Abandonando o lugar-comum

25 ago

“Não se pode resolver os problemas utilizando o mesmo
tipo de pensamento que usamos quando os criamos.”
Albert Einstein

Dia desses fiz rápida leitura sobre os textos deixados neste blog, em 2015, para confirmar os conteúdos aqui alocados ao longo do ano. e foi gratificante conferir o nível das colaborações que se apresentaram. Como de praxe, algumas suscitavam leitura demorada e aprofundada, outras exigiam ser arquivadas para posterior avaliação. Inequivocamente todas conduzindo a reflexões preocupantes, sobretudo as que abordavam o uso de novas tecnologias de informação e comunicação(TICs) no ensino superior, pois tratavam de práticas educacionais que têm modificado substancialmente os paradigmas da educação, presencial ou  a distância.

A utilização das mídias digitais e da Internet propiciou o desenvolvimento não só da educação a distância, mas também de um modelo pedagógico mais interativo e colaborativo, permitindo modos de interação. Contudo, observa-se que não há um consenso em torno da viabilidade, da aplicabilidade efetiva com o uso de novas práticas educacionais.. Há muita timidez ou receios dos operadores da educação em aceitar, homologar, definir e decidir por medidas e iniciativas que considerem sua adoção. Melhor dizendo, a teoria pode estar amedrontando diretores e coordenadores como bichos-de-sete-cabeças, que exigem na implementação e à prática profissionais que deem cabo da tarefa, muitos deles, ainda, escravos da resistência e da mesmice.

Há referências a processos inclusive colocando teóricos em confronto com as realidades de mercado, mais exacerbadas junto às PMIES (Pequenas e Médias Instituições de Ensino Superior), maioria absoluta no país, que provocam tanta preocupação quando o assunto é qualidade desejada ou possível.

O desenvolvimento de novas TICs modificou o modo de organização das sociedades. A digitalização, o armazenamento e a transmissão de informações tornaram-se possíveis com as inovações na microeletrônica e na computação. Assim, o século XXI vivencia mudanças consideráveis na infra-estrutura de diversos setores sociais, como na economia e na difusão da cultura. Na educação – e especificamente no âmbito do ensino superior –, não é diferente.

O que parece ainda não ter ficado absolutamente claro e evidente é que não há como voltar atrás, ao contrário, a escola do século XXI precisa inexoravelmente andar para frente. O caminho não tem volta. É a típica viagem com passagem só de ida e para muitos pode ocorrer que não consigam pegar o último voo, o último ônibus, preferindo a última carruagem.

Hoje, existem milhares de textos tratando do assunto novas tecnologias de modo que ninguém pode se furtar a tais conteúdos e práticas. Não pode haver desdém ou desinteresse por projetos, histórias e análises sobre as mudanças nos parâmetros de aprendizagem.

Gestores, pais interessados em conhecer o perfil e a dinâmica das IES inovadoras, estudantes que buscam informações sobre a identidade acadêmica das IES, professores engajados em conhecer as mudanças que estão acontecendo e que estão por vir, legisladores da área de educação, todos são atores responsáveis por avanços e melhorias nos modelos educacionais. Não se pode, hoje, por falta de coragem e audácia, pelo medo de errar, deixar de inovar. Mas a necessidade de as IES responderem a contento as exigências do CPCs, por exemplo, tem adiado a entrada no século XXI. Assim, vai se claudicando pelo caminho..

Para o prof. Fábio José Garcia dos Reis, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), professor e diretor da Unidade Lorena do Centro Unisal, “há uma falta de sintonia entre os parâmetros da inovação acadêmica e a legislação educacional. A legislação engessada, elaborada por pessoas que, em muitos casos, não conhecem as tendências do ensino superior, é um empecilho para o avanço da inovação. Em casos de sistemas educacionais burocráticos, os gestores encontram dificuldades para implementar processos de inovação que apresentam bons resultados de engajamento e de aprendizagem, nos sistemas educacionais dinâmicos”.

Fazendo coro a essa constatação, Priscila Simões, doutora em Educomunicação pela USP, diz, em entrevista ao blog EXAME Brasil no Mundo: “A meu ver o MEC, com seu aparato regulatório, não está conseguindo induzir um processo de aumento de qualidade nas instituições de ensino superior. Precisaríamos ter mais flexibilidade e diversidade para atender às demandas em termos de formação de um país grande e diverso como o Brasil, mas o MEC induz a todos fazerem o mesmo da mesma forma. E frequentemente as instituições de ensino ficam mais preocupadas em atender às demandas regulatórias impostas pelo Ministério da Educação do que em discutir efetivamente a qualidade de seus cursos, professores e dos profissionais que estão formando”.

A grande preocupação, hoje, é que as IES mais burocráticas percam o timing da mudança (inclusive do seu modelo de gestão), a capacidade de discutir inovação e de introduzir novas formas de organizar o processo de ensino-aprendizagem.

As sintonizadas com a inovação estão produzindo material didático com assuntos que podem servir para um componente curricular (uma disciplina) ou para a discussão de determinado tema (customização da demanda), estão na busca de programas online de educação que melhoram a qualidade da oferta acadêmica, estão preparando ofertas de ensino híbrido com foco na aprendizagem ativa, estão oferecendo programas que orientam a vida acadêmica e profissional dos estudantes (coaching para o sucesso do aluno), estão utilizando e criando plataformas adaptativas de aprendizagem e investindo em plataformas de cursos no modelo moocs. Transitar por esses modelos é abraçar o novo, e as IES rapidamente perceberam que precisam mover-se em direção aos processos de inovação.

A tecnologia é (e cada vez mais será) uma aliada do processo de aprendizagem. Através das plataformas de aprendizagem, é possível fazer a gestão do aprendizado dos estudantes. O conceito de currículo, de avaliação, de espaço de aprendizagem mudará de forma significativa. Portanto, é preciso ir além das ideologias e das normas do MEC. A experiência do aprendizado não é mais controlada pelo professor, que ainda em muitos casos, pode viver a nostalgia do passado, atrasando de certa forma o processo de inovação. Ou pior, interrompendo-o ou sepultando-o.

O papel das IES que atuam nos novos campos da educação é apresentar para os agentes reguladores e para os avaliadores de instituição e de cursos que a inovação quebra paradigmas, mas de forma alguma representa perda de qualidade. Pelo contrário, a inovação promove ganhos reais na dinâmica administrativa e acadêmica das IES.

O que está em discussão não é a formação de cidadãos, o papel relevante das IES para a sociedade na produção de conhecimento e na contribuição com o desenvolvimento nacional. Esses são temas internalizados na cultura das IES. O que se deve discutir são modelos ideológicos, corporativistas e burocráticos de IES, que estão pouco alinhados com as novas perspectivas econômicas, sociais, culturais e tecnológicas da sociedade.

O desafio da inovação requer tempo, investimento financeiro e na formação de pessoas, além de capacidade de fazer a gestão da mudança cultural. É preciso ter coragem, atitude empreendedora, conhecimento, recursos financeiros, pessoas e capacidade de gestão para enfrentar o desafio de iniciar um projeto com tal escopo.

Debaixo de muitos ônus, iniciativas e sobretudo muito boa vontade para deixar o velho teremos de aprender a repensar os nossos modelos de ensino e aprendizagem, teremos de intensificar o uso da tecnologia, que será a nossa grande aliada, teremos de repensar o papel do professor e dos estudantes, os espaços de aprendizagem e a organização dos sistemas de ensino superior.

É possível identificar inovações na educação no tocante à produção de materiais didáticos, como é o caso dos ambientes virtuais de aprendizagem, e com relação às propostas metodológicas de ensino-aprendizagem, as quais enfatizam a possibilidade de autonomia e independência dos estudantes, potencializada pelas novas tecnologias de informação e comunicação.

O tema inovação, quando abordado em instituições do ensino superior, gera diferentes reações do mundo universitário., Há os que se manifestam a partir das inovações tecnológicas implantadas, outros que consideram a inovação a partir de políticas que buscam ampliar a participação de jovens na universidade, discutindo a relação “massificação versus elitização”, e outros que ainda entendem por inovação os processos de globalização e internacionalização das universidades brasileiras.

Vivemos um momento de profundas transformações, e a bandeira da educação deve ser a de mais relevo. A falta de projetos efetivos e o descaso de investimentos e práticas na educação trazem graves reflexos para a nação.

O Brasil perde todos os anos posições importantes quando se fala em competitividade e inovação. Boa parte dos problemas está na vontade política, mas também na distância que as universidades de uma forma geral têm em relação ao processo inovador, e na construção de modalidades de ensino inovadoras para práticas mais concretas de desenvolvimento econômico para o país.

Com a crescente demanda educacional brasileira, e principalmente na grande necessidade de mão de obra qualificada, as universidades brasileiras precisam de uma nova postura, principalmente em programas inovadores e conectados com o mercado.

Temos de abandonar definitivamente os lugares-comuns, girando em torno do mesmo eixo imantados por força centrípeta.