Da Ética ao Ciberespaço

10 dez

Os fatos não deixam de existir
só porque os ignoramos.
Aldous Huxley

Exercer de modo apropriado os poderes que foram extraordinariamente colocados nas mãos de nossa geração vai exigir um grau de inovação moral que mal começamos a explorar, e um grau de compromisso ético inexistente na maioria dos líderes. Talvez seja uma visão exageradamente romântica, mas acredito que o exercício da liderança exigirá a capacidade de compreender e lidar com valores e ética, sobretudo pelo fato de estarmos criando vastos espaços não governados, livres de regras e de leis e isso é indiscutível, para não dizer inaceitável.

A realidade é que, se já não assumiram grande parte do ciberespaço, os algoritmos estão assumindo o comando, não as pessoas e nem a ética. Em breve teremos de nos render pois a verdade é que certas forças tecnológicas se juntaram para fazer com que o poder dos homens e das máquinas saltasse a uma nova etapa de importância exponencial, muito mais rapidamente do que temos nos reformulado como seres humanos, muito mais rapidamente do que temos sido capazes de reformular nossas instituições, nossas leis e nossas modalidades de liderança.

Infelizmente não existe nenhuma lei para o progresso humano e o desenvolvimento moral frente à tecnologia que cria possibilidades para novos comportamentos, experiências e conexões. Entretanto, é preciso contar com seres humanos para que comportamentos sejam ditados por princípios, para que as experiências sejam relevantes e as conexões, profundas e enraizadas em valores e aspirações compartilhadas.

A questão se torna particularmente problemática à medida que o ciberespaço penetra no lar (Whatsapp, o Telegram, Linkedin, Facebook, Instagran, etc. etc. via equipamentos smartphone, tablets, iPod, iPhone, Apple Watch, etc. etc.).
Essa “corrida armamentista” entre os princípios da privacidade e as necessidades de segurança apenas começou, e exige uma séria reformulação
do sistema legal/normativo nacional a respeito de como a privacidade no ciberespaço deve ser regida/regulada e equilibrada com o crescente impacto exercido por homens e mulheres superempoderados.

Levados por impulso incontrolável ou por emoção forte, diante de dúvidas quanto à decisão a tomar, não só se manifestam em nós o senso moral como também põem à prova nossa consciência moral, exigindo que decidamos, que justifiquemos para nós mesmos e para os outros as razões de nossas decisões e que assumamos todas as consequências delas, referindo-nos a valores como justiça, honradez, integridade, generosidade e também a sentimentos provocados pelos valores( admiração, vergonha, culpa, remorso, raiva, medo, etc.).

Os dois termos, ética e moral, são empregados indistintamente pelo senso comum. A origem etimológica não facilita a discriminação : tanto ética (ethos no grego) quanto moral (morale no latim) aludem aos costumes, hábitos, maneiras de viver.
A moral tem como critérios o bem e o mal , valores absolutos, universais, que independem de uma causa material.
A ética, entretanto, tem como critérios o bom e o mau, entendidos como valores relativos e inseparáveis do indivíduo ou de um grupo. E são tais características que poderão estar ausentes nos robôs, na IA se fabricantes inescrupulosos explorarem criminosamente aos incautos.

Essa introdução leva ao comentário que segue, extraído da Revista Carta Capital, de 1° de novembro, sob o título “O melhor amigo de seu filho”, escrito por Dan Jolin para o The Observer.

Dan avisa que vai falar de robôs e que não se trata de brinquedo de pelúcia que ganhou vida somente na imaginação de cada um. É um artigo de consumo produzido em massa, com inteligência artificial, programado para provocar afeição:  o Cozmo é produzido pela Anki e o Meccano MAX fabricado pela Spin Master. Mas, até onde isso deve realmente nos preocupar?

Alan Winfield, professor de ética dos robôs dispara que a chegada de Cozmo, Max e outros sem dúvida desperta preocupações traçando alguns princípios basilares de robótica como o de que um robô nunca deve ser criado para enganar e que sua natureza de máquina deve ser transparente. Ele cobra cautela e responsabilidade  levando em conta os riscos psicológicos de atribuir-se sentimentos a um robô.

Alan acha um absurdo , por exemplo, que o Meccano MAX anuncie animadamente que acaba de ter um sonho muito estranho. Afinal, diz ele, robôs não são pessoas, como princípio fundamental. Assim, um robô não pode ter sentimentos. Mas, para onde estamos indo com brinquedos desse tipo ?

Absolutamente certo que não haja unanimidade na aceitação de tais brinquedos, com essas características, pois crianças precisam interagir com pessoas reais para aprenderem empatia, a ler indícios não verbais e com certeza os robôs estão a uma longa distância desse nível.

Por mais atraentes que possam parecer, qualquer avanço em tecnologia de brinquedos inteligentes precisa ser abordada com muita cautela e sobretudo muito responsavelmente. Aliás, não é de hoje que os pais têm preocupações seculares com a infância de seus filhos e com tudo que os rodeia, inclusive com uma inocente bola de gude, um estilingue, um pião “afiado” ou com o cerol de uma linha de pipa.

O que dizer, então, de gigantes buscadores pesquisadores que hoje afrontam todo o conhecimento humano, tal o poder tecnológico de encontrar respostas para tudo como o Google, o Yahoo Search, Baidu, Qwant, que ao lado dos serviços Wikis nos desafiam a não ter uma pergunta respondida, tal a magnitude dos acervos. E as preocupações se multiplicam exponencialmente se o brinquedo tiver conexão wi-fi.

A nova política de privacidade e os termos de serviço da Google estão dando o que falar. Depois de recente mudança, a Google Brasil decidiu se pronunciar para esclarecer um pouco sobre as mudanças e qual a real intenção da companhia. O diretor de comunicação da Google Brasil, Felix Ximenes, diz que ao contrário de algumas notícias que andam circulando pela web, a empresa não tem uma identidade única para cada usuário da internet, mas apenas para cada usuário dos serviços Google. Quanto à coleta de dados, Ximenes informa que a Google já obtinha dados de seus usuários antes da nova política entrar em vigor. A diferença é que agora a empresa oferece o controle desses dados, uma ferramenta que está disponível na página de privacidade da Google. O diretor da companhia frisa que os dados podem ser cruzados, mas somente quando eles trouxerem benefícios ao usuário. Ou seja, dá pra acreditar ?