Nos Currículos(grade) a Conta Não Fecha

25 mar

O ano letivo de 2018, nas universidades, já terá sido discutido e programado faltando implantá-lo, e com muitas novidades nas maiorias das IES. Algumas delas já se adiantaram em explicar o que ocorrerá com o horário de aulas e a alteração da carga horária dos cursos.

A primeira das justificativas sugere a pergunta : Haverá alteração no horário de aula?

Sob a alegação de que os horários foram “atualizados” para que a carga horária do curso fosse mais bem distribuída ao longo dos semestres, que passam a ser mais longos(?) pairam muitas dúvidas, ou melhor, incertezas.

 COMENTÁRIO:
Não fica esclarecido o que é isso de os semestres passarem a ser mais longos.
Impossível começar as aulas antes de fevereiro e finalizar depois de junho, dado o recesso de julho. Não há como dilatar uma hora de 60 minutos, ou um dia de 24 horas, assim como uma semana de cinco dias ou um mês de 30 dias.

Com isso, tudo indica, as IES já montaram o calendário acadêmico do 1º semestre de 2018 cujo início será em: 05  de fevereiro (veteranos) e provavelmente uma ou duas semanas após, 12 ou  19 de fevereiro para os calouros. Os horários de entrada e saída também foram modificados:

Matutino (das 8h50 às 11h40)  = duas horas e trinta minutos        = 150 minutosVespertino (das 14h às 16h50) = duas horas e cinquenta minutos= 170 minutos
Noturno (das 19h às 21h50).    =  duas horas e cinquenta minutos= 170 minutos

 COMENTÁRIO:
Com isso, quantas aulas caberão nos 150 ou 170 minutos?

As aulas universitárias, tradicionalmente têm 100 minutos, quando não, 120 minutos se adotada a hora-aula-relógio. Uma ou outra tem implicações trabalhistas. A propósito, quem ternminar a aula às 21h50 quer, evidentemente, fugir do horário noturno trabalhista.
Também tradicionalmente, a hora aula têm cinquenta minutos daí que para se chegar aos 100 minutos chama-se a essa conjunção de “dobradinha”. Para muitas IES isso pode representar o passado.
Após a primeira dobradinha, se segue um intervalo para café e após isso dá-se a segunda dobradinha. Ou seja, só para exemplificar, tanto no diurno como no noturno adotemos início às 8h00 até 9h40 – intervalo de 10 minutos – 9h50 até 11h30. Assim o período diário atinge 200 minutos.

Fácil perceber que a nova proposta reduzirá diariamente 30 a 50 minutos de aulas/conhecimentos. A perda semestral ou anual é expressivíssima também, ou sobretudo, significando ter como inalcançável a carga do curso, sejam 2.800 ou 3.200 horas. Salvo malabarismos e contorcionismos.

Isso sem se falar nos dias não letivos, que a princípio, em 2018, podem somar  5 dias no 1° semestre ( uma semana ) e 4 dias no 2° semestre, não computados acidentes como blackout , greve de ônibus, greve docente e/ou discente, preparo do prédio para as eleições, “pontes” entre feriados, carnaval, Páscoa, semana do saco cheio, etc. etc.

Pode-se alegar que não haverá alteração na carga horária dos cursos sem prejuízo do volume de horas para a integralização?.

Para algumas IES o novo modelo acadêmico estaria propondo uma forma de trabalho mais moderna, flexível e totalmente voltada para o desenvolvimento de competências relevantes para o mercado de trabalho?

A carga horária total dos cursos continua atendendo rigorosamente ao previsto pelas DCNs (Diretrizes Curriculares Nacionais) estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC) para cada curso de graduação?

 COMENTÁRIO

Carga horária de um curso é aquela determinada pelo CNE que dispõe, curso a curso, que ela seja integralmente cumprida ao longo de anos ou semestres, sempre respeitando a obrigatoriedade de 100 dias letivos (se semestral) ou 200 dias letivos (se anual). É ainda nebulosa a condição de oferta de 20% da carga horária do curso em caráter não presencial. Ou seja, tal porcentagem diz respeito aos dias letivos ou à carga total obrigatória que o curso deve manter para sua integralidade?

Para isso, adota-se regularmente a semana com 5 dias e por conseguinte 4 semanas do mês de onde se chegar a 20 dias letivos mensais, que por sua vez exigirão cinco meses para a  totalização dos 100 dias/semestre.
E veja que a LDB fala em “excluídos os dias de provas e exames”.

Em cada dia, podem(iam) acontecer
I)   4 aulas(disciplinas) de 50’ = 200’
II)  2 aulas de 50’(dobradinha) = 100’
III) 2 dobradinhas de 100’ = 200’

Há disciplinas com carga horária curricular semestral de:
I)   20 h – com 1 aula semanal de 50’
II)  40 h – com 2 aulas semanais de 50’ = 100’ (uma dobradinha)
III) 80 h – com 4 aulas semanais de 50’ = 200’ (duas dobradinhas)
É sabido que poucas Instituições de Ensino Superior (IES) cumprem os 100 dias letivos/semestre. Veja-se o caso de hoje, quando seria preciso contar com os meses de fevereiro/março/abril/maio/junho (5 meses X 20 dias [2a. a 6a. feira]).
Neste semestre, quando se iniciaram(ão) as aulas? Ou seja, a conta não fecha. E veja que a LDB fala em “excluídos os dias de provas e exames”.

Apenas para facilitar os cálculos, quantos encontros-aulas são necessários para se integralizar a carga de uma disciplina de 20 h semestrais – adotando-se a hora-relógio? E as de 40 h?
Resposta: sempre 5 meses com 4 semanas = 20 encontros. Mas os cálculos precisam ser feitos multiplicando por oito semestres, para cursos com igual duração. Um curso projetado para integralização com 3 mil horas pode facilmente ser “concluído” com 1 mil horas a menos. Se obrigado a desenvolver os 800 dias, facilmente só decorrerão 600 dias. Tremendo prejuízo. Para “completar os 100 dias”, há IES que agregam quaisquer outras “atividades de estudos”(?) para chegar à soma exigida. Inclusive a carga dedicada às Atividades Complementares que não são medidas em dias letivos mas em horas-atividades.

No cenário há só um grande prejudicado: o aluno, porque não recebe a “carga contratada”, ou melhor, tem muitas horas a menos do que foi planejado para o desenvolvimento dos conteúdos, mas paga por elas. Aqui está um gap flagrante em prejuízo da formação, do integral cumprimento dos currículos, na subtração de conhecimentos a ofertar.

Uma alternativa pode ser a de complementar a carga com EAD, mas ela não supre os dias letivos. Afinal, dia letivo é coisa do passado, como fica a LDB? Bastaria a integralização da carga? Não há o risco de se tornar um “curso vago”?

Se o EAD complementa conhecimentos, é possível traduzir a permanência do aluno junto à tela na proporção temporal da carga da disciplina? E no mesmo raciocínio, a cada comparecimento diante da tela é possível equivaler tal ”presença virtual” à presença em sala? Ou seja, abatem-se as faltas presenciais pela presença virtual? Há toda uma imbricação exigindo estudo mais alongado de currículos, cargas, conteúdos, capacidade, habilidades e competências, etc., etc. Aritmeticamente a conta não bate, não fecha porque 11 não é igual a 1+1, mas, enquanto isso, neste momento, há muitas escolas discutindo currículos e por certo haverão de implantá-los, lamentavelmente, dentro dos mesmos modus operandi e faciendi tradicionais.

Sem radicalizar, exceção às férias laborais dos docentes, as IES precisam mais e mais otimizar os expedientes educacionais no tempo e espaço porque a competitividade global vai punir severamente a negligência e a desídia aos operadores do setor. Alguma dúvida? O leitor está com a palavra.