A Grita é Geral, mas Falta Diálogo com o Mercado de Trabalho

17 dez

É preciso lembrar que sempre há um futuro, um futuro que é inevitavelmente incerto. Com isso, eu não quero dar uma mensagem de pessimismo, uma vez que a incerteza pode terminar tanto positiva quanto negativamente, com a vantagem de que o ser humano tem o poder de inclinar a balança a seu favor.

Roberto Gómez Bolaños, criador de Chaves

Em recente consulta sobre a formação dos universitários, 90% afirmam que não há uma formação homogênea em todo o território nacional. E, apenas para 4% dos que responderam a pesquisa, a quantidade e a qualidade de profissionais formados atendem à demanda nacional, contra um valor de 46% dos que dizem que ambas não são suficientes.

Na opinião da maioria dos leitores, também fica claro que algo importante para o desenvolvimento dessa formação é a integração do ensino com empresas privadas para intercâmbios e vivências, totalizando 37%. Mas para 28%, algo que realmente pode contribuir é o compartilhamento, no meio acadêmico, de experiências de profissionais que não necessariamente tenham formação de mestre ou doutor. Já para 18% é o incentivo a pesquisas e tecnologias.

Para 63% dos leitores, os cursos de complementação profissional oferecidos em programas de treinamento das empresas são a melhor forma, hoje, para equilibrar as defasagens de formação acadêmica. Porém, muito bem frisado por eles, esta não deveria ser a opção.

Quanto à questão de quais faculdades ou universidades são consideradas referências, 55% das escolhidas foram as públicas federais, seguidas com 27% pelas públicas estaduais e 18% pelas instituições de ensino privado.

Para a maioria dos leitores, as universidades até tentam acompanhar o desenvolvimento tecnológico do mercado, mas, infelizmente, não conseguem, com algumas poucas exceções. E já levaram boas surras com os índices 1, 2 e 3 do INEP. Quanto a uma boa posição nos resultados do Enade, até já desistiram.

Algo pontuado pelos leitores foi a necessidade da criação de órgãos reguladores, como no caso da OAB para a categoria de advogados, antes da expedição do certificado para todas as categorias profissionais.

Por mais que as faculdades corram atrás, existe certa defasagem entre o que é ensinado e o que o mercado de trabalho exige, devido ao dinamismo do mundo empresarial. Diante dessa situação, cabe aos alunos agirem de forma a se inteirarem sobre o que está acontecendo em sua área de atuação.

De acordo com o diretor de Projetos da Ricardo Xavier Recursos Humanos, Vladimir Araújo, o corpo docente é formado, em sua expressiva maioria, por profissionais que se dedicam exclusivamente à vida acadêmica. Como consequência desse pouco contato com o mundo empresarial, existe um distanciamento de questões atuais.
“O grande problema das universidades em geral é não se adequarem à realidade com a mesma rapidez que o dinamismo das empresas exige. Percebo que existe certa letargia por parte de alguns professores em atualizar o plano de aula e ligar a teoria à prática”, explicou Araújo.

O professor de sociologia da UnB (Universidade de Brasília) Pedro Demo concordou, dizendo que as universidades não estão prontas para atender a algumas exigências do mercado. Ele explicou que há um esforço para se adaptar às novidades, mas a maioria dos cursos continua com o currículo antigo, defasado.

“As condições de aprendizagem são muito antigas, predomina o institucionalismo, a aulinha, a cópia e a reprodução. Hoje, o mercado exige particularmente pessoas que saibam pensar, saibam fazer textos, sejam autores, tenham autonomia. Muitos cursos não tomam conhecimento das novas evoluções do mercado, as questões da globalização e as crises do capitalismo”, disse à Agência Brasil.

Diante do cenário de defasagem entre sala de aula e mercado de trabalho, qual deve ser a postura dos universitários?

As exigências, tendências e sinais evidentes que são dados exaustivamente pelo mercado de trabalho não são difíceis de acompanhar. Basta estar conectado ao mundo, acompanhando o noticiário e lendo publicações especializadas.

Como parte integrante desse processo, o aluno também é responsável por esta situação e cabe a ele o compromisso de se manter atualizado e buscar informações além dos muros da universidade. Além de estar conectado ao mundo, ele pode levar para serem discutidas no âmbito da universidade questões atuais e cases que tenha vivenciado, caso já esteja trabalhando. Isso de alguma forma não só estimulará outros alunos a agirem da mesma forma, como também exigirá dos professores uma atualização constante.

Nenhum futuro carrega qualquer certeza, assim, muitos preferem não arriscar nada.