A Guerra dos Índices e Estatísticas Educacionais

25 nov

Basta aparecer um índice/estatística originário do Inep/MEC que, como sempre acontece, lá vem a oposição propondo queda de braço para contestar os números. Não é para menos quanto ao assunto de hoje, Saeb X Ideb, que, cá para nós, é outra barafunda conturbada de avaliação. Mais uma, mais outra, além do Enade, do Enem.

 

Confesso que ignorava alguns aspectos dessas modalidades de avaliação, mas, inteirando-me melhor, concluí que é mais um dos mistérios da caixa preta avaliativa educacional nacional. E arrisco dizer que é do desconhecimento de muita gente interessada nos egressos do Ensino Médio.

 

Os resultados se nos apresentam há anos como inquestionáveis, considerando os dados de coleta, que, entretanto, são muito discutíveis. Afinal, a “qualidade” do egresso do Ensino Médio é nosso afã, nosso escopo para conduzi-lo ao terceiro grau.

 

No final de agosto  a esgrima foi motivada pelos resultados pífios do Saeb – Sistema de Avaliação da Educação Básica que indicam uma catástrofe em 2017 , com seriíssimas consequências para a continuidade do percurso quando esses estudantes baterão nas portas das faculdades.

 

O MEC indica 375 pontos em Língua Portuguesa e Matemática, e o Todos pela Educação (TPE) 300 e 350 pontos respectivamente nessas disciplinas. O incômodo dos pontos e contrapontos é que tanto os índices como os resultados, seja de um seja de outro, constrangem e confundem  comunidade, os pais, os professores e demais, que não aceitam os números como seguros, mesmo admitindo a precariedade educacional em que nos encontramos.
Para o ensino médio, em 2017, o TPE sinaliza os pontos acima como adequados, enquanto o MEC elevou a barra. Assim, o porcentual de alunos com aprendizado adequado para cada um dos critérios se mostra bem diferente. No TPE, 29,1% dos alunos do terceiro ano do ensino médio teriam aprendido o adequado em Língua Portuguesa e 9,1% em Matemática. Já para o MEC, esses porcentuais cairiam drasticamente: 1,6% em Língua Portuguesa e 4,5% em Matemática. Não me recordo de ter visto tão desastroso e negativo cenário.
Dai  firmando posições, de um lado o Inep/MEC, de outro o TPE, cujos critérios utilizados foram elaborados por um comitê de pesquisadores muito conceituados, incluindo dois ex-presidentes do Inep, Reynaldo Fernandes e José Francisco Soares, além de Ruben Klein, consideradíssimo estatístico atuante na educação.

 

O fato é que Inep e MEC nunca sinalizaram uma pontuação indicando a aprendizagem adequada dos alunos, mas ousam citar faixas e porcentuais a atingir que destoam, chegando mesmo a desafinar com os apresentados pelo TPE.

 

Já, quanto ao ensino médio, pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2017, nenhum estado da federação atingiu a meta conforme apresentação na segunda-feira, 3/9, pelo Inep/MEC. Outro desastre, se considerarmos que, após três edições consecutivas sem qualquer alteração, o Ideb do ensino médio avançou parco 0,1 ponto, portanto com distância abissal da meta projetada que era de 4,7, mas só logrou 3,8. E o próprio ministro Rossieli Soares é quem afirma: “Foi um crescimento inexpressivo. Estamos muito distantes das metas propostas. É mais uma notícia trágica para o ensino médio do Brasil”. E pensar que aspiram à universidade.

 

Nesse cenário, o registro positivo vai para o Espírito Santo, estado com o melhor desempenho no país, justificado pela jornalista da Folha, Carolina Linhares em matéria do dia 10/9 sob o título “No topo, ES alavanca ensino médio sem ‘reinventar a roda’”. Aos operadores da educação sugiro a leitura e, por que não?, replicar as ações como Escola Viva, Projeto de Vida, Jovem do Futuro e o Pacto pela Aprendizagem. Todos exitosos no Espirito Santo.

 

Ainda quanto ao Ideb, só dois a cada dez municípios conseguiram avançar e bater as próprias metas no final do ensino fundamental (9º ano), enquanto nos anos iniciais (5º ano) o desempenho foi alcançado por mais de 50% das redes municipais. Com isso, fica claro que os resultados são melhores no primeiro ciclo do fundamental, mas perdem força no ciclo final dessa etapa e ficam estagnados no ensino médio.

 

Em entrevista coletiva no MEC, o Ministro Rossieli voltou a ressaltar a gravidade dos resultados, especialmente nos anos finais do ensino médio. E ele continuou pessimista, ou realista, ao dizer que “desde 2013 não cumprimos mais as metas. Não só não cumprimos como estamos nos afastando dela”. Para o arremate um “verbo” superlativo: “A chance de alcançarmos as metas estabelecidas é nula hoje no Ensino Médio. Neste ritmo, não cumpriremos as metas para 2021. Atreveria dizer que, se continuarmos nesse ritmo, não as cumpriremos em décadas”.

 

Vale lembrar que o Conselho Nacional de Educação está apreciando a reforma do ensino médio que prevê flexibilização, debaixo de muitas críticas e há o risco de não ser aprovada ainda este ano. O certo, até aqui, é que essa etapa da educação passa a ser organizada com área comum de 60% da carga horária e uma segunda parte, de escolha do aluno com cinco opções: ciências humanas, ciências da natureza, matemática, linguagens e educação profissional.

 

A proposta carrega dúvidas sobre a capacidade de todas as escolas e redes oferecerem tal variedade de opções a todos os alunos. Mais de 50% dos municípios do país têm uma única escola de educação média, impossibilitando a oferta das cinco opções. Enorme abacaxi para descascar enquanto a universidade está de portas abertas para um público sem preparo, seja de competências, seja de habilidades [2].

 

Matéria do jornal O Estado de S.Paulo, na quarta-feira, 4/9, dos jornalistas Renata Cafardo, Victor Vieira e Luiz Fernando Toledo, destaca que “as escolas particulares não melhoraram seu desempenho na avaliação do MEC, conforme o esperado e que a rede pública se saiu melhor”: Assim é que somente 23% das particulares atingiram as metas de qualidade indicadas pelo MEC mas entre as públicas o índice vai a 42%. O ensino privado em São Paulo não teve o rendimento previsto tanto no fundamental como no médio.
O Ministério da Educação (MEC) estabeleceu índices e objetivos para as 27 redes particulares de cada estado nas três etapas (anos iniciais e finais de fundamental e ensino médio). Do total de 81 metas previstas, só 19 foram atingidas: 16 nas séries iniciais (alunos de 6 a 10 anos) e outras três no fundamental 2 (alunos de 11 a 14 anos). No ensino médio (jovens 15 a 17 anos), nenhuma das redes evoluiu como o desejado.

Debaixo de tanta informação ruim, temos ilhas de excelências, relatadas pelos jornalistas do Estadão: embora longe das metas  A rede privada de São Paulo tem escolas com desempenho acima do esperado. O Colégio Objetivo Integrado registrou Ideb 8,4, o mais alto da cidade. A média das escolas particulares no estado,, no ensino médio, é 5,9, ficando na quarta colocação mas não atingindo a meta, de 6,8.

 

Ao determinar que todas as escolas participassem do Saeb e abrir para as particulares, o MEC pretendia que o exame substituísse o Enem por escola, ranking balizador da rede particular. O Colégio Dante Alighieri teve Ideb 7,3 e o Magno, 7,1. A menor nota de escolas da capital de São Paulo que participaram é 4,5. Mesmo assim, o índice ainda é superior ao da melhor rede pública no ensino médio, Goiás (4,3), seguida pelo Espirito Santo com 4,1; Pernambuco 4; Rondônia, Ceará  e São Paulo com 3,8.

 

Sejam todos muito bem-vindos ao ensino superior e parabéns ao Secretário de Educação do ES, Haroldo Rocha, para quem “o prédio é ruim, o professor ganha pouco. Esse discurso é velho. Claro que prédio bonito ajuda, mas parede não ensina. A essência da escola é a relação aluno e professor”.

Apesar das vicissitudes, temos algo a comemorar no ensino público e o Espírito Santo desfralda a bandeira liderando o ensino médio no ranking de avaliação da educação básica em 2017.

 

[1] Todos pela Educação (TPE) é uma organização sem fins lucrativos composta por diversos setores da sociedade brasileira com o objetivo de assegurar o direito à Educação Básica de qualidade para todos os cidadãos até 2022, ano que se comemora o bicentenário da independência do Brasil.
O TPE foi criado em 2005, por um grupo de líderes empresariais no momento em que a valorização da educação escolar começou a se tornar uma importante referência de formação e valores sociais das futuras gerações de trabalhadores brasileiros.
Em setembro de 2006, o movimento lançou oficialmente o projeto Compromisso Todos Pela Educação, elaborado para impulsionar as ações do organismo. No evento, foram anunciadas as cinco metas[ que compõem o projeto: 1) Toda criança e jovem de 4 a 17 anos estará na escola; 2) Até 2010, 80% e, até 2022, 100% das crianças de 8 anos de idade estarão plenamente alfabetizadas; 3) Todo aluno aprenderá o que é apropriado para a sua série; 4) Todo aluno concluirá o Ensino Fundamental até os 16 anos de idade e o Ensino Médio até os 19 anos; 5) O investimento em educação deve ser garantido e gerido de forma eficiente e ética. A partir desse projeto, o movimento consegue divulgar e monitorar a situação da educação no país.

[2] “As habilidades estão associadas ao saber fazer: ação física ou mental que indica a capacidade adquirida.Já as competências são um conjunto de habilidades harmonicamente desenvolvidas e que caracterizam por exemplo uma função/profissão específica: ser arquiteto, médico ou professor de química. Wikipedia-