecionar grandes quantidades de informação, de analisá-las criticamente, a fim de utilizá-las para resolver criativamente problemas complexos em cooperação com seus pares e, por fim, mas não menos importante, ser capazes de comunicar os resultados de maneira articulada e pertinente. E tudo isso ao longo da vida.

Nesse contexto, emerge a demanda de um novo currículo educacional, que abandone a memorização de fatos e fórmulas para focar mais em criatividade e comunicação. A capacidade de ver as coisas de um ponto de vista novo é fundamental para o processo criativo, e essa capacidade repousa na vontade de questionar toda e qualquer premissa. Por isso, há a necessidade de passar de uma docência baseada no ensino para outra baseada no aluno, na aprendizagem, em que os docentes tenham dupla competência: a científica e a pedagógica. Nesse contexto, a formação continuada, numa dimensão para além da construção da racionalidade humana, inclui a dimensão da subjetividade e da criatividade.

A educação tem como fim integrar o homem, torná-lo sensível para enfrentar os desafios da vida e seus complexos ditames. Torná-lo inteligente não em um nível circunscrito, mas, sim, em todos os níveis criativamente e num processo cumulativo e cooperativo, pois a criatividade humana não é uma missão solitária.

Ser criativo é uma possibilidade real e acessível a todos ou é um dom pessoal? Ao longo dos últimos 30 anos, pesquisas revolucionárias nos campos da física e da biologia vêm revelando que a criatividade é mais do que um fenômeno humano; é um padrão extraordinário. Portanto, é perfeitamente possível a toda e qualquer pessoa exercitá-la.

À luz de uma  nova ciência, o físico indiano Amit Goswami demonstra claramente de onde vêm as ideias criativas, como elas se manifestam, qual a origem de nossas motivações e como podemos ampliar nossa propensão para a criatividade. Ele dá ao público leigo, um verdadeiro manual que integra ciência e criatividade, explicando o papel fundamental da intuição, do livre-arbítrio e das inúmeras possibilidades de escolhas criativas no desenvolvimento humano, apontando caminhos para que tenhamos uma vida mais íntegra e plena.

A questão que se coloca é a materialização, a solução de provocações interiores porque a Inovação é multifacetada. A inovação é especifica para algum setor, produto ou serviço. Por exemplo, pode-se ter Inovação em ensino, em sala de aula, em corpo docente, em tecnologia educacional e até inovação em arquitetura escolar. O que ninguém fala é que a base de qualquer inovação é a criatividade, porque ninguém inova se não tiver mente criativa. E mente criativa se adquire com metodologia e treinamento.

Lamentavelmente a inovação não ocorre com tanta frequência em nosso meio universitário. Se o segmento particular quiser ocupar algum lugar de destaque terá sim que promover inovação, através de parcerias, união de esforços e procurar empresas para dialogar, ver o que precisam e de que forma cada Instituição pode pesquisar para resolver os problemas. Ai mora o feeling da pesquisa, do criar, do imaginar do idealizar. É muito suor que produz resultados.

Mas, afinal, de onde vem a motivação, como podemos aprender e ampliar a nossa propensão para a criatividade e adotá-la como centro alegre da vida?
A criatividade requer consciência como entidade causal, livre-arbítrio e liberdade de escolha. Ela requer a capacidade de processar significado, envolve emoções e tudo começa com a intuição. Ou seja, a criatividade humana requer uma visão de mundo na qual a consciência seja dotada de potência causal e na qual não só nossas experiências físicas, mas também as do pensamento, de sentimento e intuição são validadas. Melhor explicando, um debate permanente entre os seguidores de uma consciência causalmente potente (os idealistas) e os do materialismo científico (materialistas ou realistas).
Em tese somos todos seres potencialmente criativos mas a imaginação antecede ao pensador virtual, a quem a visão não engana, que tem a tendência  de avaliar o seu redor com base no que vê, às vezes se assumindo uma pessoa intuitiva. Tal atributo forma compreensão sobre ‘o que é isso’ e ‘o que isso poderia ser’ usando a imaginação. O portador dessa qualidade é dono de uma combinação perfeita, porque continua sendo imaginativo, mas não se afasta da realidade, formas preferidas de interpretar o mundo. Daqui à inovação é preciso praticar os modos de ser criativo, aplicando a criatividade para resolver problemas de um novo paradigma, que seja o interesse e satisfaça o potencial criativo, contribuindo para a evolução da consciência.

A criatividade é o centro da vida, razão porque aparece associada à ansiedade e ao êxtase.
Mas, em que consiste o processo criativo ? A resposta foi dada pelo pesquisador da criatividade Graham Wallas que sugeriu que os atos criativos envolvem quatro estágios: preparação, incubação, iluminação e manifestação.
Conforme ele, a preparação começa com uma intuição, um sentimento vago sobre um possível problema e/ou uma possível solução. É o manifesto desejo de inovar, valendo-se da intuição.