Competências e Habilidades: irmãs siamesas

1 set

Professor Roney Signorini
Assessor & Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Educar é como a arte de cultivar a terra: estabelece habilidades, competências, atenções especiais, sensibilidade para aprender com o tempo, tirar lições da semente que busca germinar num meio infestado e aprender como preparar o terreno, o momento de semear, de regar… A hora de colher… Se não ficar atento às mudanças, ao tempo da semente, pode perder tudo.

Nildo Lage[1]

 

Das últimas leituras na mídia parece que o assunto tratado hoje virou o agenda setting do momento.

Como na semana passada tratei de metodologias ativas, desejo que o leitor não me critique por abordar aqui o que pode ser um paradoxo,  que contraria aquelas, que o tema de hoje seria desconexo ou até mesmo contraditório. Cuja análise decorreria insatisfatória mas essa é a complexidade da educação.

Estamos (nos)enriquecendo o mundo do conhecimento discutindo inteligência artificial, inteligências múltiplas, ensino e aprendizagem na Era Digital, inovação, ensino híbrido, etc, etc.

 

E há um sem número de dúvidas, interrogações, perplexidades e até espantos, para não dizer temores com o que aí está e o muito que ainda virá. Uma cobrança quase impiedosa.  Indubitavelmente já existem instituições educacionais perdendo o norte magnético e há quem esteja procurando por um Supervisor de Relacionamento com o Docente, dando a ele tarefas impensáveis até pouco tempo para não dizer exdrúxulas. Como se coordenadores e diretores  não dessem  conta do recado.

 

Não é de hoje que se discute sobre Habilidades & Competências(H & C) que devem integrar os atributos das disciplinas, em seus conteúdos. Estão falando sobre isso como se fosse a grande novidade. O Conselho Nacional de Educação (CNE) tratou do tema em suas primeiras edições das chamadas NDC-Novas Diretrizes Curriculares. Portanto, não foi ontem, mas há décadas. Questão semântica?

E no que consistem(iriam) posto que as ditas diretrizes não eram(são) em nada muito diferentes dos currículos mínimos, do passado, autêntica camisa de força regulatória exigida nas propostas de autorizações de funcionamento de curso. É passado e bem distante, sem saudades, só lembranças.

Para Luisa França[2], em Educação Brasileira, “uma preocupação relevante hoje na educação é como ensinar e como avaliar considerando as H & C. Essa questão está sendo cada vez mais discutida, em um esforço para que o processo de aprendizagem seja menos conteudista e mais focado no desenvolvimento e preparação dos alunos para os desafios do mundo atual”. A articulista crê que “nesse sentido, o ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, consiste um exemplo da relevância de se pensar em um processo pedagógico baseado em H & C. Isso porque o Exame tem como orientadora uma Matriz de Referência com descritores das H & C”. Novamente uma camisa de força e um engessamento conteudístico-curricular.

 

Como ser menos conteudista e propiciar o desejável desenvolvimento na preparação dos alunos de modo a suportar o enfrentamento globalizado do mundo atual? Como ensinar/transmitir H & C sem que elas sejam disciplinas dos currículos mas que apareçam no desenvolver da oferta de aulas, como uma cereja em cima do bolo ? Um pianista, um ourives e tantas outras posições já nascem com H & C ? Competências nenhuma, habilidades, algumas, talvez.

Como disse o professor Jacir Venturi[3], com base nos estudos de Howard Gardner, as pessoas são dotadas de inteligências diferentes e, apesar da herança genética, podem e devem ser desenvolvidas pelos estímulos do ambiente, família, escola e esforço pessoal.

Diante de um mundo em frenética e constante mudança/evolução, as H & C de ontem servem para hoje? Tudo é exponencialmente alterado da noite para o dia. As certezas não chegam a se solidificar de modo a compor um estrato pétreo e um tanto perene. Acho particularmente ótimo, mas as salas de aula se tornaram num caldeirão em ebulição.

As discussões sobre os dois termos são pautadas pela preocupação de suprir dificuldades e conhecimentos relacionados àquela Matriz. É extremamente relevante, mas é necessário discutir H & C muito além dessa única orientação.

Os conceitos dos dois verbetes abrem diversas indagações e dúvidas, mostrando que são temas que devem ser estudados de forma contínua e constante para maior compreensão, para maior esclarecimento e para a utilização concreta do desenvolvimento de H & C em todos os segmentos da educação.

E agora, com o surgimento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), isso suscita enorme preocupação.

Afinal, o que são Competências?

De uma forma simples, é possível dizer que detém competências aquele que tem capacidade de apreciar e resolver certo assunto, fazer determinada coisa; tem aptidão e adestramento para soluções que vão além da imaginação e de habilidades, sejam manuais ou mentais. Tais atributos são todos pertinentes à educação. Competência é uma qualidade de apreciar e resolver um problema, envolvendo a sua capacidade, habilidade e aptidão. Indivíduos competentes, dentro das mais variadas atividades profissionais, tendem a ser bem-sucedidos.

Elas são essenciais para que o indivíduo tenha sucesso em sua vida social e na carreira. A forma de conduzir suas relações, responsabilidades e profissão são determinadas por sua capacidade de, a cada dia, conviver e resolver as situações cotidianas, cujos resultados são totalmente dependentes da forma como os seus problemas são solucionados. O mercado de trabalho necessita de pessoas capazes de tomar decisões, liderar, resolver conflitos, utilizar conhecimentos adquiridos ao longo do processo acadêmico.

Mas é bom enfatizar que competência não se alcança, desenvolve-se. Competência é fazer bem o que nos propomos a fazer. Aqui se pode destacar a essência etimológica do eficiente, eficácia e eficaz.

Ainda conforme a professora Luisa França, “de maneira resumida, podemos dizer que as competências no contexto educacional dizem respeito à capacidade do aluno de mobilizar recursos visando a abordar e resolver uma situação complexa”. Simplificando bem, é o aluno saber saber ou saber conhecer.

Convém aclarar que competência e desempenho podem gerar problemas no processo de ensino e aprendizagem, na interpretação de resultados. O desempenho pode ser definido como um indicador da competência, ou seja, serve para orientar professores e gestores, verificar se os alunos estão efetivamente desenvolvendo as competências. Porém, é importante destacar que desempenho fraco não é, necessariamente, falta de competência.

Quanto às habilidades, pode-se propor que a habilidade seja a aplicação prática de determinada competência para resolver uma situação complexa. Em outras palavras, é o aluno saber fazer.  Simples assim.

Resta fundir no cadinho histórico do conhecimento umas e outras, relacionando H & C. O professor Vasco Moretto[4] resume essa fusão: “As habilidades estão associadas ao saber fazer: ação física ou mental que indica a capacidade adquirida. Assim, identificar variáveis, compreender fenômenos, relacionar informações, analisar situações-problema, sintetizar, julgar, correlacionar e manipular são exemplos de habilidades. Já as competências são um conjunto de habilidades harmonicamente desenvolvidas e que caracterizam, por exemplo, uma função/profissão específica: ser arquiteto, médico ou professor de química. As habilidades devem ser desenvolvidas na busca das competências”.

É importante ressaltar que um aluno, ao desenvolver H & C orientado por um educador, vai aprender a usá-las de maneira adequada e conveniente. Afinal, aprender é construir significados. Ensinar é oportunizar essa construção.

Mas, então, por que esses dois atributos acabaram por moldar a moderna proposta educacional, por que trabalhar por H & C na escola?

A realidade é que vivemos hoje na era da tecnologia e da informação e nunca se produziu e se consumiu tanto conteúdo na história da humanidade, em todos os níveis e áreas da sociedade. Isso se deve à facilidade que temos em acessar essas informações e conteúdos, principalmente depois do surgimento e da expansão da internet.

A professora França é categórica: “Nesse cenário, a escola teve que (ou deve) mudar seu posicionamento. Antes dessa revolução da informação em nossa sociedade, a escola era tida como responsável pela disseminação de conteúdos. Isso já não faz mais sentido, uma vez que os alunos têm acesso aos conteúdos independentemente da escola, podendo ainda, visualizá-los e consumi-los na quantidade, velocidade e momento que desejarem”.

Assim, a escola deve focar a proposta educacional  em H & C para, preparando o estudante a lidar com situações de seu cotidiano, ser capaz de resolver problemas reais. Tal postura indica ainda o alinhamento com as tendências educacionais que destacam a importância de colocar o aluno como protagonista, sendo um agente ativo em seu processo de ensino e aprendizagem, por meio de atividades educativas extraclasse ou complementares.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) está fundada em aprendizagens essenciais para a formação do aluno por meio de H & C, que não se resumem a aptidões, dotes e dons. É preciso orientação, ensino e educação.

[1] É autor de vários livros, pertence à Academia de Letras da Bahía.
Tem formação em acadêmica pela Faculdade de Tecnologia e Ciência.

[2] Engenharia Industrial pela UFRJ, mestrado em Economia e Gestão Empresarial(IBMEC)

[3] Coordenador da Universidade Positivo e membro do Conselho Estadual de Educação
Foi professor e diretor da UFPR e PUCPR

[4] Mestre em Didática das Ciências e professor. Sua preocupação fundamental como educador é com o ensino de conteúdos relevantes. Publicou Prova (Lamparina, 2010) e Construtivismo (Lamparina, 2011).