A BNCC poderá ser menor aplicada nas públicas

11 ago

Prof. Roney Signorini
Assessor & Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Na mídia em geral, temos lido e ouvido sobre a implantação das BNCCs até em demasia mas guardada uma mesmice no tratamento do assunto. E a abordagem está sempre de forma generalista ou com mais destaque no universo das escolas particulares. Raro um comentário sobre o assunto envolvendo as públicas, que têm muito mais unidades escolares e, claro, muito mais alunos.
Um evento a se destacar na apresentação e propostas da implantação da BNCC foi o realizado pela BettEducar, ocorrido entre 14 e 17 de junho no Hotel Transamérica, sucesso de público onde o assunto dominante dos expositores foi quase exclusivamente sobre a Base. Muito engajamento.
Isso deu mostra de que a BNCC tem uma proposta para melhorar o ensino básico brasileiro. Aliás, algumas particulares já aplicaram no Fundamental I e ano que vem no II. Não resta dúvida de que  precisamos colocar todas as fichas nessa Lei, caso contrario não teremos mão de obra habilitada para os desafios de um mundo em transformação.

Em todas as considerações apontadas pela mídia o eixo, ou melhor, o foco está sempre nas instituições particulares, seja quando se fala quanto ao ensino infantil, o Fundamental I e II para os quais creio que a iniciativa privada já caminhou muito e assim tem a etapa definida e resolvida. Até porque estão trabalhando nos temas há mais de dois anos. Dessa forma está tudo pronto com as demandas atendidas, profissionais em seus postos, laboratórios e equipamentos que subsidiam os conteúdos, também nos diversos campos de ação. E creio mais, em nível nacional.

As empresas ofertantes de soluções para a questão – os sistemas de ensino –  já estão vendendo os seus serviços, adaptados à BNCC e cada uma apresentando o desenvolvimento da nova proposta.

As escolas particulares que atendem a classe media e alta planejam(ram) seus cursos em obediência às disposições legais, enfatizando que  cada qual tem seu plano para atrair novos alunos e vencer os desafios. Assim mesmo é logico que há problemas, porque muita coisa está mudando, considerando sobretudo que dependemos do professor e de sua formação.

O desafio imenso, parece, é do sistema público que não sentimos estar preparado para a implantação, principalmente nas pequenas cidades, porque o Fundamental I é praticamente municipal.

 

Quanto às particulares, por óbvio, a gestão, por consequência, é de caráter de empresa  civil mas submetendo-se às disposições legais e sob orientação de secretaria municipal de educação com o apoio de diretorias/delegacias  de ensino.

Ainda quanto às particulares, também na sua quase totalidade, adotaram os chamados Sistemas de Ensino que rapidamente foram criados e se espalharam à larga. É um mercado pujante e conta com profissionais de primeira linha, atuantes, dedicados e atualizados. A maioria de excelente qualidade.

O ensino médio é a etapa que guarda muita importância na estrutura básica educacional.

Tirei alguns trechos que aponto abaixo da matéria de uma revista nacional de grande circulação: “O ensino público no Brasil é ruim, desigual e estagnado.

Esse é o retrato do ensino das escolas públicas brasileiras, de acordo com o resultado da Prova Brasil, que avalia alunos da educação básica”
O texto é de Camila Guimarães, de janeiro de 2015. Ao que se sabe nada mudou desde então e arrisco dizer que piorou. Ainda conforme ela, “mais de 65% dos alunos brasileiros no 5º ano da escola pública não sabem reconhecer um quadrado, um triângulo ou um círculo. Cerca de 60% não conseguem localizar informações explícitas numa história de conto de fadas ou em reportagens. Entre os maiores, no 9º ano, cerca de 90% não aprenderam a converter uma medida dada em metros para centímetros, e 88% não conseguem apontar a ideia principal de uma crônica ou de um poema.”

Essas são algumas das habilidades mínimas esperadas nessas etapas da escola, que nossos estudantes não exibem. É o que mostram os resultados da última Prova Brasil, divulgados pelo governo federal no final de novembro de 2014. A prova avalia, a cada dois anos, o desempenho de alunos do 5º e do 9º ano em português e matemática. É usada para compor o principal indicador de qualidade da educação do país, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Os resultados revelam, no entanto, algo ainda mais perigoso que o baixo desempenho: a desigualdade.

A BNCC não é um currículo pronto, com normativas exclusivas. Ela funciona como uma orientação aos objetivos de aprendizagem de cada etapa da formação escolar, sem ignorar as particularidades de cada escola no que diz respeito à metodologia e aos aspectos sociais e regionais. Resta saber se o corpo docente está realmente preparado e capacitado para a tarefa. Ou seja, cada instituição terá a liberdade de construir o seu currículo, utilizando as estratégias que julgam mais adequadas em seu projeto político pedagógico, desde que estejam sintonizados com a BNCC. Não se espere solução a curto prazo nem convicções que resolvamos e atendamos o anseio de educação de qualidade sem contar com quadros docentes que conheçam o moderno, a criatividade, a tecnologia e a inovação. Só boa vontade não resolve.

É dever das escolas não só implementar a Base Nacional Comum Curricular, mas dar total apoio e condições para que os professores realizem os cursos necessários e, assim, tenham pleno conhecimento para cumprir as novas exigências educacionais brasileiras.

O documento foi criado para que todas as escolas tenham um padrão mínimo de instrução, e o esperado é que essa padronização aumente a qualidade do ensino no país, especialmente na esfera pública.

Enquanto concluía este artigo, em boa hora me chegou a informação a seguir, contida na Revista Exame: “No Brasil, a discussão dos desafios nas escolas públicas passa invariavelmente pela falta de professores, sua formação, alta evasão de alunos, violência e falta de recursos financeiros. Mas há um tema central para a educação brasileira que é pouco debatido: a gestão escolar, ou seja, o papel dos diretores que lidam na ponta as crises enfrentadas pelas mais de 180 mil escolas. Mesmo esse sendo o profissional que tem o maior número de responsabilidades dentro das instituições, não há nenhuma política pública voltada para sua formação e atuação no Brasil. O descaso é tão significativo que, segundo um levantamento do jornal Folha de S.Paulo, em 2015, 45% dos 55 mil diretores brasileiros tinham chegado ao posto por indicação e não por valorização de carreira.”

Ou seja, a saúde das escolas públicas as leva para uma UTI com reflexo imediato na implantação da BNCC.

Outras agravantes assoberbam a implantação como a de que as unidades públicas não têm a autonomia desejável, no caso de não terem um quadro docente capacitado existem muitas dificuldades para contratações, as disciplinas alternativas/optativas podem não sair do papel em razão do volume de optantes e a eventual falta do docente, a carência de recursos pode inviabilizar a implantação, no desenvolvimento do horário integral isso elevará despesas na folha salarial, quanto às competências as escolas não têm um quadro satisfatório que contemple as exigências, o prazo para a implantação é curto, etc. etc.

A tese que defendo é que Educação não é problema só de governo. É questão nacional e para isto há necessidade de todos colaborarem. Penso que o setor particular pode contribuir para A BNCC dar certo, por exemplo, colocando sua instituição junto às Diretorias/Delegacias de Ensino para discussões e aprofundamentos da temática, disponibilizando espaços e pessoal para troca de ideias, para a efetiva operacionalização.

De efetivo, a sociedade pode fazer muito para colaborar, inclusive requisitar leituras do que os diversos institutos como a Fundação Lemann, o Todos pela Educação, o Instituto Ayrton Senna e tantos outros estão fazendo. Esses resultados são de imensa valia.