Só a economia criativa poderá manter o ser humano trabalhando

3 dez

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Você sabe quais serão as habilidades humanas que continuarão a ter elevado valor no futuro, garantindo para as pessoas os seus empregos, à medida que o poder da tecnologia ficar cada vez mais impressionante?[1]

No século XIX, a maioria das economias dependia do plantio e da agricultura. Aos poucos, houve uma mudança do modelo agrícola para o industrial. Hoje, uma das grandes mudanças no mercado de trabalho é a substituição de pessoas por robôs. Já vemos caixas de banco e de mercados substituídos por máquinas. O Google já tem carros sem motorista. Um estudo americano diz que, nos próximos 20 anos, 47% dos profissionais poderão ser substituídos por robôs – que são muito mais baratos, trabalham noite e dia, não fazem greve, não pedem aumento, não cometem muitos erros.

As únicas áreas em que não é possível substituir humanos por robôs são as que exigem criatividade e inteligência social. Há muitas mudanças radicais por vir, tão grandes quanto as que surgiram no fim do século 19. Agora, aquela economia baseada em produtos industriais, trabalho físico e recursos naturais está dando lugar a uma nova economia, impulsionada por ideias. É a transformação da economia industrial na economia do conhecimento. “Até 2011, Wall Street comandava a economia americana. Hoje, o que impulsiona é tecnologia, design, mídia e publicação”, vaticina o americano Steven Pedigo, diretor de Creative Cities & Civic Innovation da Universidade de Nova York (NYU) e diretor do Creative Class Group.

Em um mundo onde a exportação de commodities perde gradativamente sua importância frente à exportação de bens e serviços de alto valor agregado, estudos e pesquisas constatam a evolução de desempenho dos setores criativos mesmo em momentos de crise. Esses estudos anunciam a transformação do trabalho, a ampliação do setor de serviços e a necessidade da constituição de fundos específicos para o financiamento dos setores criativos.

Pela capacidade de sedução de algumas das espinhas dorsais da EC, como literatura, cinema, teatro, arquitetura, gastronomia, design, moda, games e publicidade, muitos não se dão conta de que essas atividades que têm talento, conhecimento e imaginação como origem são importantes geradoras de riqueza. John Howkins, em seu best-seller Economia Criativa – Como Ganhar Dinheiro Com Ideias Criativas, de 2001, explicou as bases da combinação de criatividade e empreendedorismo e cunhou o termo Economia Criativa (EC).

A Fina Arte do Sucesso, escrito por Jamie Anderson, Jörg Reckhenrich e Martin Kupp é uma leitura mais do que recomendável para todo aquele que deseja compreender como se pode lucrar no setor das artes, visuais e da música. Mas é também um livro inovador para que os gestores de um modo geral possam buscar ideias sobre inovação, criatividade e visão a partir do sucesso nos seus negócios,

Aprender a pensar sobre as oportunidades de abrir negócios nos setores da economia criativa (EC) é cada vez mais imperativo porque a carteira de trabalho já não é mais o antigo passaporte para o emprego, muito menos para a sobrevivência. É papiro medieval.

Há um bom tempo, em 2004, Victor Mirshawka escreveu o livro Empreender é a Solução, no qual enfatizou que para vencer o drama do desemprego era vital ter o engajamento de um número cada vez maior de pessoas no empreendedorismo.

Em 2016, o desemprego atingiu quase 12 milhões de pessoas no Brasil e parece que a situação só tende a piorar. Nesse cenário, criatividade é uma ferramenta de sobrevivência. Conforme nos movemos em direção a um mundo automatizado, onde Inteligência Artificial, algoritmos e robôs substituem os empregos de várias categorias de trabalhadores, a criatividade ganha ainda mais destaque. Por isso, segundo Howkins, o país que não estabelecer uma economia criativa vibrante e fortalecida, no curto prazo, vai enfrentar problemas consideráveis. Para a brasileira Edna dos Santos-Duisenberg, a EC é uma alternativa aos países em desenvolvimento para sair da dependência crônica das commodities.

Alguns dos preceitos da economia criativa são: agregar pessoas de pensamentos distintos e resignificar espaços públicos. A EC compreende toda transação de produtos cujo valor vai além do caixa financeiro. Abrange desde atividades óbvias como artesanato, serviços e entretenimento até tecnologia e toda a área de mídia e audiovisual. O Brasil já tem como principais produtos de economia criativa o carnaval e as novelas, que, além de movimentarem uma enorme cadeia produtiva, são exportados e definem nossa imagem no exterior. Porém, segundo Santos-Duisenberg, “o Brasil ainda sofre um sério problema de desarticulação e descontinuidade de políticas de estímulo ao setor – trabalhistas, tributárias, de propriedade intelectual e de turismo, entre outras”.

Sem dúvida, para atuar em setores da EC, uma competência que a pessoa deve ter é a de colocar-se como um indivíduo criativo, aquele que para a pergunta “Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”, responde rapidamente: “Ontem”. Aliás, quem não puder responder a essa questão, graças ao fato de ter entrado em contato com algo novo, em curtos lapsos de tempo, mostra que não é curioso, não participa de ações diferentes, não se liberta do que é rotineiro.

No modelo industrial, era possível integrar um contingente enorme de trabalhadores ensinando determinadas técnicas. Só que agora a execução de tarefas depende de conhecimento. Para ser criativo, é preciso ter acesso à educação. É preciso, no entanto, repensar a forma de ensinar.

Muitos autores já definiram criatividade para uso em processos profissionais, porém, o assunto é complexo, e diversas conceituações já foram estabelecidas, em sua maioria complementares.

A questão que se coloca é descrever o desenvolvimento da criatividade e apresentar algumas técnicas para a solução criativa de problemas, especialmente aquela desenvolvida por teóricos que é constituída de seis etapas e em cada uma delas há dois momentos: divergência e convergência:

1ª) definição de objetivo (ou descoberta da “confusão”);
2ª) descoberta ou coleta de dados;
3ª) definição do problema;
4ª) geração de ideias;
5ª) definição da solução;
6ª) definição (ou descoberta) de aceitação.

Dentre outras teorias, por seu turno, Tim Hurson procurou explicar como cada pessoa pode utilizar o pensamento produtivo ou tenkaizen[2]. Com ele – o pensamento produtivo –, cada pessoa poderá criar o futuro, pois terá aptidão para imaginá-lo.

Aos interessados, um livro de fácil leitura foi escrito por Richard Israel e Vanda North, Chi-Mental. Da mesma forma que o tai chi chuan tem sido usado ao longo dos séculos para equilibrar o corpo e a mente de uma pessoa, o programa Chi Mental ajuda o leitor a incrementar significativamente sua energia mental, tornando-se mais eficaz em tudo o que faz, ou seja, sendo mais criativo.
Para se chegar a esse patamar, recomendam os autores, basta fazer diariamente, durante 8 min, os seguintes passos: respire, concentre-se, adapte, associe, conscientize-se, escolha, planeje e sinta-se agradecido. Parece um pouco com ilusionismo, basta tentar.

Livros inovadores, resultado de férteis imaginações, para que os gestores de um modo geral possam buscar ideias sobre inovação, criatividade e visão, a partir do sucesso obtido em muitos negócios, são hoje encontrados às dezenas, todos contemplando o que mais falta para gente carecedora de iniciativas e expedientes. A imaginação é a nossa capacidade mental de conceber o que não é, sendo a criatividade a imaginação aplicada, à qual se chega mais facilmente através de métodos como o Lego® Serious Play®, que se refere à ação combinada de três tipos de imaginação (descritiva, desafiadora e criativa) ou seja, a imaginação estratégica, considerada como o processo que surge da interação complexa entre os três diferentes tipos de imaginação.”

Imaginação descritiva tem como finalidade suscitar imagens que descrevem o mundo complexo e confuso lá de fora. Esta é a imaginação que rearranja dados e informações, identifica padrões e regularidades na massa de dados que análises rigorosas geram e informa por julgamentos baseados em anos de experiência.

Já imaginação criativa nos permite ver o que não está lá (!!!). Ela suscita verdadeiras novas possibilidades de combinação, recombinação e transformação de coisas ou conceitos. Enquanto a imaginação descritiva nos permite ver o que está lá (mas de uma nova forma), a imaginação criativa nos permite ver o que não está lá (ainda…).

Por seu turno, a imaginação desafiadora é aquela através da qual negamos, contradizemos e até destruímos o senso de progresso das imaginações descritiva e criativa.

Andy Stefanovich, autor de Olhe Mais Além, oferece diversas abordagens criativas para transformar, mudar e obter resultados. De acordo com ele, os cinco princípios que desencadeiam a criatividade são:

  • a atmosfera (mood), ou seja, são as atitudes, os sentimentos e as emoções que criam o contexto para a inspiração e a criatividade;
  • a mentalidade, isto é, o alicerce intelectual e a capacidade que cada um de nós possui para se inspirar e pensar de maneira diferente;
  • os mecanismos, destacando a utilização de ferramentas e dos processos de criatividade;
  • a mensuração, mais precisamente o desempenho qualitativo e quantitativo e a orientação para oferecer um feedback crítico;
  • o momentum, ou seja, a defesa e a celebração contínuas da inspiração e da criatividade para gerar um ciclo autorreforçador que germina a inovação.

Costumamos relacionar criatividade à tecnologia, mas se as ruas não forem seguras, se as escolas não forem boas e se não houver infraestrutura, a tecnologia fica comprometida. A criação de infraestrutura é um dos principais condutores da EC. O Brasil vive enormes desafios de urbanização, de economia informal, de como incluir pessoas. Para vencê-los e se tornar referência em criatividade, é preciso ter instituições fortes. Sem investimentos em um sistema educacional melhor não há como avançar.

[1] Uma das melhores respostas para essa questão é: preservarão seus empregos aqueles que forem úteis ou indispensáveis para a manutenção e o progresso dos setores que constituem a Economia Criativa.

[2] O ten significa “direito” ou “tradição”; o kai, “mudança”; e zen, “para melhor.