As BNCCs chegaram. Agora é esperar.( ! ? )

8 mar

Prof. Roney Signorini
Consultor & Assessor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 Posso dizer, com alguma  imodéstia, que uma determinante em minha personalidade sempre foi a de ver o mundo com sua realidade, pragmaticamente, e com isso aduzir  o lado da executividade em minhas ações.

E confesso mais: constatei ao longo da idade que não é pouca, algumas confirmações de exequibilidade e facticidade,  mas sobretudo soluções, algumas próximas da perfeição e outras ficando a dever centímetros ou gotas.
Isso me ocorre agora a propósito do evento BNCC na educação, que ao meu ver ainda está em latência nas instâncias públicas, razão porque não estou sentindo a firmeza desejável sobre a sua implantação. Como parturiente nova, o final de gravidez começa a incomodar sujeitando a mulher a um sem número de dúvidas, interrogações e mal-estares.
E é exatamente essa a condição do que se sente na aproximação de levar para as milhares de salas de aulas do ensino público do país a “largada” para por em prática tudo o que se construiu com centenas de fóruns de discussão e milhões de sugestões. Quanto a essas, lamentavelmente não vieram a público e assim pouco sabemos se foram ou não incorporadas, quais as recusadas e seus motivos. Nunca em momento algum da história do país, desde seu descobrimento, aconteceu um movimento tão compartilhado que tenha recebido tanta adesão participativa como a resposta dada à convocação das autoridades para que a comunidade desse  opiniões e sugestões sobre o assunto.

 

Então, um belo dia o que era proposta virou Lei e aí está para as instituições privadas  mas sobretudo para as públicas que são as campeãs de alunos em todo o país.
Ao que tudo indica, até aqui, se de fato a BNCC vai/tem de ser implantada agora e para que as autoridades mostrem que fizeram o dever de casa e as tarefas foram cumpridas e com isso atingir plenamente a exequibilidade do projeto BNCC.
Há preocupações no ar, muitas, se efetivamente a docência nacional, do Infantil ao Médio, está mesmo preparada para reconhecer, identificar, aplicar e desenvolver concretamente todas as habilidades e competências, gerais ou específicas contempladas na BNCC.
As Secretarias de Educação dos estados já trabalharam isso de atualizar formações nos seus quadros docentes, foram devidamente instruídos e treinados para as inovações que vão invadir seus ambientes de trabalho, enfim, estão preparados para os desafios dessa nova e inquieta geração que desconhece caderno e lápis  mas são soberanos  ao dedilhar um smart?

 

Os jornais estão sempre publicando matéria sobre o assunto do analfabetismo  e os governos, pela extinção desse cancro, referenciando um “pedido” pelo qual cobram ações e resultados mais eficazes, em outras palavras, soluções. Mas, indiferente, a mídia vive de notícia ruim parecendo não saber onde está a solução, e nem procura, já que não é sua “obrigação”, sobretudo em área que não domina.

A solução que queremos só pode se dar por  compartilhamento da sociedade.

Anos decorreram — e ainda não idealmente — a discutir no CNE os propósitos e objetivos, os conteúdos e finalidades da formação do pedagogo, em cujo curso as IES ainda não “resolveram” o impasse das cargas horárias e respectivas preocupações do que é Estágio e do que é Prática, confundindo e assemelhando-as como se fossem única ação. Currículos e conteúdos carecem de atualizações. Metodologias, então, nem se fala.
Afinal, o que de fato ocorre com a educação/ensino no ciclo Básico?  A sua melhoria tem ou não solução? Se não há quem a ofereça por aqui adotemos as que têm sucesso em todo o planeta.

As IES que têm cursos de Formação merecem uma atenção especialíssima, uma força-tarefa de alta especialização no fazer educativo nos cursos superiores. Neles abundam a negligência, a desídia, como se fossem “cursinhos” de menor importância. Em EAD tais cursos ganharam a exponenciação pela procura nos últimos dois anos. É esperar para ver como deixarão as licenciaturas e como se sairão no mercado de trabalho. .

O problema do analfabetismo, em todas as dimensões, está, na busca de soluções – porque encontrá-las, antes de tudo é ter as pessoas para executar -junto às escolas, principalmente e exclusivamente a observação do corpo docente, na configuração curricular e, por decorrência, programática, na infraestrutura, na biblioteca, nos laboratórios (brinquedoteca, etc.) e tudo o mais que componha o universo na oferta das licenciaturas. Sem isso, continuaremos a formar gente incapaz para assumir o magistério do ensino básico, nas últimas consequências de escolarização.
Já é hora de discutirmos a alfabetização de nossas crianças, que chegam semialfabetizadas aos vestibulares à luz das propostas educacionais, do que acontece na formação dos alunos, sujeitos a currículos e conteúdos heterogêneos, ao bel-prazer da deriva do processo de ensino, no qual abundam profissionais sem formação ou com formação caolha. Antes é necessário discutir a situação dos professores, ou melhor, dos docentes dos futuros professores, lembrando que docente mal formado só procura saídas políticas para garantir a carreira. O anacronismo é geral, é total. A parabólica também deve estar ligada quanto às Diretorias e Coordenações.

Eles, sim, merecem cuidado especialíssimo. A proposta educacional deles está na UTI, em fase terminal. Enquanto os cursos superiores não definirem propostas “universais”, concretas, “eixos duros”, balizadas no DNA da cultura nacional, sem estrangeirismos nem modismos, sem invenções nem caricaturas de ensino-aprendizagem, vamos amargar outra década do PNE que já caminha para a sua metade operacional, em flagrante claudicância.

Só reclamações, muitas. Para reflexão e opinião. Quem tem as soluções?

– Os docentes universitários dizendo que os alunos egressos do Médio não têm a mínima condição de acompanhar os conteúdos por eles propostos e que foi um absurdo o processo seletivo ter aprovado o candidato;

– Os professores do Médio falando que os egressos do Fundamental não carregam o mínimo indispensável para continuidade dos estudos mas vão em frente com a “aprovação automática”;

– Os estudantes, poucos, reprovando a performance do professor como sendo insatisfatória, em todos os sentidos;

– Os pais não entendendo nada sobre progressão continuada ou aprovação automática, de que maneira o filho foi promovido se mal sabe assinar, fazer qualquer cálculo elementar de aritmética, ler algum texto e baixando interpretações, mas exigindo das escolas que os reprovem;

– Os mantenedores superiores desesperados com o pouco ingresso e com as absurdas(?) reprovações ao longo do semestre, para não falar da calamitosa desistência e evasão do alunado;

– As escolas minimizando o valor das mensalidades nas raias dos “nine-nine”
(R$199,00 – R$ 299,00, etc. )

– As contas não batendo e não fechando, mês-a-mês e turmas sendo “desmontadas” para aglutinações;

– O Sinaes/Conaes/inep/MEC com o tacão do IGC e o CPC, além do Enade, completa e
totalmente ideologizado;

– E dá-lhe repúdio, insatisfação e revolta das instituições via análise das avaliações por réplica à curva de Gauss; no que os matemáticos são vorazes usuários, provando que zero é igual a um;

– Os cursos de formação, de licenciaturas, bem como pedagogia, se isentam de responsabilidades, sejam eles de dois, três ou quatro anos, igualmente atribuindo suas falências ao item primeiro desta compilação;

– Os licenciandos atribuem suas baixas formações ao corpo docente da instituição que pouco ou nada lhes propiciou, completa e integral, dado que não tiveram condições ideais de exercer suas práticas e/ou estágios;

– Na contrapartida, os contraditórios porque  nem o Estado nem as particulares têm condições físicas de recebê-los para tais exercícios profissionais, porque são mais candidatos  interessados do que existem de ofertas. A demanda é muito maior do que as ofertas. Igual raciocínio como Enfermagem, Direito  e outras que carecem de atividades praticizantes;

– Hoje, o ciclo básico transfere responsabilidades formativas ao ciclo universitário que deve(ria) completar o que foi “impossível” de ser feito/ensinado. Impossível mesmo porque a universidade não tem tempo nem condições para isso, não é seu escopo.
Então, essa barafunda educacional nos arremessa à velha questão de parar de criticar e passar a encontrar as soluções.  Há quem pense que a solução é  começar do zero e adotar a premissa de supervalorizar a formação dos futuros docentes com cursos de licenciaturas impecáveis. Para tal projeto/ação deve-se considerar um longo prazo, coisa de dez anos para completar o ciclo. Não temos tempo para isso.
Educação não se pensa como negócios, com materialidade de produtos em linha de produção – como quer a OMC – mas a longo prazo como deseja a OCDE. Sobretudo levando em conta que os conhecimentos novos ficam caducos em apenas 72 horas. Objetividade, coisa de passar a borracha sobre os erros e evitar enxugar gelo continuamente.

Quanto ao enfoque socioemocional nas abordagens das disciplinas é tarefa dos cursos de formação, interiorizando-se  os conceitos no currículo universitário enquanto licenciando.

Perpetramos muita imbecilidade nas salas de aulas das universidades, na preparação dos futuros professores, esperando que sejam extremamente dedicados e abnegados ao mister, altamente preparados e qualificados, com prévia alta formação universitária. Ledo engano com o que aí está.

Como se vê, o problema está à tona  mas soluções estão bem mais embaixo, daí o apelo quase patético das IES de “pelo amor de Deus, não nos entreguem para o nível universitário esse balaio de incultura”.

Assim, com esse cenário nada otimista, o que será da condução da BNCC em mãos despreparadas, quando está ao nosso alcance impor inusitadamente uma  inovação redentora(?), em que pese o possível insucesso junto às públicas, onde exatamente há mais carência e necessidades?

Pelo sabido, as Diretorias de Ensino, (antigas Delegacias de Ensino) nem as supervisões e nem as coordenações pedagógicas têm adesividade à Base. Mais ou menos como “não sentem firmeza.”

Não podemos mais nos submeter a enganos como quis Sísifo, da mitologia grega, aquele que subia o rochedo com uma pedra e ao cume não conseguia segurar o granito, vindo sempre ladeira abaixo, continuamente, como castigo para quem pretendeu enganar a Morte. https://pt.wikipedia.org/wiki/Sísifo