Nada de reformas pela frente

9 dez

A tão falada reforma do ensino médio parece não ter futuro, ganhe quem ganhar as eleições presidenciais.
Renata Cafardo

O cenário é de legítima hecatombe [1].
Mas não é só quanto ao ensino médio, e decepções à parte todos sabemos o quanto representa para o país tirar o ranço que impregna o pensar e os fazeres do ensino.

 

E é de boa oportunidade falar que não se espera só mudança e reforma relativa à BNCC-M  Base Nacional Comum Curricular do Médio porque com o andar das bigas [2] a BNCC-F, do fundamental, com isso pode perder sentido pois ao término dessa etapa não se encontrará nada de novo pela frente. Ou seja, vamos de skate morro abaixo. Esta última, exatamente, detalharia as diretrizes para o novo ensino médio, embora ainda esteja em discussão, embora com o tempo já passado nessa tarefa, com toneladas de papel “discutindo”, melhor, enxugando gelo. A aprovação ficou para o governo seguinte, ainda que um candidato nem mencionasse a reforma em seu programa.

Para não parecer surreal mas absurdo, o outro candidato disse claramente que revogará a reforma do ensino médio implantada pelo “governo golpista”, como se a sociedade tivesse culpa das iras e revanches político-partidários.

Conforme Érica Fraga [3]– (Folha UOL), “A Educação com falhas tira metade do potencial produtivo do brasileiro pois a baixa qualidade da educação condena as crianças nascidas hoje no Brasil a atingir, em média, aos 18 anos pouco mais da metade do seu potencial produtivo, limitando suas condições de inserção no mercado de trabalho.”
É o que revela um novo dado criado pelo Banco Mundial [4], o  Índice de Capital Humano ( ICH ), que situa o país na 81ª. posição (em ranking de 157 nações), atrás da Rússia e da China, para mensurar os retornos dos investimentos dos países em capital humano.

Até aqui o Banco Mundial vinha mantendo diagnósticos sobre a situação econômica que ficavam sobre os indicadores situação fiscal e nível de investimentos generalizadamente. Agora, com o novo índice, o Banco quer alertar os governos para o fato de que investimentos em capital humano são muito decisivos para o crescimento econômico. E não se fala em outra coisa, no momento, no Brasil, tema sempre divorciado do da educação.

Ou seja, vamos enfrentar um novo período de governo com as mesmices de sempre, só reclamando nos porões da incúria, com distâncias abissais a tudo que é novo, revolucionário, inventivo, criativo e tecnológico.

Anacronismo pode ser o mote preferido para o futuro governo não importando que nos situemos no novo índice do Banco exatamente com o nível atingido numa escala de 0 a 1 apenas com 0,56 na escala, significando que crianças nascidas hoje no país atingirão aos 18 anos, em média, 56% da capacidade produtiva.
Para melhor esclarecer, Singapura tem 0,88, Coreia do Sul tem 0,84 e Japão tem 0,82. Dentre os dez primeiros estão Austrália, Suécia, Holanda e Canadá com 0,80.  Diria um millenium : fala sério. Sabe quando ?

Érica, apoiada nos relatórios do Banco, é categórica ao afirmar que “Embora o indicador esteja sendo divulgado agora, pela primeira vez, com referência a 2017, o Banco Mundial calculou os resultados a partir de 2012. Essa série revela uma estagnação do índice brasileiro em todo o período. Entre os aspectos captados pelo indicador, o que representa a maior barreira ao progresso do país rumo a um nível maior de capital humano é a deficiência educacional.” Isso não é enorme preocupação para dirigente maior da nação?

No relatório que apresenta o índice de capital humano, o Banco Mundial ressalta que escolheu focar o potencial de desenvolvimento das próximas gerações para enfatizar que a melhora no desempenho dos países dependerá de políticas adotadas agora, sobretudo as de natureza educação e saúde.

A jornalista ganhou uma colaboração de leitor, digna de registro: “Ninguém nem ousaria discordar sobre a importância da educação, mas daí a acreditar que ela é a solução de todos os problemas vai uma grande distância. É falsa a afirmação de que as deficiências na educação são responsáveis pela perda da metade do potencial produtivo do brasileiro. Isso ocorre porque as pessoas olham para os sistemas educacionais dos países ricos e concluem que são bons. Mas eles são ricos porque o sistema educacional é bom ou o sistema educacional é bom porque eles são ricos? “ Cloves Oliveira – 11/10/18

O recado está bem dado e  recebido(?) para o novo governo central:  sem educação vamos continuar a dirigir sobre gelo e fácil, fácil, acabar no barranco. Vamos voltar ao assunto daqui quatro anos !!! ???

[1] Houaiss:
na Antiguidade, o sacrifício de cem bois, massacre de um grande número de pessoas; mortandade, carnificina, destruição, grande desgraça.

 

[2] entre os romanos, carro(ça) de duas rodas, puxado por dois cavalos

 

[3] Erica Fraga é bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 1998. Entre 2000/2001 fez mestrado em Política Econômica Internacional pela University of Warwick, em Coventry, no Reino Unido.

 

[4]Em recente artigo no Financial Times, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, escreveu que os governos geralmente preferem construir rodovias, pontes e aeroportos a investir em treinamento de professores e em atendimento à saúde, o que também beneficia a população. Médico que trabalhou em projetos de apoio humanitário antes de assumir o Banco Mundial, Kim conclui que os frutos político e econômico da construção de uma obra de infraestrutura podem ser colhidos mais rapidamente, enquanto o impacto positivo do investimento em capital humano pode “levar anos ou mesmo décadas para se tornar aparente”. No entanto, adverte, a disponibilidade de capital humano de um país tem estreita correlação com o crescimento econômico, ligação que deve se aprofundar no futuro cada vez mais digital.

A conclusão de Kim é que promover o desenvolvimento do capital humano é, portanto, urgente. Com o objetivo de oferecer um instrumento de partida para a tarefa, o Banco Mundial elaborou um Índice de Capital Humano (ICH), divulgado na reunião conjunta com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A ideia é que, ao poder comparar sua posição com a de vizinhos ou concorrentes, o governo de cada país possa trabalhar para superar os pontos fracos da formação de sua população, providência tão importante quanto a solução dos problemas fiscais e econômicos.(Valor Econômico-15/10/18)