Chegou a hora da fazeção e da experiência

23 fev

Prof. Roney Signorini
Consultor & Assessor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 No domingo, 19, o Estadão com uma atraente chamada de capa levou o leitor até a página B 8, integralmente ocupada por assunto de economia mas que atravessa o da educação.

A partir do título Experiência Valerá mais que Formação na Próxima Década, a jornalista Talita Nascimento esbanja convicções e certezas, apoiada em estudos  do Escritório de Carreiras da USP. Tudo a ver com a educação e seus atores, principalmente o docente que terá de se reinventar. E esse é o eixo da questão se de fato a experiência real e trabalhos realizados( via portfólio ) passarem a valer mais que os falidos TCCs e teses inconsistentes, faltando valor e aplicabilidade. Em breve, na solenidade de formatura, o orador não mais agradecerá ao corpo docente mas ao Google & Cia.

De quebra, no rodapé da página, o professor Glauco Arbix (USP) espanca os confortados e conformados, sem dar trégua: “O que distingue a época atual é que vivemos o nascimento  de uma constelação de tecnologias que prenuncia a remodelagem da vida das pessoas, das economias, das cidades e do trabalho em níveis inéditos na história da humanidade.”

Nos últimos anos uma palavra americanizada passou a ocupar as rodas: network, sinônimo de facilidades para contatos sociais, mais especialmente relações de trabalho e com isso a disponibilidade de se construir rede(s) para transitar pela internet ou mesmo pessoalmente. E a formação dessa rede se inicia(va) nas escolas, ainda que ao longo do tempo esse “banco” de dados se altere(asse) com a mudança dos endereços reais ou virtuais.

E é assim que os “brothers” vão levando a vida, e por nonsense, antes que ela os abandone. Todo mundo se “dando bem”, numa relação cordialíssima mas com uma pitada de cinismo e uma gota de hipocrisia. Todos apresentando o da ponta, para algum trabalho, ou será para algum emprego? Nunca se viu tamanha volatilidade funcional, o turnover levado às últimas consequências, parece ser a roda que gira exatamente para não se fixar em nada, lugar algum.

O fato é que hoje, nenhum dos egressos atuais das universidades brasileiras, arrisco dizer, têm a formação desejável para enfrentar as demandas de mercado, totalmente recheadas de necessárias habilidades e competências.

Mais, conforme Talita, um profissional holístico. E eu que pensei que o verbete estaria em desuso.

A jornalista destaca que o mercado de trabalho caminha para se dividir na próxima década em dez áreas, e as enumera, que podem envolver diversos tipos de profissionais. Não mais aquela formação padrão para o trabalho mas que o trabalho do futuro exigirá a combinação de vários conhecimentos. Nos últimos anos já vi listas semelhantes, umas apontando 15 -20 ou mais. É uma questão de orientação da fonte informativa.

Por estranho, a palavra profissão vai desaparecer dando lugar à carreira que é a sequência de experiências pessoais de trabalho ao longo do tempo.

Tudo indica que a dúvida de se propor uma formação generalista, em proveito ou detrimento da especialista, não tem mais nada a ver com as projeções.
Essa queda de braço nas universidades demorou para se instalar e para ser abandonada.

 Os estudiosos dos novos campos de trabalho chamam ao fenômeno de flexibilidade, uma transformação radical na migração para outros setores de atuação e com isso viver novas experiências. Próprio da juventude deste século, aventureira com mochila nas costas, sempre pronta para partir. Busco socorro no poeta Paulo Bonfim: em breve não mais será preciso partir para se chegar.

Enquanto isso não se consolida, pode estar próximo ou distante, temos de cuidar do próprio umbigo, voltando-nos para a realidade factual do cotidiano, principalmente quanto à formação dos nossos garotos do Fundamental e do Médio que às portas de uma atualização, por via das BNCCs, ainda têm muito caminho pela frente, a partir da capacitação docente, tão exigida.

A tarefa é hercúlea, de parte dos governos que terão de tratar da recapacitação profissional como um novo ensino básico.

 Passamos anos estimando quantas vagas de nossos empregos seriam roubadas pelos robôs. Agora é hora de pensarmos em como as pessoas vão viver nessa nova realidade e entender os detalhes da recapacitação constante da força de trabalho.

O brilhante professor Jason Wingard, Reitor da Escola de Estudos Profissionais da Universidade de Columbia tem uma proposta, ou melhor, três: os trabalhadores estarão entregues à própria sorte em um modelo de prestação de serviço, as empresas investirão para manter seus talentos atualizados e na folha de pagamentos… ou os governos assumem essa responsabilidade.

Para ele, é nossa responsabilidade garantir que a sociedade esteja preparada, como foi feito ao prepararem os trabalhadores para a Era Industrial. As nações construíram uma infraestrutura de Ensino Fundamental e Médio capaz de enfrentar as demandas de então. Para o momento,  os governos podem precisar fazer algo semelhante, com o diferencial de que agora prepare as pessoas continuamente. O que se vê é que pessoas e empresas podem atravessar fronteiras para encontrar talento ou oportunidades; os países, no entanto, ficam para trás.

As questões globais, tendências ou simplesmente modas, estão desafiando a maturidade e o bom senso institucional das IES brasileiras, no sentido de exigir conceitos claros e estratégias eficientes, deles decorrentes, de inserção internacional, já que preparar o cidadão global parece ser mesmo uma necessidade irreversível.

Assim, não é possível inverter o sentido que se efetua numa única direção, sem possibilidade de retornar à etapa anterior, tudo associadamente  à inovação e sustentabilidade, portanto, assuntos pertinentes à economia de um modo geral e, em um contexto de mudanças, elas ganham relevância considerável na elaboração das estratégias de inovação que são necessárias.

Num contraponto, o honorável professor José Goldemberg, nem tanto otimista, vem falar do “Fim da História e da Inovação” em seu brilhante artigo, também no Estadão, do dia 20, recheado de muita cultura e inteligência.

De início, ele se apoia no cientista político norte-americano, Francis Fukuyama com seu livro de enorme repercussão, O Fim da História, sem colocar um ponto final.

Há alguns argumentos, na linha do ad argumentandum  como as duas guerras mundiais, a queda do muro de Berlim, o fim do império soviético, a globalização da economia mundial, a redução de conflitos nacionalistas, restando o desafio real da ascensão do Estado Islâmico, sem no entanto abalar a estrutura mundial. Até a China se incorporou à grande corrente da globalização, apesar das restrições à democracia. O quadro, transportado para a notação musical talvez merecesse alguns compassos de muitas pausas ( silêncio absoluto ) mas sem um finale, que encerra a composição.

Em um ponto do artigo o professor Goldemberg parece que espeta o ventre do leitor, e não quer estancar a hemorragia, ao afirmar que análises mostram que o mesmo pode estar acontecendo com a tecnologia e com a própria ciência pois estudos sobre isso estão se tornando populares.

Atribui-se à estagnação da economia nos EUA, nas últimas décadas, ao fato de que a produtividade deixou de crescer na segunda metade do século 20, sob o argumento de que isso se deve ao fato de que os avanços tecnológicos mais recentes, na área da computação e informática, não impressionam como os que ocorreram na primeira metade de tal século. Com justa razão porque o presenciado hoje são apenas pequenos aperfeiçoamentos, só de caráter comercial.

O que hoje está nos jornais diz respeito à inteligência artificial, automóveis sem motorista e viagens espaciais, discutindo-se sobre suas reais utilidades e necessidades.

Inegavelmente a qualidade de vida do século 20 melhorou muito se comparada à do século anterior, daí perguntar se a tecnologia empregada para garantir um melhor nível de vida a todos também não teria atingido seus limites. Assim como se não teremos atingido os limites nos conhecimentos científicos sobre a natureza. Essas são as bases das propostas reflexivas de Goldemberg e é preciso muito fôlego para contestar. Quem se habilita ?