“Criatividade é inteligência, divertindo-se.”

4 mar

“O maior inimigo da criatividade é o bom senso…”
Pablo Picasso

Acho que nunca vou me cansar de repetir que a criatividade é aquilo que fará a diferença na economia num futuro cada vez mais próximo. E nisso não estou sozinho, Klaus Schwab, fundador do World Economic Forum, mais conhecido por suas reuniões anuais em Davos, está convencido de que o talento, mais do que o capital, representará o fator crítico da produção; Ana Clara Fonseca, economista e professora da FGV e das Universidades Nacional de Córdoba e Rey Juan Carlos, afirma que a criatividade é o principal ativo contemporâneo; economistas do Reino Unido, desde 2005, acreditam que o investimento em criatividade é uma saída viável a médio e longo prazos para questões estratégicas relacionadas ao desenvolvimento, não mais compreendido como um registro simplesmente numérico de desempenho de setores da economia, mas sim um paradigma que engloba necessariamente os desafios contemporâneos relacionados ao meio ambiente, ao social e à cultura; Richard Florida, teórico norte-americano do Urbanismo, ressalta o papel da criatividade enquanto uma força na economia contemporânea.

Criatividade é uma palavra de múltiplas definições que remete à capacidade de criar o novo e de reinventar o que já existe, diluir paradigmas tradicionais, juntar pontos que parecem desconexos e, com isso, gerar soluções para novos e velhos problemas. Em termos econômicos, ela é um combustível renovável cujo estoque aumenta com o uso, assim, a concorrência entre agentes criativos, ao invés de saturar o mercado, consegue atrair e estimular a atuação de novos produtores.

Tanto o conhecimento quanto a informação representam insumos básicos para a criatividade e o seu produto é a inovação. Num cenário econômico-social em que se tem como única certeza a incerteza, a fonte de vantagem competitiva e duradoura é o conhecimento: além do capital, da matéria-prima e da mão de obra, as áreas estratégicas das empresas voltaram os olhos para o uso das ideias como recurso essencial para geração de valor. Assim, nas últimas décadas as empresas começaram a reconhecer a relevância da criatividade e da inovação e a considerá-los em seus planejamentos estratégicos.

No cenário disputado e dinâmico atual, a criatividade pode representar um importante fator de sucesso econômico para as organizações, no entanto, como observa John Anthony Howkins, autor e pesquisador inglês de Economia Criativa, a criatividade de forma isolada não possui valor econômico: ela precisa ter forma e deve ser materializada em um produto comercializável para alcançar valor comercial.

Segundo a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em seu Relatório de economia criativa 2010, não existe uma definição simples de criatividade que contemple todas as suas diversas dimensões. Contudo, as características da criatividade em diferentes áreas que envolvem os seres humanos, podem ser estruturadas da seguinte forma:

· criatividade artística: envolve a imaginação e a capacidade de geração de ideias originais e novas formas de interpretar o mundo, podendo ser expressa nos formatos de texto, som e imagem;

· criatividade científica: envolve curiosidade e disposição para experimentar e realizar novas conexões com vistas a solução de problemas;

· criatividade econômica: é um processo dinâmico que resulta em inovação tecnológica, práticas de negócio, marketing, entre outras, e é estreitamente ligada à aquisição de vantagem competitiva na economia.

A administração da criatividade, segundo Howkins, inicia-se com o entendimento da economia da criatividade, que tem a ver com combinar dois sistemas de valores distintos. Um deles é baseado em produtos físicos, tangíveis, que se comportam de forma similar a outro produto ou material físico. O outro sistema é baseado na propriedade intelectual que possui características bem peculiares e diz respeito a elementos intangíveis. Ocorre que a economia tradicional lida muito bem com o primeiro sistema, mas tem dificuldades para lidar com o segundo.

Mas não só a economia – como a escola tem enfrentado os novos tempos? As crianças hoje vivem em um mundo digitalizado, enquanto nossa educação é do século passado (ou do retrasado!).

Para Ken Robinson, professor inglês e consultor de governos europeus, somos formados por um sistema educacional fast-food, em que tudo é padronizado, industrializado. Segundo ele, é preciso mudar para uma educação manufaturada, orgânica. Aprender que o florescimento humano não é um processo linear e mecânico, mas orgânico. Robinson diz que o atual sistema educacional acaba com a criatividade e a curiosidade naturais dos jovens ao forçá-los a se configurar dentro de um molde acadêmico unidimensional. “Esse molde pode funcionar bem para alguns — principalmente para aqueles que querem se tornar professores universitários. (…) Creio que nossa única esperança para o futuro é a adoção de uma nova concepção de ecologia humana, uma em que começamos a reconstituir nossa concepção da riqueza da capacidade humana. Nosso sistema educacional explorou nossas mentes como exploramos a terra: em busca de um recurso específico. E, para o futuro, isso não serve. Temos de repensar os princípios fundamentais em que baseamos a educação de nossas crianças.” Assim, segundo ele, a educação precisa ser customizada para diferentes circunstâncias e personalizada. É preciso criar um sistema em que as pessoas busquem as próprias respostas.

No século XXI, não tem mais lugar um modelo de educação em que o aluno é mero espectador que apenas absorve conteúdos enquanto o professor, detentor de todo o conhecimento, apresenta em uma lousa a teoria que só ele domina para que todos possam anotá-la e memorizá-la.

A escola deve propiciar as condições para que o aluno saia do mundo das ideias e coloque em prática seus saberes, tenha oportunidades de desenvolver sua capacidade criativa, o trabalho colaborativo, a perseverança e a resiliência.

É importante que a escola, além de contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico e criativo, forme cidadãos capazes de resolver problemas de toda ordem. Para isso, é fundamental a adoção de uma metodologia que proponha desafios, mais do que apenas fornecer informações.

A conformidade e a submissão podem ter sido os objetivos sociais e econômicos dos arquitetos do modelo escolar compulsório criado no século XIX, feito para funcionar de cima para baixo. Mas a economia do século XXI exige criatividade e adaptação. Hoje, acima de tudo, é necessário um modelo voltado para o aprendizado, que privilegie a capacidade de raciocínio próprio e a criatividade, e não um modelo de ensino compulsório voltado para escola.

É impossível acreditar que um modelo arcaico de ensino forçado pode se adaptar às exigências de uma nova economia saturada de informações e cada vez mais voltada para a tecnologia, a qual requer agilidade, inventividade, colaboração e um contínuo compartilhamento de conhecimento. Um modelo educacional verdadeiramente transformador para o século XXI é aquele que cultiva e estimula a criatividade humana.

Para concluir a série de artigos que venho escrevendo sobre o assunto, na próxima oportunidade espero encerrar com um conteúdo mais didático e técnico.