Entre latas de lixo, hidrantes e vacas

18 mar

É impossível não dar mais uns passos ao lado de Thomas L. Friedman, autor de Obrigado pelo atraso, sobre quem abordei em artigo anterior.
Ocorre que, como bom jornalista, Friedman é acima de tudo curioso e vai fundo em suas pesquisas, porque não dizer investigações. Afinal, sua rubrica é sinal de confiança, da novidade, da certeza que o relatado ganha majestade de realidade convicta. É a assinatura da credibilidade.
Afinal o seu “Obrigado…” carrega 530 páginas de densidades no mundo das tecnologias que assombram e nos deixam perplexos. Como bom profissional,
Friedman adota as técnicas de um excelente alfaiate, cerzindo, chuleando, pespontando, alinhavando, de modo a facilitar ao leitor, sobretudo os leigos,
deixando o vestuário pronto para o jantar das saciedades tecnológicas. E, à mesa, levando os ouvintes ao deleite dos “casos” que todo bom jornalista tem nos bolsos, ou na cartola. Um mágico que não trabalha com coelhos ou pombos mas com acelerações e exponencialidades.
Vejam a seguir o que ele nos conta sobre sensores, já antecipando que
a época dos palpites ficou oficialmente para trás.

Para Friedman, uma das mais inesperadas e espantosas consequências da aceleração da tecnologia foi a colocada nos hidrantes contra incêndio como sendo, agora, inteligentes, considerando que passou a transmitir sua pressão de água por uma rede sem fio, diretamente ao escritório da empresa que presta tal serviço. Com isso reduziu-se bastante o risco de um estouro ou defeito de funcionamento.
O mais incrível é que essa tecnologia pode formar um par com as latas de lixo que são carregadas com sensores que anunciam –também por uma rede sem fio – quando estão cheias e precisam ser esvaziadas, otimizando com isso as rondas de serviços dos funcionários que coletam o lixo. Com isso a cidade fica mais limpa gastando menos dinheiro. Não é incrível que hoje até o lixeiro é um funcionário tecnológico ? Os recipientes contêm tecnologia de computação em nuvem para enviar sinais dirigidos aos lixeiros assim que as latas atingem a sua capacidade e requerem atenção imediata.
Aí estão dois exemplos não diretamente relacionados à computação em si, mas a algo vital para expandir o que os computadores agora podem fazer, referindo-se aos sensores.

O autor, com bom humor, sabe ter o seu lado jocoso dizendo que essa lata de lixo seria capaz de fazer uma prova de vestibular.

E mais, graças à aceleração na miniaturização dos sensores, agora é possível digitalizar os três sentidos –visão, toque, audição — estando próximo o olfato.

A polícia agora emite sinais na direção dos carros para medir sua velocidade e emite ondas sonoras na direção de edifícios para localizar a fonte de um disparo. Um sensor de luz no computador mede a luz ambiente, em sua área de trabalho e então ajusta o brilho da sua tela de acordo com essa informação.
Seu Fitbit é uma combinação de sensores que medem o número de passos que a pessoa dá, a distância que percorreu, as calorias que queimou e quanto vigorosamente move os membros. A câmera no telefone é fotográfica e de vídeo que pode captar e transmitir imagens de qualquer lugar para qualquer lugar.
Essa incrível expansão de digitalização de dados só foi possível por avanços na ciência de materiais e na nanotecnologia, que criaram sensores tão pequenos, baratos, inteligente e resistentes ao calor e ao frio.

Vez por outra Friedman coloca uma cereja no bolo ao longo de seus relatos e a próxima foi sua entrevista com Bill Ruh, principal responsável pelo setor digital da General Eletric – GE – na Califórnia, empresa que tem uma capacidade enorme de instalar sensores em toda parte e que está ajudando a tornar possível a “internet industrial”, também conhecida como “Internet das Coisas”.
Para se ter uma ideia do gigantismo da atuação da empresa basta conferir os números, por exemplo, que a GE reúne os dados de mais de 150 mil equipamentos médicos, 36 mil motores de jato, 21.500 locomotivas, 23 mil turbinas de vento, 3.900 turbinas a gás e 20.700 partes de equipamento de gasolina e gás, todos reportando à GE via rede sem fio seus comportamentos a cada minuto.
Ao enchermos um recipiente de lixo até sua capacidade ótima ou ajustarmos a pressão de um hidrante antes de um estouro dispendioso, estamos economizando tempo, dinheiro, energia e vidas e, de modo geral, tornando a humanidade mais eficiente do que jamais tínhamos imaginado até então.
Essa capacidade de gerar e aplicar conhecimento tão mais rapidamente está fazendo com que sejamos capazes não apenas de extrair o máximo de seres humanos, mas também de vacas. É isso mesmo o que o leitor está lendo.

A era dos palpites também chegou ao fim para os produtores de leite e foi o que Joseph Sirosh, vice presidente corporativo de dados da Divisão de Nuvem e Empresas da Microsoft, contou ao Friedman, que novamente, jocosamente, descreve a conversa sobre “a vaca conectada”.

Produtores de leite no Japão procuraram a gigante do ramo de computação Fujitsu com a questão se eles poderiam melhorar a probabilidade de fazer vacas procriarem com maior sucesso em grandes unidades de produção leiteira ? E tudo decorreu não tão simplesmente.
Ocorre que as vacas entram no cio em um período de receptividade e fertilidade sexual, no qual podem ser inseminadas artificialmente com sucesso – numa janela de tempo de apenas doze a dezoito horas a cada 21 dias e muitas vezes isso se dá à noite.
Para um pequeno fazendeiro com um grande rebanho monitorar todas as suas vacas pode ser muito difícil e saber a hora ideal para inseminar cada uma delas daí porque a Fujitsu muniu as vacas com pedômetros conectados com a fazenda por sinal de rádio. Uma pesquisa da empresa constatou que um grande aumento do número de passos por hora representava um indício de 95% acurado de ocorrência do cio e quando isso é detectado o sistema enviava um texto de alerta para os celulares dos fazendeiros para que implementassem a inseminação exatamente nas horas certas.
Todos os dados gerados pelos sensores das vacas propiciaram outro insight ainda mais importante porque foi descoberto que dentro daquela janela temporal o ideal seria realizar a inseminação nas primeiras quatro horas havia 70% de probabilidade de se obter uma vaca e não um bezerro, permitindo assim que o fazendeiro poderia determinar a proporção de vacas e touros no rebanho de acordo com as necessidades.
Se uma vaca munida de um sensor transforma um produtor de leite num gênio, uma locomotiva dotada de sensores deixa de ser um trem burro para se transformar num sistema de TI sobre rodas. Ela poderá de repente detectar e transmitir a qualidade dos trilhos a cada trecho de trinta metros. Pode perceber uma inclinação e determinar de quanta energia necessita para avançar cada quilômetro de terreno, colocando menos combustível quando estiver descendo.
Como se vê, pelos poucos relatos acima, o mundo hoje parece estar mais veloz do que nunca e a lei de Moore, como mostra Friedman, o poder dos computadores dobra a cada dois anos. É uma liberação extraordinária de energia que está remodelando tudo, da forma de chamar um táxi ao destino das nações.
A transformação ocorre em profundidade nas instituições, nas empresas, no trabalho e nos ecossistemas do planeta. Está-se criando novas e vastas oportunidades de salvar o mundo, ou de destruí-lo.
O “Obrigado… “ é pura história contemporânea, um manual para pensar sobre esta era das acelerações mas também pode ser um argumento para “se atrasar”  mais, fazer uma pausa e apreciar a época extraordinária que passamos e refletir sobre as possibilidades e perigos.