“Obrigado pelo Atraso”

19 nov

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Tornei-me um fã de carteirinha de Thomas Friedman e a cada capítulo de seu último livro mais me convenço de suas certezas, extremamente apropriadas para quem quer discutir a educação presente e futura à luz das inovações e criatividades.

No capítulo 5, O Mercado (globalização), ele extrapola e vou aqui tentar enxugar o contido em quarenta e cinco páginas repletas de admiração e espanto pela clareza narrativa mas sobretudo do conteúdo, do que trata.

Ele conta sobre Kayvon Beykpour, o CEO e cofundador do Periscope, um aplicativo para transmissões de vídeo lançado em março de 2014 que, em quatro meses tinha conquistado 10 milhões de usuários, despertando muito apetite no Twitter que acabou adquirindo-o porque a ferramenta oferecia uma espécie de versão em vídeo do que eles faziam com as suas mensagens em tempo real. O Periscope tem um grande poder, o de possibilitar que qualquer um explore o mundo pelos olhos de alguma outra pessoa e ao fazer isso, construa empatia e verdade. Empatia ao colocar pessoas em contato intenso umas com as outras e suas circunstâncias. Verdade porque o vídeo ao vivo não mente com facilidade.

Beykbour com suas experiências ilustra convincentemente de como a globalização ( o Mercado ) está hoje também em aceleração.

Podemos hoje digitalizar muitas coisas e, graças aos celulares podemos enviar esses fluxos digitais a toda parte e recebê-los de qualquer lugar pois eles impulsionam a globalização das amizades e das finanças, do ódio e da exclusão, da educação e do comércio eletrônico, de notícias que podem ser usadas, de fofocas que atiçam a curiosidade e de rumores capazes de desestabilizar.

Alguns aplicativos voltados para mensagens, como o Facebook, estão não apenas explodindo em termos de popularidade como também substituindo o e-mail como forma preferida de comunicação e se tornando veículos para um número cada vez maior de capacidade de interação. Esses aplicativos de mensagens vão fazer o e-mail convencional parecer aos nossos filhos o que o correio convencional de papel parecia para a primeira geração de usuários de e-mail.

Existem boas razões para pensar que o valor está se transferindo dos estoques de conhecimento para os fluxos de conhecimento. Em ouras palavras, os fluxos superam os estoques. E, à medida que o mundo avança, os estoques de conhecimento se desvalorizam mais rapidamente. Basta considerar a rápida compressão do ciclo de vida de muitos ramos de negócio numa escala global.

Mesmo os produtos mais bem-sucedidos são descartados mais velozmente à medida que novas gerações entram em cena numa sucessão cada vez mais rápida. Em épocas mais estáveis, podíamos nos sentar e relaxar assim que aprendíamos uma coisa útil, certos de que poderíamos por um tempo indeterminado, gerar valor a partir daquele conhecimento. Esse tempo ficou para trás, como as cadeiras nas calçadas, de outrora.

Para ter sucesso agora, temos de renovar continuamente nossos estoques de conhecimento ao tomar parte em fluxos relevantes de novos conhecimentos.

Num ranking entre diferentes países, indicando o nível de participação em todos os diferentes índices de fluxos globais (globalização), excelente indicador de prosperidade e crescimento, Cingapura encabeça a lista, seguida pela Holanda, Estados Unidos e Alemanha.  Mas, Cingapura manda uma mensagem na garrafa, para o resto do mundo: investiu muito em infraestrutura garantindo que participará de cada fluxo global mas também na educação de sua força de trabalho. Isso garantiu tirar partido desses fluxos.

Por atos e fatos a garrafa já chegou nas praias brasileiras mas tudo indica que as políticas públicas ignoram a mensagem pois quem vem fazendo o mesmo que Cingapura pode colher os benefícios. Vencem aqueles que contarem com uma educação melhor, que se conectam com a maior parte dos fluxos e usufruem da melhor governança e da melhor infraestrutura.

Inegavelmente existe uma correlação entre países com PIB alto e alta penetração da internet. De onde se concluir que um padrão começa a emergir: quando ocorre um crescimento na TIC (tecnologia da informação e comunicação), e à medida que a população se torna mais confortável em relação à tecnologia e mais produtiva, o nível do PIB começa a subir.

Eis aí a grande mudança, a era da globalização é exatamente sobre isso.

Ocorre que os primeiros estágios da moderna globalização digital tendem todos a se centrar em torno do outsourcing, nome para o fato de as empresas recorrerem às vantagens de a conectividade estar se tornando rápida, grátis, fácil de usar e onipresente, contratando um enorme número de engenheiros relativamente baratos em qualquer parte do mundo.

Até aqui Friedman vem apalpando, garimpando, escrevendo sobre fluxos, supernova[1] e tantas outras novidades que vislumbram, ou vislumbravam, quando o livro foi editado/impresso mas nisso reside uma traição temporal que a ele próprio acomete e é assunto que ele domina: ao se referir ao serviço 3-2-1, fundado por David McAfee que explica: “ em momentos de necessidade, os usuários podem utilizar seus modelos simples de celulares para obter de forma proativa informações sobre uma série de assuntos. Eles discam um número de ligação gratuita a qualquer hora, de qualquer lugar, e escutam um menu com várias opções como “Gostaria de saber alguma coisa sobre saúde? Aperte 1. Agricultura? Aperte 2 e assim por diante.” Em um ou dois anos esses números certamente dobraram mas é impossível falar sobre algo do amanhã, com concretude.

O serviço 3-2-1 está em atividade atualmente em muitos países da África e Ásia onde mais de 120 milhões de usuários têm acesso. Em 2016, uma média de 400 mil pessoas por mês contrataram o serviço, fazendo 1,7 milhões de consultas. São muitos fluxos sendo empurrados e puxados.

Nunca é demais enfatizar o fato de que estamos em um estágio bem inicial nessa aceleração de fluxos. Já podemos perceber no horizonte uma nova fase se formando, a criação de plataformas de centros de coordenação que irão compatibilizar de modo eficiente os fluxos saindo do mundo em desenvolvimento com aqueles que desejam entrar nele, aproximando o mundo ao tecer uma trama ainda mais estreita. Exatamente nesse cenário surge a Globality.com, fundada em março de 2015 por Joel Hyatt e Lior Delgo. Anotem aí. Ainda vai dar o que falar junto às pequenas e médias empresas..

A globalização sempre foi impulsionada pelos fluxos financeiros, porém, graças à supernova, esses fluxos agora digitalizados estão ocorrendo em velocidades quase imensuráveis. Importante destacar que as pessoas não pensam, as máquinas sim.

Com novas maneiras de digitalizar dinheiro sendo criadas –empréstimos, depósitos, retirada, transações, verificações e pagamentos de contas – a interdependência só tende a se estreitar mais rapidamente quando problemas causados por algoritmos, ditados por computadores na era das acelerações e da interdependência..

Quase ao final do capítulo, Friedman relata alguns cases realmente incríveis como o da revista Nature que expõe a preocupação “do tempo de espera ou retardo, ou delay” entre operações/operadores financeiros cujo “gap” pode resultar em milhares de dólares perdidos ou ganhos. Um pouco adiante ele conta o caso de Michael Corbat, do Citigroup relativo ao pagamento das aposentadorias que estaria se constituindo num grande problema para o banco mas que foi resolvido com uma ferramenta que reconhece a voz do cliente para resolver qualquer operação.  Mais adiante ele traz a figura de Dan Schulman, o CEO da PayPal que estarrece o leitor com a afirmativa de que o que aconteceu com a explosão de celulares e smartphones é que todo o poder de uma agência bancária se encontra agora concentrado na palma da mão do consumidor.

A melhor parte da globalização dos fluxos que vivemos hoje é sua capacidade de promover contatos entre desconhecidos, que tenham alguma afinidade ou de transformar novamente em amigos e agrupar numa comunidade velhos amigos que tinham se tornado estranhos.

É bem empolgante ver como é fácil recorrer ao fluxo para lutar contra as coisas ruins e promover as boas. Bem Rattray fundou a Change.org em 2007 criando uma plataforma em que qualquer Davi digital fosse capaz de enfrentar qualquer Golias: em termos de corporações, governos e quaisquer instituições. No Brasil sua atuação é marcante enfrentando dezenas de situações aflitivas e com ótimos resultados.

É um autêntico funcionamento de fluxos e desconectar-se de um mundo que está se tornando cada vez mais digitalmente conectado, não é uma estratégia favorável ao desenvolvimento econômico. Estamos diante de um mundo no qual os fluxos digitais serão uma fonte vital de ideias novas e desafiadoras, de inovações e de energia comercial.

[1]Friedman parece um tanto avesso a algumas palavras e assim ele mesmo quer criar as suas com processos semânticos. É o caso de ele se recusar a aceitar o fenômeno “nuvem” e preferir “supernova”, como “mercado” ao invés de “globalização”.