Mudanças no Horizonte Educacional

25 nov

Se você quer vencer não fique só olhando a escada.
Comece a subir degrau por degrau até chegar no topo.
Anônimo

Uma notícia aterradora chega do Correio Braziliense de 18 último:
“Pare por um momento e imagine o seguinte cenário: se o Brasil fosse hoje uma escola com 100 crianças no 1° ano do ensino fundamental, em 2020 apenas 48 delas sairiam alfabetizadas do 3° ano dessa etapa, sendo que somente 30 chegariam, em 2029, ao final do ensino médio com conhecimento básico em língua portuguesa e 2 em matemática. Esse cenário é uma possibilidade caso sejam confirmadas as tendências observadas nos dados de aprendizagem da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) e do Saeb dos últimos anos. Outras projeções, baseadas em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad/IBGE), mostram ainda que 24 dessas 100 crianças podem não completar a educação básica até os 19 anos. Que futuro teremos, se seguirmos assim, indiferentes a esse quadro lamentável? No último dia 28, celebrou-se o Dia da Educação. Mas, como os números mostram, temos pouco a comemorar no Brasil”.
Exageros e afoitismos à parte, pelo contido no caderno de educação que o Estado publicou na quarta-feira, dia 16, parece estar faltando um pouco de prudência, paciência e comedimento, sem arrombar a porta, que é de vidro.

Isso de inovação e criatividade, sobre o que já nos debruçamos aqui neste espaço, quase à exaustão, na medida em que são artigos e não teses, continuamos com a proposta de reflexões sobre os temas.
Para “enfrentar” os “demônios” da inovação pedagógica, metodológica, social e tecnológica, que apavoram, porque implicam disrupção sem meias ações, ao contrário, empreender o novo, e criatividade para enfrentar outros satanazes como estagnação, mesmice, lugar-comum e assemelhados, é preciso dotar-se de muita vontade, correr riscos, aventurar-se, enfrentar os desafios para propor mudanças.
Inegavelmente essa sempre foi a intenção da maioria das Universidades brasileiras, sem, no entanto, lograr pleno sucesso porque há ou havia um sem-número de fatores adversos sem falar na turma do “deixa pra lá” por conveniências próprias (individuais, grupais ou de corporações), que, se não atrapalhavam, também não colaboravam.

 

Para que eu não fique solitário nessa “denúncia”, no último dia 17, pelo Estadão, o professor Roberto Macedo bate com mão de gato: “Não me queixo da educação recebida na USP e uma das razões é que também me permitiu passar por universidades de outros países, em particular dos EUA e do Reino Unido, onde aprendi que aqui há muito o que aprimorar. Mas nossas universidades resistem a adotar mudanças necessárias. Seus professores estão mais preocupados com suas carreiras, como também aconteceu comigo, do que em olhar para os lados, e para o mundo, e focar em mudanças em termos de ensino, pesquisa e outros serviços do setor”.
No mesmo caderno, Patricia Cardim, do Centro Universitário Belas Artes, afirma: “Plataformas de inovações pressupõem o coletivo, a comunidade acadêmica absolutamente afinada em um só diapasão para a adoção de projetos inovadores e desenvolvimentistas, já que “estamos sendo transformados pelo mundo, fazendo a travessia da era industrial para a digital”.

 

O citado caderno/suplemento do Estadão trouxe ainda importantes depoimentos para enriquecer o assunto e com isso noticiar à sociedade que o setor está se mexendo, daí merecer o respeito, ao menos pela tentativa de mudar e alterar o cenário dando mais cores e mais zoom nos conhecimentos ante o pálido branco-cinza-preto das cognições ultrapassadas.

 

A escola que pretenda incursionar pelo novo, com mudanças, sabe, de antemão, que o caminho não tem volta. Só é possível adquirir passagem de ida por um trajeto “desbravador” cuja proposta deverá ser muito partilhada, pautada por desafios diferentes e inusitados. Contudo, dois velhos e conhecidos pilares – comunicação e educação – continuarão a sustentar o projeto de mudança, aplicadas sempre em ações a várias mãos: as do professor, as do aluno, as da IES, as do mercado, as da comunidade em geral. Assim é a educação levada às últimas consequências.

Como já expusemos em outros artigos, há uma verdade insofismável: o tom alarmista de pesquisas que indicam o fim de profissões e carreiras não convence. Fala-se, desde sempre, sobre o fim dos empregos tradicionais, mas as vagas vão se transferindo, há toda uma adaptação porque os profissionais vão encontrando novos nichos.

 

E é para isso que o ensino superior deve preparar seus alunos. Informação eles encontram, hoje, em várias plataformas e lugares além da escola. O que as IES precisam é desenvolver neles competências, habilidades e atitudes para refletir e agir diante de cenários. Infelizmente – ou felizmente –, ainda não há fórmulas prontas para isso. Mas uma exigência é o desenvolvimento da criatividade, sem a qual nada acontece.

 

No cenário globalizado e tecnológico atual, o conhecimento tem sido o diferencial imposto pela sociedade como exigência para o mercado de trabalho, exigindo um reposicionamento da educação superior. Sem boa gestão, se não aplicar um planejamento estratégico para chegar aos resultados desejados a instituição se fragmenta. Por planejamento estratégico entenda-se um processo que oriente a gestão e a tomada de decisões das IES. Ficamos no presente ou vamos para o futuro?

 

Se as IES não atentarem para o Sinaes – que dentre outras (novas) regulações impõe o PDI – Plano de Desenvolvimento Institucional[1], bem como o PPC – Projeto Pedagógico do Curso[2], que deverão ser revistos a partir das mudanças do PDI – é provável o insucesso.

 

Quanto ao PDI, crescem as preocupações com todos os necessários ajustes como atualização nas políticas de ensino, pesquisa e extensão; introdução de metodologias inovadoras; redefinição de conceito e de política de inovação para cada curso da IES; novos papéis para a coordenação de cursos; criação de equipe multidisciplinar considerando a oferta de 20% em EAD; observância das novas contratações à luz da nova lei trabalhista; a necessária sustentação financeira para o atendimento dos novos instrumentos; infraestrutura tecnológica; bibliografia virtual a partir do Núcleo Docente Estruturante (NDE), etc. etc. E com grande destaque, o Critério Aditivo: atributo suplementar que integra o critério de análise para os conceitos 4 e 5 (CPC e IGC). De quebra, lembrar do Enade, que é cruel e não tem defesa.

 

Assim, é prudente aguardarmos os resultados da BNCC e da BNCC M para  andar sobre águas bíblicas.

 

[1] De acordo com o MEC, o PDI é o instrumento de planejamento e gestão que considera a identidade da IES, no que diz respeito à sua filosofia de trabalho, à missão a que se propõe, às diretrizes pedagógicas que orientam suas ações, à sua estrutura organizacional e às atividades acadêmicas que desenvolve e/ou pretende desenvolver.
A elaboração do PDI deverá explicitar o modo pelo qual o documento foi construído e a interferência que exercerá sobre a dinâmica da Instituição, tendo como pressuposto o atendimento ao conjunto de normas vigentes.
A participação de todos é fundamental para a elaboração de um PDI que diagnostique e reflita as expectativas e projetos de toda a comunidade universitária para os próximos anos.

[2] Ainda de acordo com o MEC, o Projeto Pedagógico de Curso (PPC) é um documento público que tem por finalidade apresentar os cursos da instituição para a comunidade acadêmica. Deve ser elaborado de forma participativa e incluir representantes de todos os segmentos envolvidos com o curso, tendo como base o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e o Projeto Pedagógico Institucional (PPI), evidenciando os seguintes princípios:

1- indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão;
2- interdisciplinaridade e articulação entre as diversas atividades desenvolvidas;
3- flexibilização curricular;
4- contextualização e criticidade dos conhecimentos;
5- ética como orientação das ações educativas;
6- prática de avaliação qualitativa, sistemática e processual do PPC.