Davos não assumiu nada com a educação

18 mar

18Transformar a força de trabalho passou a ser o maior desafio estratégico enfrentado pelas empresas que esperam ter sucesso no próximo século. E, como a transformação das pessoas dá-se através da educação, o desafio é principalmente de educação e reeducação de todos os níveis e grupos dentro das empresas.
José Ernesto Lima Gonçalves

Entre trombetas de uma fanfarra, iniciativa juvenil de Donald Trump, os salões do meeting 2018 foi só um evento, uma passarela fashion cujos resultados de discussões do interesse planetário ficaram ao largo. Isso porque de há muito os participantes esperavam que finalmente as coisas “aconteceriam”. Mas não, seguiram-se governantes discursando na tribuna e que em nada deixaram de substantivo para os quase 8 bilhões de habitantes terrenos. O ambiente estava mais para mercado persa de compra e venda, escambos e consignações, de tudo, de agulha de costura a armamento militar.

Em que pese o clima majoritariamente comercial, como se tudo o mais não tivesse de estar na pauta, como poluição, educação, desigualdades, etc., do fórum na Suíça, emitiram-se sinais inequívocos de otimismo. Quiçá inebriados pelo momento global de recuperação econômica, os líderes participantes, em sua maioria, gabaram-se dos indicadores positivos de seus países. Salvo poucas vozes dissonantes, restou a impressão de que tudo caminha no rumo certo.
Exemplo mais bem acabado de que a reunião da elite mundial serviu de palanque se deu com Trump que disse tratar-se da hora de investir nos EUA e destacou sua recente decisão de reduzir a taxação sobre lucros de empresas.

E veja-se que o cenário no horizonte é de grandes desafios, tudo decorrente de muitas mudanças tecnológicas que já ocorreram, mas em caráter exponencial ainda estão por vir. E elas se situam em diversos campos: na universidade, na indústria, nas empresas de modo geral.

Assim, sem qualquer isenção, há riscos inerentes de atrasos e adiantamentos que desequilibram a balança, como exemplo, se a universidade preparar os jovens para o momento de competências  4.0 e não existe contrapartida no mundo do trabalho, que só está preparado para organizações 1.0.  Haverá então a indesejada disruptura de gerações e formações.

A principal instituição de regulação global centrada nas preocupações do mundo do trabalho, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), completa 100 anos em 2019. Na edição de 2015 da Conferência Internacional do Trabalho (CIT) – órgão máximo da OIT que reúne anualmente e aprova as convenções, recomendações e resoluções que tratam das condições de trabalho e das relações laborais – o diretor geral da OIT, Guy Ryder, propôs como tema de fundo comemorativo do centenário, O Futuro do Trabalho.

Desde então, obedecendo ao espírito tripartido da OIT, isto é, envolvendo governos e representantes de empregadores e de trabalhadores, inúmeros debates e reflexões estão a ocorrer nos planos mundial, regional e local, versando tópicos como o trabalho e a sociedade, o emprego digno para homens e mulheres, a organização do trabalho e da produção e a governação do trabalho.

Assim é que foram constituídas comissões e grupos de trabalho voltados para quatro atenções.

Por primeiro, a problemática da macro-regulação econômica, que constitui um apelo à percepção do lugar da política econômica na promoção do crescimento, na criação e na qualidade do emprego, fatores particularmente relevantes no atual contexto de estagnação da economia internacional. Como o são também o endividamento público e privado, as desigualdades de rendimentos, o comportamento do setor financeiro, ou a substituição do “pleno emprego” pela “plena empregabilidade” no campo das políticas públicas.

Em segundo, os impactos das mudanças tecnológicas no trabalho e no emprego, que há muito suscitam um misto de sentimentos de atração e de repulsa. Surgem aqui como possíveis tópicos em discussão o lugar das indústrias do futuro, os diferentes tipos de trabalho digital, as implicações da automação produtiva na vida de quem trabalha, os processos de individualização na gestão dos tempos de trabalho e do não trabalho, o desemprego tecnológico, as exigências de novas competências ou, ainda, as tensões entre atividades de serviço público tradicional e o recurso a plataformas tecnológicas, por exemplo como o conflito entre taxistas e a plataforma Uber.

Como terceiro, a discussão do problema das desigualdades no trabalho e no emprego. As desigualdades de gênero, vertidas em persistentes assimetrias salariais ou de acesso a lugares de responsabilidade nas empresas, ocuparão, por certo, um lugar importante. Igualmente, há que debater em que medida estão as formas de trabalho atípicas a mostrar desigualdades de rendimento e de acesso a direitos laborais e sociais. Por outro lado, urge analisar que novos desafios se apresentam à gestão de “recursos humanos” nas organizações.

E por último, tão ou mais importante quanto os pontos anteriores, surge o desafio de pensar o futuro das relações laborais como veículo de promoção de quadros equilibrados e estabilizados de direitos e deveres. Isso envolve, necessariamente, discutir como manter ativas as estratégias de diálogo/confronto/compromisso entre representantes de governos, empregadores e trabalhadores para que o trabalho, sendo um espaço de responsabilização e de dever profissional, seja crescentemente um locus de realização e valorização pessoal, de criatividade e de efetivação da democracia. O papel do diálogo social em geral, e da negociação coletiva em particular, assumem uma centralidade inquestionável no sentido de comprometer, de forma dinâmica, interesses diferentes.

Muitas dessas preocupações atravessam necessariamente os portões das universidades, local cujo domínio da aprendizagem tem sido lento no uso das oportunidades oferecidas pela tecnologia. Muito dinheiro é ainda desperdiçado nas salas de aula para grupos de colaboradores, para aprender assuntos variados, muitas vezes não direcionados a nada com aplicação imediata, mas para uso futuro possível. Há sinais de mudança neste sentido. Grandes materiais são divididos numa aprendizagem mais digerível (micro learning).