A ESCOLA E O HAMBURGER 2.0

18 ago

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com


Os artistas são as antenas da raça (…) um animal que negligencia os avisos de suas percepções necessita de enormes poderes de resistência para sobreviver (…) uma nação que negligencia as percepções de seus artistas entra em declínio. Depois de certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive.

Ezra Pound[1]

Leio no Estadão da quarta-feira (22/05) a notícia “Hambúrguer 2.0” de que hambúrgueres vegetais que imitam carne chegam ao mercado brasileiro: “Eles têm cheiro, sabor e até ‘sangram’ como um hambúrguer de carne, mas são feitos de ervilha, soja ou jaca com pitadas de tecnologia. (…) empresas usam até “máquina de mordida” para aprovar a textura. Com ingredientes como soja, beterraba e tecnologia, startups e empresas fazem corrida por ‘novo alimento’.”

A notícia me fez lembrar o filme a que assisti ontem à noite – “Cópias, de volta à vida”, estrelado por Keanu Reeves, com roteiro de Stephen Hamel –, em que um cientista traz, de volta à vida, a família morta em um acidente de carro.

Acredito, como o crítico literário da epígrafe, que a vida imita a arte e que é a força da criatividade artística que impulsiona muitas inovações. Senão, vejamos: muitas profecias sobre o futuro vieram dos escritores de ficção.

Júlio Verne previu a existência de viagens espaciais, submarinos, helicópteros e satélites. Em “20 mil léguas submarinas”, de 1869, ele imaginou um submarino que utilizava um combustível praticamente inesgotável. Em 1955, o primeiro submarino movido por propulsão nuclear recebeu o nome de Nautilus em homenagem ao veículo descrito por Verne.

HG Wells em “Guerra dos mundos”, de 1898, descreve o laser. Arthur C. Clarke apresentou, num artigo de 1945, a ideia dos satélites em órbita ao redor da Terra como um meio de melhorar as telecomunicações. O seu conto “A sentinela”, de 1951, deu origem, em 1968, ao filme “2001: uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubric, que por sua vez previu o supercomputador HAL 9000, que comanda uma espaçonave, adquire vontade própria e começa a eliminar os tripulantes. O filme ainda previu computadores capazes de vencer o homem no xadrez – o que realmente aconteceu em 1997, quando Gari Kasparov foi derrotado por um supercomputador da IBM.

A lista de artistas futuristas é extensa e vai desde escritores do século XVII, como Cyrano de Bergérac, que previu um gravador, passando pelo romântico Goethe, que no século XIX, em “Fausto”, previu a questão ambiental: o homem destruindo a natureza em prol de um suposto desenvolvimento da civilização, e chegando, no século XX, a Aldous Huxley, Ray Bradbury e George Orwell. É a arte despertando a imaginação, enquanto – hoje – a interconexão impulsiona a inovação. Essa combinação de imaginação/interconexão é capaz de tornar essa tecnologia que tanto impressiona em livros e filmes mais próxima de nós, acontecendo em nossas casas.

Voltando ao hambúrguer 2.0, essa inovação, que já existe em San Francisco desde 2009, capitaneada pela startup americana Beyond Meat, aqui no Brasil é produzida pela foodtech Fazenda Futuro, em Volta Redonda (RJ) e segue uma receita nacional: “Um preparado proteico (17 gramas de proteína, no total) com grão-de-bico, ervilha e soja, condimentos como sal, pimenta e cebola, e suco de beterraba, que emula a cor e o sangue da carne”, descrevem Marcos Leta (o empresário também fundou a empresa de sucos Do Bem) e seu sócio, Alfredo Strechinsky, que vislumbraram um potencial para a carne vegetal no Brasil.

Segundo Leta, trata-se de um mercado que não tem mais volta, entre outros motivos, pela questão da sustentabilidade: “As pessoas podem querer manter um caminho de equilíbrio, reduzir o consumo de carne por vários motivos, como colesterol ou conscientização. E existe também gente que sente na pele certas ações do planeta. Cada vez mais pessoas estão tendo acesso às informações sobre a produção de carne que, se continuar crescendo, até 2050 não vai ter terra para produzir”.

Do Vale do Silício vem uma inovação ainda mais radical e que ainda não chegou ao mercado: a clean meat é uma carne molecular feita em laboratório através da reprodução de células-tronco. Em uma das experiências, a carne foi obtida da pena de uma galinha!

Quando chegar ao mercado, tenho certeza de que as gerações futuras se horrorizarão ao saber que um dia tenhamos precisado matar um animal para nos alimentar. E mais, acrescento, que tenhamos precisado expandir fronteiras agrícolas e desmatar o planeta para pastagens e produção de soja, por exemplo, colocando em risco o equilíbrio ecológico.

Mas como se chegou a essas inovações que poderão salvar o planeta de uma hecatombe? Através de muita pesquisa. E onde desenvolver pesquisa senão na escola (e a integração escola-indústria-governo seria muito bem-vinda)?

Porém, para fazer face às exigências do futuro, a escola precisa emergir de um paradigma que descarta tudo o que seus conceitos não conseguem resolver, tudo que não consegue enquadrar e segue no seu modus operandi cotidiano e repetitivo. É preciso pensar fora da caixa. É preciso mudar o paradigma. Estudar o que não se encaixa no modelo tradicional.

A inovação disruptiva – algo mais simples, mais barato do que o que já existe ou algo capaz de atender um público que antes não tinha acesso ao mercado – cria um novo mercado e desestabiliza os concorrentes que antes o dominavam. É o que se propõe Marcos Leta com seu hambúrguer 2.0.

Ezra Pound, o mesmo crítico literário da epígrafe, costumava dividir os escritores pelas seguintes classes: inventores, mestres, diluidores, bons escritores sem qualidades salientes, beletristas e lançadores de moda.

Os inventores são aqueles que descobrem um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo. Os mestres conseguem combinar um certo número de tais processos e os usam tão bem ou melhor do que os próprios inventores.

A partir dos diluidores, escritores que absorvem certas ideias dos inventores e dos mestres, mas não são capazes de realizar tão bem o trabalho literário, o adjetivo originalidade será pouquíssimo usado. Bons escritores sem qualidades salientes são aqueles que se mantêm dentro das convenções. Os beletristas não inventam nada nem aprimoram nada, mas se especializam em determinada particularidade da arte de escrever. E os lançadores de moda são escritores que trabalham apenas com o gosto médio dos leitores e se mantêm na moda por algum tempo, mesmo que esse tempo seja razoavelmente longo.

Qualquer semelhança com tudo o que vemos na educação não é mera coincidência.

[1] Ezra Weston Loomis Pound (Hailey, 30 de outubro de 1885 – Veneza, 1 de novembro de 1972) foi um poeta, músico e crítico literário americano que, junto com T. S. Eliot, foi uma das maiores figuras do movimento modernista da poesia estadunidense do início do século XX. Ele foi o motor de diversos movimentos modernistas, notadamente do Imagismo (seu líder e principal representante) e do Vorticismo. (Wikipédia)