Educação do Futuro

8 set

Professor Roney Signorini
Assessor & Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 “No futuro, a educação terá como objetivo aprender a arte do filtro. Já não fará falta ensinar onde fica Katmandu ou quem foi o primeiro rei da França, porque isso se encontrará em toda parte. Por outro lado, terá que se pedir aos estudantes que analisem quinze sites para determinar qual é para eles o mais confiável. Haverá que lhes ensinar a técnica da comparação.”

Umberto Eco

É comum ouvirmos (e constatarmos) que novas tecnologias estão mudando nossas vidas, mas, enquanto alguns setores investem pesado nelas, outros, como a educação, por exemplo, estão mais atrasados. Tanto que, a maioria dos alunos (já nativos digitais) não se reconhece em nosso sistema educacional considerado muito arcaico e, portanto, não mais em sintonia com as aspirações e, especialmente, os projetos de vida dos jovens.

Graças à Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês: Internet of Things) e a inovações cada vez mais impressionantes, temos um excelente terreno para repensar em profundidade a forma como vemos a educação das gerações futuras. E é exatamente neste hoje que percebemos como ainda estamos longe de ter e ser uma educação modelo/exemplar. Daí perguntar qual poderá(ia) ser o futuro de nossas escolas?

 

Combinando novas tecnologias com outras formas de conceber a aprendizagem, é possível devolver às gerações futuras a sua curiosidade e, acima de tudo, o gosto e atração pelo conhecimento.

A educação, como a que vivemos hoje, mostra distância entre a escola que nossa sociedade imaginou colocar em prática e no que ela se tornou. Fato é que um assunto de extraordinária importância não goza de compartilhamento efetivo de todos os atores que o circundam, como os pais/familiares, empresariado, o governo, os docentes, coordenadores, inclusive as mantenças. Está tudo muito distante, fragmentado e pouca interação existe entre os polos.

Na escola, alguns valores ainda insistem em permanecer inalterados e são, ao lado de outros fatores, responsáveis pela apatia e pela evasão escolar. Cito três, que me parecem os mais problemáticos: o papel do professor de detentor do conhecimento, a organização da sala no modelo um para muitos e o papel passivo do aluno no seu processo de aprendizagem.

Acredito que, quebrando a verticalidade da aprendizagem – representada pelos valores acima elencados –, pode-se encarar de um jeito novo os espaços formais de ensino. A aprendizagem horizontal baseia-se na cooperação, na abertura de espaços para novas atividades e experiências que ajudarão os alunos a desenvolverem responsabilidade e autonomia, porque serão agentes da própria aprendizagem.

Não se trata, como já frisei em outros artigos, de anular o papel do professor. Ele é imprescindível, mas precisará deixar de ser o detentor do conhecimento (hoje facilmente obtido num clique de mouse) e migrar para um papel muito mais nobre, desafiador e edificante: o de mediador da experiência e do aprendizado dos seus alunos.

Imagino uma escola do futuro, em que as avaliações não serão punitivas e centradas em memorização, mas serão comparadas com os objetivos pessoais do estudante e não em relação a uma maioria dos estudantes, que podem, e são, muito diferentes. Para tanto, será preciso desenvolver situações para que o aluno recupere o gosto pela aprendizagem sem medo de punição. Graças à internet e aos objetos conectados que aumentam a interatividade, é fácil montar oficinas com ferramental próprio e finalmente deixar para trás a educação secular. Assim, a escola do futuro vai parecer um enorme caldo de cultura em que os estudantes aprendem, cooperativa e criativamente, a pensar por si mesmos.

Tablets e outras mídias inteligentes permitirão que os professores passem um tempo com cada aluno e os conduza individualmente, enquanto os demais podem continuar, em conjunto, o percurso do programa/currículo. Na verdade, os professores são frequentemente solicitados a estar presentes com cada aluno, mesmo quando precisam gerenciar mais de 40 alunos por vez. Em outras palavras, missão impossível. Na escola do futuro, com tablets, por exemplo, os alunos poderão trabalhar de forma autônoma, deixando tempo para o professor desempenhar efetivamente o papel de acompanhante/tutor.

O pesquisador e filósofo Edgard Morin propõe sete conhecimentos para enfrentar os problemas fundamentais do mundo de hoje e de amanhã. O cientista gênio da comunicação planetária deu, a pedido da Unesco, sete sinais (não confundir com os pecados capitais) para a educação do futuro. Não são sinais cabalísticos nem bíblicos, vejamos:

1) enfrentar as cegueiras do conhecimento: “O dever principal da educação é preparar cada um para enfrentar os não saberes com lucidez”, diz Morin. Em outras palavras, é preciso integrar os erros nas concepções para que o conhecimento consiga avançar;

2) trabalhar a ideia de conhecimento pertinente, contrária à idéia de que, para aprender, temos de fragmentar. A ideia central deste saber remonta à necessidade de que o todo é mais que a soma das partes, temos que “pensar a relação entre o todo e as partes”, assim a educação do futuro deve buscar estimular a inteligência geral e o conhecimento do todo. No sistema escolar estamos nos voltando cada vez mais para a especialização, quando devemos destacar a transversalidade dos sujeitos. O enfraquecimento da percepção do global leva ao enfraquecimento da responsabilidade, bem como da solidariedade;

3) pensar a condição humana, não somos só culturais, mas também naturais, físicos, psíquicos, míticos, sociais, dentre outros. Por isso, necessitamos reaprender nossa própria condição. Ensinar o ser humano com razão e sensibilidade; razão e emoção;

4) a educação do futuro deve estimular o conhecimento do planeta e a forma como devemos nos relacionar com ele, ou seja, devemos salvar a unidade humana e a biodiversidade, construir um planeta que seja viável para as futuras gerações;

5) debater o princípio da incerteza, que se contrapõe aos preceitos defendidos pela lógica cartesiana a qual nos direciona a pensar que tudo que é científico faz parte da certeza. Assim, é preciso ensinar a ideia de incerteza, porque ela nos levará ao avanço da cultura, ao avanço do saber. No processo educativo é necessário saber lidar com a incerteza, “compreender a incerteza do real”;

6) hoje estamos diante de um paradoxo, ou seja, estamos cada vez mais conectados e, no entanto, a solidariedade e o mal-entendido entre pessoas estão em constante crescimento. É bom lembrar que o entendimento docente é o que garante a solidariedade intelectual e moral da humanidade, por via da empatia, do bem-estar e das emoções;

7) é necessário ensinar democracia desde cedo porque isso enseja o exercício das liberdades individuais bem como responsabilidade e solidariedade na sociedade. Temos de empoderar os estudantes ao invés de ensiná-los a obedecer.

Aguardo ansiosamente o momento em que governo e sociedade resolvam dar igualitariamente a todos os jovens, uma sólida e qualificada educação pré-universitária. Mas não abro mão da minha receita: a única maneira de solucionar a desigualdade social do Brasil é passagem de ida, sem volta: educação.