Currículos universitários não atendem por anacrônicos e retrógrados

11 mar

Se você acha que a educação é cara, experimente a ignorância.
Derek Bok

Parte da população brasileira já se deu conta de que educação é investimento, mas não tem força nem representação política para dar consequência social à noção de que a ignorância, mais do que custar caro ao indivíduo, custa caro ao país. A polêmica sobre a eficiência do ensino superior não é nova, mas adquire contornos mais definidos neste início de século em que velhos paradigmas estão sendo quebrados e em que, cada vez mais, o diploma universitário não é garantia de desenvolvimento das capacidades cognitivas dos estudantes, como seu espírito crítico e sua capacidade de resolver problemas.

É só dar ouvidos ao mercado empregador para saber o que pensam os RHs, recrutadores, gerentes e gente de decisão na contratação de pessoal novo, egresso das universidades. A grita é geral, não só no Brasil, daí estarmos “um pouco” absolvidos, ou melhor, “meio condenados”.

O ex-reitor da Universidade Harvard Derek Bok quebrou lanças com os líderes acadêmicos quando apontou que, apesar dos seus muitos benefícios, as faculdades e as universidades americanas “oferecem muito menos para seus alunos do que deveriam. (…) Muitos formados deixam a instituição com um diploma cobiçado e dispendioso sem poder corresponder o suficiente para satisfazer os empregadores (…) ou raciocinar claramente ou executar de forma competente a análise de problemas complexos e não técnicos”. Segundo ele, deve-se enfatizar a importância de abraçar as mudanças, de correr riscos e de manter a Universidade Harvard jovem por meio da revisão curricular.

À preocupação em manter Harvard sempre jovem, somou-se a preocupação de delinear as atuais necessidades da sociedade e dos cidadãos de um tempo histórico marcado, entre outros fenômenos, por um mundo de comunicação em tempo real, pela integração das culturas, pelas necessidades humanas globais, pelo cuidado com o meio ambiente e pelas novas formas de produção de conhecimento.

O dinâmico esforço de administrações para planejar formas efetivas de avançar e atualizar a educação que a universidade desenvolve no sentido de “encontrar as necessidades de uma sempre mutável ideia de sociedade próspera” expressa-se no núcleo curricular (core curriculum) descrito como mais enfático no domínio do pensamento do que no de conteúdos disciplinares. Com base nesse entendimento, foi delineado o que o estudante deveria desenvolver para assegurar as condições básicas de um indivíduo educado para o século XXI:

  • ser capaz de pensar e escrever clara e efetivamente;
  • ser capaz de uma apreciação crítica sobre as formas de adquirir e aplicar conhecimento, sobre o entendimento do universo, da sociedade e de si mesmo;
  • ter um julgamento informado que o capacite a fazer escolhas criteriosas;
  • não ser ignorante sobre outras culturas e culturas de outros tempos;
  • alcançar conhecimento aprofundado em um campo de conhecimento.

O novo currículo sugerido está organizado por meio de múltiplas teorias, múltiplas disciplinas e tradições disciplinares. Não serão mais cursos introdutórios para disciplinas, quaisquer que sejam, nem cursos de responsabilidade de um departamento específico. Serão cursos integrados, rompendo com a perspectiva disciplinar que tem definido a vida acadêmica da universidade moderna.

Os cursos serão planejados conjuntamente por professores de várias áreas com o objetivo de romper limites demarcados, promover a interação e o diálogo, ter uma mesma linguagem e passá-la para os estudantes. O planejamento conjunto intenciona definir os mais importantes conceitos e atitudes que os estudantes devem adquirir sobre cada área do conhecimento. Esses cursos podem ser desenvolvidos por diferentes professores numa perspectiva integrada ou por um professor que tenha uma perspectiva ampla do conhecimento a ser ensinado.

Qualquer que seja a escolha, a meta principal é o fortalecimento da capacidade crítica, do pensamento reflexivo, do desenvolvimento da argumentação fundamentada, da capacidade da leitura, da escrita, da apresentação oral e da capacidade de interpretar e utilizar os métodos quantitativos quando forem apropriados. Cabe à Universidade promover as condições necessárias para essa inovadora forma de ensinar e apoio para a preparação de seus professores para esse novo desafio curricular.

No primeiro ano de curso será exigido o cumprimento do expository writing (orientação para a escrita), pois qualquer que seja a atividade profissional a ser desempenhada futuramente pelos estudantes, sempre haverá a necessidade de comunicar ideias e expor claramente o pensamento. A escrita e a fala são ferramentas para a comunicação do pensamento humano e por elas busca-se clarificar e organizar as evidências que suportam o pensar. Assim, o programa desse curso deve envolver tanto as habilidades da escrita como as da exposição oral para que o aluno consiga expor de forma coerente, lúcida, argumentativa e lógica. As habilidades adquiridas terão um desenvolvimento constante nos quatro anos de graduação.

Aqui no Brasil também, ensinar os alunos a pensar criticamente e comunicar-se efetivamente foram reivindicados como os objetivos principais do ensino superior. Mas o compromisso com essas habilidades parece muito distante da realidade.

A realidade é que uma proporção surpreendente de estudantes está progredindo no ensino superior hoje sem ganhos mensuráveis em habilidades gerais. Embora estejam adquirindo conhecimentos específicos da sua área ou maior autoconsciência de suas jornadas por meio da faculdade, muitos estudantes não estão melhorando suas habilidades em pensamento crítico, raciocínio complexo e escrita.

E, por incrível, essas são justamente as habilidades que os empregadores esperam cada vez mais dos graduados com diploma de ensino superior. Uma pesquisa de 2013 sobre empregabilidade, feita pela Association of American Colleges and Universities, constatou que 93% dos empregadores dizem que a capacidade de pensar de forma crítica, comunicar-se com clareza e resolver problemas complexos é mais importante do que a graduação de um candidato. Ou seja, bateram com a mão de gato nos rostos dos estratos das universidades, do subsolo ao último andar.

O que querem mais de três quartos dos potenciais empregadores de novos graduados? Que as faculdades enfatizem habilidades básicas como “pensamento crítico, resolução de problemas complexos, comunicação escrita e oral e conhecimento aplicado”.

Se o mercado é efetivamente o cliente das universidades elas ainda não aprenderam que o cliente tem sempre razão.