Marina Mazzucato e uma nova economia ( ! ? )

8 mar

Prof. Roney Signorini
Consultor & Assessor Educacional
signorinironey1@gmail.com


Não tenho muita intimidade com a ciência econômica e o pouco que li e aprendi estaria nos dez dedos das duas mãos. Aprendi muito foi com o cotidiano, de ouvir aqui e acolá gente graúda na área lançando arroubos de salvação, em todos os governos brasileiros. Por aqui basta ver a evolução da moeda nos últimos vinte ou trinta anos.

É teoria para dar e vender já que o assunto é o mercado, no qual até o escambo cabe para discussões do quanto vale ou deixa de valer.

 A realidade é que os economistas sempre surgem com soluções que parecem factíveis mas alguma bruxaria monetária desanda o bolo e ele não cresce, ao contrário, queima dentro do forno.

 Surgiu mais uma e o THE NEW YORK TIMES expõe a economista da vez:  

Mariana Mazzucato quer que os progressistas falem menos sobre a redistribuição de riqueza e mais sobre sua criação; políticos do mundo inteiro estão ouvindo. Ou seja, é a velha máxima do falar menos e fazer mais.

 Irriquieta, Mazzucato, que tem um doutorado em economia e leciona no University College de Londres, está tentando mudar algo de fundamental na maneira pela qual a sociedade pensa sobre valor econômico.

Em setembro do ano passado ela participava de uma conferência na Universidade Columbia, repleto de cientistas, acadêmicos e empresários que assessoram a ONU sobre sustentabilidade—, o ar condicionado estava funcionando no nível máximo. Para uma sala lotada de especialistas que discutiam os problemas sociais e ambientais mais urgentes do planeta, isso não só era desconfortável como contrariava a mensagem pretendida.

Já no início do evento ela mandou um assistente pedir que desligassem o ar condicionado, debaixo de uma bravata que ecoou em voz alta no salão: “Como é que mudaremos alguma coisa, se não nos rebelarmos já no primeiro dia?”. Uma bomba no colo das autoridades mundiais presentes ao evento.

Ela faz perguntas sobre o capitalismo que deixamos de fazer há muito tempo  e as respostas que vem colocando podem permitir que superemos os desafios mais difíceis de nossa era.

É Katy Lederer, do NYT, quem informa: “Em dois livros sobre teoria política e econômica moderna – “The Entrepreneurial State” [O Estado Empreendedor] (2013) e “The Value of Everything” [O Valor de Tudo] (2018) –Mazzucato argumenta contra a visão binária aceita há muito tempo sobre um setor privado ágil e um Estado lento e ineficiente.”

Dona de uma visão muito clara sobre os meandros do economês, ela menciona mercados e tecnologias como a internet, o iPhone e a energia limpa –todas as quais foram bancadas por dinheiro público, em estágios cruciais de seu desenvolvimento, como sendo o Estado o grande, para não dizer o único  propulsor de crescimento e inovação sem receber o devido reconhecimento.

Outra clareza solar está na afirmação, sem contra argumentos: “Pessoalmente, acredito que a esquerda está perdendo em todo o mundo porque se concentra demais em redistribuição e não o suficiente na criação de riqueza”.

Como se vê, suas mensagens são sempre cativantes porque trazem o novo, sem deixar de ter obviedades mas muito provocantes quase a pedir “Quem quer somar comigo?”

Mesmo os republicanos encontraram ideias que os agradam no trabalho da economista. Em maio, o senador Marco Rubio, republicano da Flórida, creditou o trabalho de Mazzucato diversas vezes em “Investimento Americano no Século 21”, sua proposta para impulsionar o crescimento econômico.

Alguns adeptos de Mazzucato também têm suas convicções afirmando que é preciso  construir uma economia que possa ver além da pressão, por compreender a criação de valor em termos financeiros estreitos e de curto prazo e em lugar disso visualizar um futuro que mereça investimento em longo prazo.

Formalmente, o evento da ONU em setembro era uma reunião do conselho de liderança da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável (SDSN, na sigla em inglês). Trata-se de um órgão de cerca de 90 especialistas que assessoram a organização sobre tópicos como igualdade de gêneros, pobreza e aquecimento global. A maior parte dos participantes tem conhecimentos técnicos específicos. Mazzucato oferece um farto menu, alguma coisa tanto ampla quanto escassa: uma história nova e interessante sobre como criar um futuro desejável.

Ela conseguiu seu doutorado em 1999 na New School for Social Research, e começou a trabalhar em “The Entrepreneurial State” depois da crise financeira de 2008. Governos de toda a Europa começaram a instituir políticas de austeridade em nome de fomentar a inovação, que ela considerava não só dúbio mas economicamente destrutivo.

Sem papas na língua, referindo-se aos preceitos recebidos quanto ao livre mercado ela diz que “Há toda uma agenda neoliberal”, no sentido de que cortar orçamentos estimula o crescimento econômico. E a maneira pela qual a teoria tradicional fomentou isso, ou ao menos não contestou isso, gerou uma espécie de estranha simbiose entre o pensamento econômico dominante e políticas públicas estúpidas”. Os economistas de plantão espalhados pelo mundo se ofenderam e os já falecidos se mexeram nos jazigos.

Desnecessário dizer que essa italiana  questiona muitos dos preceitos da teoria econômica neoclássica lecionada na maioria dos departamentos acadêmicos de economia.

Ela originou e popularizou a descrição do Estado como “investidor de primeiro recurso”, concebendo novo mercados e oferecendo capital de longo prazo, ou capital “paciente”, em estágios iniciais de desenvolvimento.

Ao longo do texto, no NYT,   Lederer afirma que as ideias de Mazzucato vêm encontrando audiências receptivas em todo o mundo. No Reino Unido, o trabalho dela influenciou Jeremy Corbyn, o líder do Partido Trabalhista, e a ex-primeira ministra conservadora Theresa May, e ela assessorou a líder nacionalista escocesa Nicola Sturgeon sobre como planejar e colocar em operação um banco nacional de investimento. Ela também assessora órgãos governamentais na Alemanha, África do Sul e outros países.

Conforme ela, é preciso mudar radicalmente tanto a narrativa quanto a teoria e a prática concreta, ou ainda, de fato, criar mercados nos quais se gera a demanda e começa a direcionar o investimento e a inovação de maneira que possam nos ajudar a atingir tais metas.

Apontada para o primeiro Not the Nobel Prize, uma comenda cujo objetivo é promover “pensamento econômico original”, Mazzucato disse que “os governos despertaram para o fato de que a forma convencional de pensar não os está ajudando”, o que explica por que ela atrai os políticos e as autoridades. Acabou ganhando o prêmio. Parabéns.