Salvem as Baleias e os Professores

26 nov

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

26Li pela primeira vez a frase num adesivo de carro, num fusquinha que levava as letras bem grandes no vidro de trás. Quase certo que era docente do ensino público.

A máxima do título já reserva um tom jocoso, uma troça, uma blague, quase zombaria, num estilo aproximado de vitimez, como se os docentes também estivessem em extinção. Cabe a pergunta, se isso não é uma grande verdade por tudo que acomete a profissão no Brasil, desde os salários, as violências a que se submetem, principalmente no Fundamental e no Médio, a exasperante jornada de trabalho, que às vezes exige do profissional uma dedicação dos períodos da manhã, tarde e noite. Por oportuno, o leitor arrisca um palpite ?
Quem desaparece primeiro, o professor ou a sala de aula ?
A impossibilidade de se manter estudando com a educação continuada, a alienação quase total às tecnologias atuais, o desconhecimento das linguagens, softwares, equipamento cujos preços, que no mais das vezes proibitivos, impedem aquisições. O ter que levar alunos despreparados, sabidamente, para o Enem e com isso computar fracassos porque o sistema é implacável e machuca mais a quem já está machucado. No superior, a questão da proposta do Enade que contempla ausentes e omissos, que não carregam suas participações para o diploma ou histórico escolar: uma injustiça.

Mas, enquanto as baleias ainda são pouco ou medianamente assistidas por sociedades protetoras dos animais, nacionais e internacionais, ao professor só cabe apelar para os sindicatos pouco ou nada interessados nas perpetrações ao docente. Estão de fato entregues ao Deus dará.

O curso espinhoso que transcorreu nas licenciaturas quase sempre não foi, digamos, completo e realizador. As práticas de ensino foram pouco ou nada aproveitáveis, o estágio em escolas que em princípio se negam a receber esses licenciandos, pois não têm condições técnicas e administrativas para acolhê-los em condições desejáveis.

Os concursos públicos rareiam, pois os governos preferem contratações temporárias afastando os candidatos de uma carreira, de um vínculo laboral que dê estímulo e afeição pelo trabalho.

Então, o 15 de outubro, de novo está aí, e, com franqueza, não creio que a efeméride seja para soltar rojões e muita festança. A partir dos fornos onde são forjados os professores, é de se perguntar se os egressos dos cursos ficaram satisfeitos ao seu término. Se concluíram “achando-se preparados” para o magistério que em outros tempos já foi até mais difícil. Normalistas andando em burros por estradas poeirentas e ganhando salários às vezes expressos em galinhas, sacos de manga ou goiaba, queijos ou manteiga, debaixo de chuva e sol. Aliás, como ainda acontece em muitos rincões nacionais. Vergonha de governos.

Embora aflorem algumas realidades porque desesperantes, não é o caso de negar a data, ao contrário, e exatamente pelos senões apontados enaltecer a fibra, a determinação, a firmeza de propósito de todos os docentes, do fundamental ao superior, passando pelo médio, a trajetória super-humana de
quem põe a cabeça no travesseiro e sente a recompensa de ter ajudado o Brasil a ir pra frente, a crescer num mundo de adversidades como as que afetam o labor diário de extirpar ignorâncias das cabeças de nossa juventude, mesmo que vicissitudes instabilizem e conduzam a imprevisibilidade e eventualidade da carência de políticas públicas, conduzindo processos ao acaso, exatamente porque casuísticas.

Hoje eu rendo minhas homenagens a esse pelotão imenso de guerreiros cujas armas são a vontade, a inteligência, a cultura, a predestinação, colocando no cadinho de suas consciências o ouro mais puro para ser fundido e derramado na forma da civilidade e da cidadania.

E mais, se não propusermos capacitação docente para EAD aos nossos docentes, veremos uma derrocada sem igual nesse mundo globalizado, que se alimenta de fluxos de conhecimentos por redes.