A nova forma de aprender: o screen

15 mar

Prof. Roney Signorini
Consultor & Assessor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 “Cada dia mais cedo, assistimos crianças passando horas com seu novo ‘melhor amigo’. Com seus polegares rápidos deslizando no touch screen, fica difícil competir e parece não existir nada mais importante no mundo do que a internet. Quais devem ser os limites aceitáveis para essa relação?”

Daniela Aguilera Moura Antonio & Maria Alice Fontes [1]

 O homem dominou o fogo, descobriu a agricultura, domesticou animais, inventou a roda, mas sobretudo criou a linguagem. O homem desde sempre evoluiu em grandes saltos ao longo dos séculos e milênios.

Estudos sugerem que as pinturas rupestres representam em si mesmas uma modalidade de expressão, ainda que não possam ser entendidas como linguagem propriamente dita. Cientistas mais radicais acreditam que o grande salto do homem rumo à linguagem possa ter ocorrido nos pequenos espaços das cavernas, que tinham propriedades acústicas cujos sinais podiam ser transformados em representações visuais simbólicas.

Elucubrações à parte, acredito que as paredes das cavernas tenham sido o primeiro suporte – a primeira tela – para manifestação da capacidade simbólica, de representação, do ser humano.

O surgimento da linguagem, gestual, pictórica e oral, ocorreu paralelamente à organização dos seres humanos em sociedade e ambas influenciaram-se mutuamente.

A invenção da escrita, que separou definitivamente o homem dos demais animais, mudou o mundo, ao superar o desafio de como armazenar e transmitir informações a distância. A escrita serviu de memória artificial e de veículo de comunicação, mas não existiria sem um suporte.

“A cada época, um suporte, uma ferramenta e uma modalidade: a) a argila, o estilete e a escrita cuneiforme do começo da civilização; b) o papiro, o pincel e as escritas hieroglífica e hierática do período greco-romano, c) o pergaminho e a pena no século X d) que coexistem com o papel, o qual se torna mais importante com a invenção da imprensa; (…) f) o papel e a imprensa tipográfica baseada em métodos artesanais até o início do século XIX, (…) h) o celuloide na expansão do cinema; i) e finalmente o rádio no segundo quarto do século XIX”, explica Harold Innis [2], em seu livro O viés da comunicação (Vozes, 2011). Não teve tempo para falar de televisão e internet. Morreu antes.

Se a escrita sempre precisou de suporte, com lugar privilegiado para o papel, que se impôs sobre todos os demais, tornados obsoletos, o homem, na sua procura incessante por suportes mais flexíveis, fartos, baratos, limpos e inesgotáveis, chegou, no final do século passado ao virtual. Como o próprio nome diz, seria ele o não suporte? Deixo a indagação aos meus leitores para reflexão sobre o tema.

Esse novo instrumento de registro, universal e acessível a todos, marca o início de uma era, em que a comunicação e o aprendizado se darão pela tela.

Don Tapscott [3], em seu livro Growing up digital: The rise of the Net generation [Crescimento digital: A ascensão da geração em rede, 1997, sem edição em português], afirma que um jovem, ao chegar aos 20 anos (e isso seria 2017, a levar-se em consideração o ano de publicação da obra), já teria sido exposto a 30.000 horas de informação digital. Por outro lado, o consumo de mídia impressa, incluindo livros, estaria em declínio.

Segundo o escritor e documentarista americano Douglas Rushkoff [4], apontado pelo MIT como um dos maiores dez intelectuais da atualidade, a geração que nasceu e está se desenvolvendo via uma tela de smartphone, tablet, computador, seria a evolução da espécie humana. Ele batizou de screenagers esses jovens que são multitarefa (já que seus cérebros estão no modo “sempre alerta” para múltiplos canais de informação), gostam de experiências personalizadas, leituras não lineares, preferem imagens a palavras e querem velocidade (por isso não têm paciência).

Eles nasceram conectados no mundo virtual, por isso não têm dificuldades em lidar com o emaranhado de “fios” (links) que levam a incontáveis caminhos pela internet.

Para Rushkoff, os tempos atuais talvez tenham produzido – quase por evolução darwiniana – essa nova geração adaptada às mudanças tecnológicas, o que lhes permite desenvolver certa harmonia com o ambiente, ajustando-se, assim, para a sua “sobrevivência” nesse novo cenário.

Para eles, memória é coisa para disco rígido de computador: quando precisam de informação, vão ao Google, já que o cérebro não armazena dados, mas os processa. Trata-se de um conjunto de redes neuronais que, ao se conectarem, utilizam a informação que nelas está. Por isso, quanto mais coisas se sabe, mais pontos de conexão tem a rede do cérebro e é mais fácil estabelecer outros novos.

Enquanto a escola tradicional está ainda muito centrada na memorização, os jovens têm urgência de agilidade, de imediatidade, de conexão rápida, de participação social, de trocar mensagens com pessoas de qualquer lugar do mundo, de assistir a suas séries favoritas, de jogar online, entre outras incontáveis atividades.

Mas precisam de orientação para transformar esse oceano de informação à sua disposição, muitas vezes constituído de narrativas tóxicas [5], em conhecimento e nele navegar com segurança.

Screenagers (2016) é um documentário criado e dirigido pela médica Delaney Ruston para descrever o crescimento de jovens em um mundo saturado de tecnologia. Ela identificou que crianças passam em média seis horas e meia por dia nas telas e adolescentes podem ficar até 11 horas por dia quando já estão muito viciados. O filme oferece soluções aos pais para ajudar as crianças a encontrar equilíbrio entre o mundo real e o virtual.

Nessa realidade da “cultura” de tela (sem volta) entre os jovens, cabe a professores, empregadores, pais, Estado, refletirmos (e com rapidez, porque o mundo VUCA [6] exige agilidade) sobre que atitudes, comportamentos e competências estimular e desenvolver para enfrentar o mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo do século XXI.

É preciso aprender com os screenagers a utilizar os dispositivos tecnológicos e incorporá-los à escola para tornar o aprendizado mais significativo, prazeroso e desafiador para eles.

A tarefa deve começar por uma política de governo para a educação (estão aí os resultados de Pisa 2019 como um alerta para que nosso governo não repita erros de governos passados e, com urgência, instaure um projeto de longo prazo para a educação), por uma formação adequada e continuada do corpo docente e por uma participação de todos os atores (stakeholders) no processo educativo da nossa juventude, para a qual a tela na escola não deve ser a porta dantesca do Inferno, na qual se lê: “Lasciate ogne speranza voi ch’intrate[7].
[1] Daniela Aguilera Moura Antonio & Maria Alice Fontes, “Uso excessivo de smartphone: quais os riscos que as crianças estão correndo?”. Disponível em: http://plenamente.com.br/artigo.php?FhIdArtigo=228

[2] Harold Innis (1894-1952) foi professor de economia política na Universidade de Toronto e autor de muitos trabalhos sobre a história econômica do Canadá, sobre mídia e teoria da comunicação.

[3] Don Tapscott (1947-) é um escritor, pesquisador, palestrante canadense e consultor especializado em estratégia corporativa e transformação organizacional, além de abordar temas voltados para cultura digital, Web 2.0 e geração internet.

[4] Douglas Mark Rushkoff (1961-), escritor, ensaísta, jornalista, inventor de software, palestrante e romancista gráfico, é mais conhecido por sua associação com a cultura cyberpunk e por sua defesa de soluções de código aberto para problemas sociais.

[5] narrativas tóxicas: histórias sobre sucesso e realização pessoal (aquilo que é considerado socialmente como sucesso) podem impactar a saúde emocional das pessoas.

[6] Mundo VUCA: acrônimo criado para definir o mundo de hoje, que se caracteriza pela Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity.

[7] “Lasciate ogne speranza voi ch’intrate”: “Deixai qualquer esperança, vós que entrais” é o famoso verso que se encontra na porta de entrada para o Inferno, a primeira parte de La Divina Commedia, obra-prima de Dante Alighieri, poeta da literatura italiana e da cultura da Idade Média.