A Meta: desenvolvimento do potencial criativo dos estudantes

24 dez

Criatividade é como barba. Você só a terá se deixá-la crescer.
Voltaire

Como passei parte expressiva da minha vida na gestão de universidades, não poucas vezes me deparei com pessoas, sobretudo professores, muito competentes, mas que pareciam agir como se o freio de mão estivesse puxado. Seriam muito mais eficientes se seus cérebros, domesticados por um ensino (e uma sociedade) fiscalizador e repressor, não lhes tolhesse a criatividade, impondo-lhes o medo de ousar.

Penso que criatividade e inovação, muito originais, têm um segredo que está em se saber qual delas vem primeiro, como o desafio do ovo e da galinha. A universidade não inova porque não cria ou é o contrário? A resposta certa não é bem essa, mas porque antes de tudo há dúvidas, medo e incertezas. É preciso romper com isso. De princípio faltaria estabelecer critérios que caminhassem na firmeza dos conceitos, no que parece existir alguma confusão.

Para Thom Markham, autor do livro Aprendizado Baseado em Projetos: Ferramentas Especializadas para Inovar, o celeiro ideal para criar pessoas aptas a lidar com a inovação, seja do ponto de vista do criador, seja do consumidor, é a escola. “A necessidade de inovar recai sobre a geração atual de estudantes e, por isso, a educação deve se concentrar em permitir a inovação, colocando a curiosidade, o pensamento crítico, a reflexão profunda e a criatividade no centro do currículo”, afirma o especialista.

Ultimamente a criatividade tem sido foco de pesquisas voltadas para o ensino superior, constituindo o centro de interesse em diversas áreas do saber. No entanto, é no campo da educação, especificamente no ensino superior, embora ainda muito poucas, que estudos têm evidenciado as possibilidades de o ensino criativo potencializar a criticidade e a autonomia dos estudantes. A maioria desses estudos aborda a opinião de professores e alunos sobre as práticas docentes referentes às barreiras ou formas de desenvolvimento da criatividade. Além disso, aulas criativas são estimulantes tanto para o professor quanto para o aluno, com possibilidades de gerar aprendizagens intensas a partir de momentos produtivos e prazerosos.

Via de regra, a criatividade é uma característica acompanhada de satisfação e prazer, o que contribui para o bem-estar do ser humano, promovendo sentimentos saudáveis. É, portanto, promotora do bem-estar emocional e da saúde mental. Ela também estimula o intenso envolvimento colaborativo no trabalho de profissionais criativos, constituindo o sucesso de muitas organizações profissionais.

É mais do que certo que a prosperidade futura dos países está vinculada ao potencial criativo social e econômico. Em um mundo globalizado e competitivo, a criatividade tem sido prioridade política em muitos países que buscam promover seu fomento na educação formal, na indústria e nas demais organizações. No Brasil, nos processos de ensino-aprendizagem, em especial no ensino superior, a criatividade é amplamente subestimada, já que a prioridade é o pensamento crítico e racional.

A respeito do pensamento criador, Edgar Morin afirma que “qualquer descoberta, a começar pela de uma coisa visível para todos, é uma conquista cognitiva que comporta invenção e criação”. Ver o que todos veem, porém, pensar sobre aquilo que foi visto de forma diferente de todos pode ser considerado um pensamento criativo.

E ele acrescenta: invenção e criação são dois termos que se sobrepõem e não podem ser separados por uma fronteira. Pode-se, contudo, distingui-los com base na conotação dominante: há na noção de invenção uma conotação de engenhosidade, e na de criação uma conotação de potência organizadora sintética.

Para concluir que “as invenções raras são as que transgridem as regras, enquanto criações são aquelas que as revolucionam. As invenções potencialmente criativas concebem um novo sistema de ideias ou teorias. São capazes de modificar os princípios e as regras que orientam as teorias. São essas criações as responsáveis por modificar nossa visão das coisas e nossa concepção de mundo”.

No entanto, ser criativo não é somente pensar de forma diferente de outras pessoas. A criatividade é um conceito que vai além da flexibilidade de raciocínio, da influência de ideias ou ainda da capacidade de criar novas ideias.

Criatividade deve indicar um comportamento produtivo, construtivo, que se manifesta em ações ou realizações. Não é necessário que seja um fenômeno incomum no mundo, mas deve ser basicamente, uma contribuição do indivíduo.

A criatividade é um processo lento e gradativo e corresponde a fases diferentes ao longo da vida. Em cada fase, a criatividade atinge níveis simples, que vão se tornando complexos gradativamente. A característica ocorre de acordo com as experiências adquiridas, com o contato e os estímulos diversos, proporcionados pelo ambiente social onde nos encontramos. É bem por isso, que publicitários dizem que a criatividade é produto de muita informação e, sobretudo, muito diversificada.

Por outro lado, a imaginação não é um divertimento caprichoso do cérebro, e sim uma função vital necessária, onde tudo começa, seguida da inventividade, da criação chegando à inovação.

A criatividade não é característica exclusiva das profissões que trabalham diretamente com ela, mas é fazendo uso de suas potencialidades que as diversas profissões propiciam ao sujeito encontrar alternativas originais para solucionar problemas e realizar descobertas. Portanto, estimular a criatividade deveria ser papel fundamental na educação, garantindo o aprendizado multi e transdisciplinar, colaborativo, crítico e reflexivo.

Nossas faculdades são, no geral, pouco ou nada criativas. A constatação, embora frustrante, é evidenciada nas aulas, pela falta de entusiasmo tanto de parte dos alunos como dos docentes.

A capacidade de criar tornou-se habilidade essencial na sociedade do conhecimento, fator-chave para lidar com as mudanças rápidas e complexas que caracterizam o mundo contemporâneo. No ensino universitário, há a necessidade crescente de desenvolver o conhecimento científico, aliado ao criativo, com vistas à formação de profissionais preparados para um tempo que exige flexibilidade e autonomia, para enfrentar os desafios de uma sociedade caracterizada pela incerteza e celeridade das mudanças tecnológicas e científicas.

É fundamental que as instituições de ensino superior, que ocupam uma posição central na formação dos futuros profissionais, tenham como meta o desenvolvimento do potencial criativo dos estudantes. No entanto, tão importante quanto estimular a criatividade é desenvolvê-la de modo consciente.

Em outras palavras, não basta somente ser criativo para atender às demandas externas, o fundamental é que a criatividade, como parte integrante do ensino, seja estimulada, objetivando emancipação, proporcionando melhores oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional.