As redes sociais podem ser uma armadilha

10 dez

“E toda banda larga será inútil se a mente for estreita.”
Frase de um comercial da TIM

O futuro bate à nossa porta e, sem esperar resposta, invade nossa casa, nossas relações comerciais, bancárias, profissionais e afetivas, enfim, nossa vida. Para quem é um imigrante digital, como eu, esse fascinante mundo novo pode assustar, pois nos obriga a sair da nossa zona de conforto e tentar nos engajar na grande quantidade de inovações que estão por toda a parte: telefones, aplicativos, compra de bilhetes, likes, curtidas e cutucadas…

Já os nativos digitais, crianças e adolescentes que nasceram e cresceram com essas tecnologias presentes no seu dia a dia, se caracterizam, principalmente, por não necessitar tanto do uso de papel e caneta em suas tarefas, mas do computador e dispositivos móveis, que eles domam com simples e mágicos (para mim) toques nas telas e que encurtam distâncias conectando, por meio de redes sociais, os mais diversos tipos de pessoas nas mais diversas atividades. Essa geração (mas não só ela: não sei mais como era minha vida antes do Whatsapp, por exemplo) vive sob constante e maciça influência das redes sociais.

Estudo da eMarketer, instituto especializado em pesquisas de mercado, estima que um terço da população mundial, ou 2,46 bilhões de pessoas, vão se logar em sites de redes sociais (Facebook, Twitter, etc.) pelo menos uma vez por mês em 2017. O dado é do censo anual de redes sociais que acaba de ser publicado pelo site de pesquisas eMarketer. Esse número representa 71% de toda a população da internet global e equivale a um crescimento de 8,2% sobre o total de usuários de redes sociais do estudo de 2016. Para 2021, a estimativa do eMarketer é ter 3,02 bilhões de pessoas em redes sociais globalmente.

Leandro Karnal aponta duas consequências desses dados. A primeira, positiva e inegável, é que a informação está acessível para todas as pessoas. Ela deixou de estar encastelada, sob o domínio de poucos eleitos mestres e doutores. A segunda, negativa e inegável, é que a informação está acessível a todas as pessoas. E é aí que mora o perigo.

Como lidar com a overdose de informação proporcionada pela internet e pelas redes sociais? Gosto de lembrar a analogia feita por Antônio Suárez Abreu em seu excelente A arte de argumentar : a informação é o tijolo com que se constrói o edifício do conhecimento. Prova de amadurecimento intelectual e emocional é a transformação da informação em conhecimento, é o tratamento da matéria bruta para convertê-la em aprendizagem pessoal, crítica, criativa e sobretudo ética.

As redes sociais são ambientes virtuais que promovem os mais diversificados tipos de interação entre os seus usuários. É notória a influência que elas vêm causando com o passar dos anos e o acesso mais fácil à tecnologia. Hoje é possível fazer uma reunião, ou simplesmente conversar com uma pessoa que está a milhares de quilômetros. Essa facilidade em comunicar que as redes sociais virtuais oferecem passou a modificar a sociedade como um todo. Essa relação intensa – e quase dependente – pode trazer diversos benefícios para a vida de qualquer pessoa, mas também alguns malefícios que devem ser observados de perto.

Apesar de todo o progresso tecnológico, o ser humano, desde os primórdios, tende a falar mal dos seus semelhantes para alcançar os mais variados objetivos, desde uma aliança política ao desejo de estabelecer vínculos sociais de defesa ou ataque. As fake news, por exemplo, podem mudar a configuração geopolítica do mundo. O cyberbullying, que usa instrumentos da web, tais como redes sociais e comunicadores instantâneos, para depreciar, incitar a violência, adulterar fotos e dados pessoais, tem o intuito de gerar constrangimentos psicossociais à vítima. E quando esta é criança ou adolescente, os danos são mais indeléveis e cruéis.

Estudos demonstram que as redes sociais podem aplacar um pouco da solidão social – sentimento de vazio e inquietação causado pela falta de relacionamentos profundos –, mas aumentam significativamente a solidão emocional – sentimento de tédio e marginalidade causado pela falta de amizades ou de um sentimento de pertencer a uma comunidade. É como sentir-se solitário em meio a uma multidão (e atualmente, a multidão é cada vez mais virtual…). Assim, as amizades são cada vez mais numerosas (quem nunca ouviu alguém vangloriar-se de ter mais de 700 amigos no Facebook?, porém, mais superficiais. E a quantidade de laços fortes, cada vez menor.

Muita gente usa as redes sociais não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas para se fechar em suas zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco das próprias vozes, onde a única imagem que veem são os reflexos das próprias caras. “As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”, alertava o recém-falecido sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman.

As contas de perfis falsos, a chantagem emocional ou financeira, o roubo de senhas são alguns dos vários ardis usados para ludibriar a boa-fé ou ingenuidade de internautas que expõem sua privacidade e revelam dados e hábitos. A dimensão dos danos pode se tornar trágica quando crianças e adolescentes são vítimas de pedófilos.

Esses são poucos exemplos de como o mundo virtual, apesar de ser a revolução mais impactante da idade moderna, ampliou a ressonância do que sempre foi ruim no mundo real.

A internet, e consequentemente as redes sociais, parte quase indissociável da vida dos jovens, traz riscos com os quais, muitas vezes, eles não estão preparados para lidar. A última pesquisa do TIC Kids Online Brasil revelou que 79% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos estão ativas na internet – número que representa 23,7 milhões de jovens, dos quais 85% acessam por dispositivos móveis, com os quais têm mais privacidade ao navegar online, sem necessariamente ter a mediação dos responsáveis, o que aumenta exponencialmente os perigos.

Meu mantra é que, além da família, a escola tem um papel fundamental a desempenhar nessa área. O melhor caminho, a meu ver, é a educação digital: educar para que crianças e adolescentes saibam usá-la de maneira ética e segura.

Em junho deste ano, o Google lançou nos EUA o projeto Be Internet Awesome: Helping kids make smart decisions online, uma plataforma informativa para pais e professores com princípios para uma internet segura. Para as crianças há um jogo interativo chamado Interland, em que elas devem combater hackers, phishers (golpistas online), oversharers (aqueles que compartilham informações em excesso na rede) e valentões, praticando as habilidades que precisam para serem bons cidadãos digitais. O objetivo é fazer com que os jovens tomem decisões inteligentes por conta própria.

O Google também se associou a um grupo de criadores para lançar o Be Internet Awesome Challenge, uma série de video que celebra o seu melhor eu-online. Criadores populares, como John Green (autor de A culpa é das estrelas), gravaram mensagens sobre as lições principais de Be Internet Awesome para que as famílias possam começar e manter essas conversas, não apenas na sala de aula, mas também em casa.

Acredito no poder da educação pra transformar o homem e ajudá-lo a usar com criatividade e ética esse recurso inesgotável que a Internet coloca à nossa disposição.