Hélice Tríplice: A Relação Universidade-Empresa-Governo em busca da inovação

8 set

 Professor Roney Signorini
Assessor & Consultor Educacional
signorinironey1@gmail.com

Na universidade nacional a hélice tríplice ainda tem as pás em atrito nervoso

Recentemente, diante de uma prateleira em livraria, detive-me ante o título atraente de Hélice Tríplice, o que me levou a elucubrar se não seriam três pás num eixo. Quase um liquidificador, um ventilador ou quem sabe um mixer para agitar um sundae. Ledo engano. Curioso, manuseei-o, perplexo a cada escorregada de páginas.

De pronto, num trecho li sobre as PPP – Parceria Público-Privada me levando a questionar se não estaria faltando ali uma letra para se agregar e que aí sim seria o espelho da Hélice: a Universidade, uma PPUP.

 

Os estímulos na formação de conjuntos produtivos são seguramente uma forma para criar espaços de  aprendizagem. O incentivo proposto por meio da interação entre universidades, empresas e governo tem sido o caminho mais curto para a aprendizagem tecnológica e inovação.
O referencial teórico que dá sustentação a esse caminho é o da Hélice Tríplice, desenvolvido em 1997 por Henry Etzkowitz [1] e  Loet Leydesdorff [2], que avaliam a inovação tecnológica como resultado da interação entre os agentes: governo, empresas e universidades. Aliás, por oportuno, conheço e admiro muito a instituição CIEE -Centro de Integração Empresa-Escola, que já aproximou milhares de jovens ao mercado de trabalho, durante décadas, mas parece que aí também está faltando um terceiro braço: o governo.

Tudo indica que trata-se de questão cultural, atuando diferentemente com fortes razões em boa parte do planeta.

 

No exterior, a relação universidade-empresa tem sido foco de relevância no mundo científico e empresarial, gerando uma ascensão quanto à melhoria de pessoas, processos, produtos e serviços voltados para as organizações e em favor das necessidades da humanidade. O processo, observado e analisado deve consistir  especificamente em situar a relação universidade-empresa-governo buscando evidências teóricas que sustentam que tais organizações trabalhando em regime de cooperação podem desenvolver inovações. Inovações apoiadas no modelo Hélice Tríplice.

 

O termo Hélice Tríplice foi criado por Henry Etzkovitz nos anos 90, com o objetivo de descrever o modelo de inovação com base na relação entre as instituições Governo-Universidade-Empresa.  Trata-se de um modelo espiral de inovação que leva em consideração as múltiplas relações recíprocas em diferentes estágios do processo de geração e disseminação do conhecimento. Cada Hélice é uma esfera institucional independente, mas trabalha em cooperação e interdependência com as demais esferas, através de fluxos de conhecimento.

Essa ampliação dos processos de cooperação e interdependência estaria denotando uma maior eficiência da relação Governo-Universidade-Empresa, fruto do estabelecimento daquele novo contrato social entre a universidade e seu entorno, que estaria levando a universidade a incorporar as funções de desenvolvimento econômico, às suas já clássicas atividades de ensino e pesquisa, consequentemente redefinindo suas estruturas e funções. Só por aí já se percebe a validade da proposta.

 

Para Myller Augusto Santos Gomes e Fernando Eduardo Canziani Pereira [3] , ”Cada dia mais se percebe a urgente necessidade de interação universidade-empresa  e ela se torna cada vez mais importante no contexto econômico atual. Enquanto as universidades estão buscando uma nova definição de seu papel na sociedade,  as empresas por novas alternativas de competitividade para garantir a permanência no mercado. Do mesmo modo que a universidade precisa encontrar a forma certa de relacionar-se com o setor produtivo, este deve saber como internalizar  a colaboração da universidade. É necessária a intervenção de agentes que articulem melhor essa interface e valorizem a interdisciplinaridade.

É preciso registrar que a importância dada à inovação tecnológica  é percebida cada vez mais no cenário nacional. Um dos argumentos que têm sido construídos no meio acadêmico defende que para o desenvolvimento de inovações tecnológicas a cooperação entre a universidade e a empresa é fundamental.”
Em recente publicação pelo www.blog.aevo.com.br pode-se saber mais com um guia criado exatamente para levar a público no que consiste a teoria da Hélice.

O conceito de Triple Helix, ou Tríplice Hélice da Inovação, foi criado a partir de trabalhos anteriores ,bem como de observações realizadas, principalmente, no México e nos EUA. Ele traz à tona uma importante mudança de paradigma na produção de inovação, como ela se desenvolve e sua ligação com o cenário atual.

Nesse cenário, as três partes possuem um papel importante. As universidades são centro da produção de inovação em si, tanto pela formação de profissionais de alto nível quanto pela pesquisa e desenvolvimento de tecnologias, pois congregam pessoas e conhecimentos especializados; as empresas puxam esse processo, a partir de suas demandas práticas; e o governo é o facilitador, seja por meio de programas de incentivo à pesquisa, seja reduzindo as burocracias necessárias para desenvolver e implementar as inovações.  Para bom observador, foi desatado o nó górdio se cada um dos três agentes efetivamente assumirem suas responsabilidades.

A Tríplice da Inovação já passou por um processo de evolução até chegar ao modelo de inter-relação hoje vigorante. Esse processo é constituído por três fases:  Na primeira fase, empresas, universidades e governo são definidos institucionalmente e não se sobrepõem. As empresas visam produzir; as universidades visam gerar e transmitir conhecimento; o Governo visa administrar o Estado e, dentro dessa atividade, regular as empresas e universidades.
Na segunda fase, passamos a ver relações bilaterais entre esses elementos. Por exemplo, empresas e universidades podem formar parcerias, porque as empresas precisam de profissionais qualificados e as universidades precisam de investimentos.
Finalmente, na terceira fase, constrói-se uma relação entre os três elementos, com uma diluição das fronteiras entre eles.

É importante notar que, enquanto a relação entre empresas, universidades e governo torna-se quase simbiótica do ponto de vista de produção da inovação, cada uma possui seus interesses que estão sendo atendidos por meio dessa colaboração “trilateral”:

Assim, a Tríplice Hélice da Inovação não é meramente um paradigma que beneficia a inovação nas empresas, mas um arranjo sistêmico que gera consequências positivas bem mais amplas.

Etzkovitz ao levar em seu livro as diversas conclusões, capítulo a capítulo, deixa muito claro que a teoria da Hélice veio para ficar.
As conclusões: A Hélice Tríplice e a teoria social clássica; A Universidade Empreendedora; A Hélice Tríplice na Empresa; O papel ideal do governo na inovação; A tecnópolis da hélice tríplice; Do laboratório  de ensino à incubadora de ensino; Reinventando o capital de risco; O futuro da hélice tríplice e a hélice tríplice do futuro. Vale o esforço em ler a obra para não padecer.

 

De todas as sábias lições que Etzkovitz sintetizou, todas elas sem exceção, precisam atingir o nosso governo, a nossa indústria, a nossa universidade dando vigor à persecução da nova universidade que vai carregar marsupialmente a inovação. Quem viver verá.

 

A discussão aqui proposta como reflexão para a comunidade, operadores da educação, mantenedores, docentes e demais apresenta relevância no momento atual, pois a sociedade instiga respostas para problemas existenciais, principalmente, os sociais e econômicos. E a união entre duas instancias, uma que pensa e a outra que produz, mais a atuação do governo, indica uma forma de consolidar as inovações tecnológicas para a construção de uma realidade de desenvolvimento econômico e sustentável . Afinal, com notícia publicada pela Agência Brasil no último dia 5 precisamos muito de vigorosas ações e iniciativas: “O número de pessoas na faixa de extrema pobreza no Brasil aumentou de 6,6% da população em 2016 para 7,4% em 2017, ao passar de 13,5 milhões para 15,2 milhões. De acordo com definição do Banco Mundial, são pessoas com renda inferior a US$ 1,90 por dia ou R$ 140 por mês. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o crescimento do percentual nessa faixa subiu em todo o país, com exceção da Região Norte onde ficou estável.”

 

Na terceira fase da Tríplice Hélice da Inovação, a universidade precisa evoluir para uma universidade empreendedora. Isso significa que ela não é somente um espaço de ensino, mas uma organização consciente da lógica de mercado e ativa dentro dela, inclusive estimulando e apoiando startups.
Sabidamente isso pode gerar mudanças nos intestinos do Enade, da avaliação das IES mas é imperativo exercer tais mudanças. Não temos mais tempo nem espaço para alternativas. Passam a ser “ações de guerra”.

[1] Henry Etzkowitz –(historiador e doutor em sociologia) Universidade do Estado de Nova York
[2] Loet Leydesdorff –(dinâmica de sistemas) Universidade de Amsterdam
[3} Myller Augusto Santos Gomes *  Mestre em Gestão de Políticas Públicas, UNICENTRO, 
Fernando Eduardo Canziani Pereira   Mestre em Gestão de Políticas Públicas, UNIVALI