A pedagogia de muitas telas

15 mar

Prof. Roney Signorini
Consultor & Assessor Educacional
signorinironey1@gmail.com

O “Poema à Virgem”, composto por mais de cinco mil versos, foi escrito pelo padre José de Anchieta[1] durante o tempo em que ficou refém dos índios tamoios para que o também padre Manuel da Nóbrega, junto aos outros caciques, fizessem um acordo com as autoridades da coroa Portuguesa para o primeiro tratado de paz na história do Brasil, o armistício de Iperoig.

Como não tinha nem papel, nem pena, Anchieta recorreu ao seu cajado para rascunhar a poesia na areia da praia de Iperoig, em Ubatuba, todas as manhãs. À noite, repetia, de cor, os versos e, somente meses mais tarde, transcreveu-os para o papel, em São Vicente, primeira vila do Brasil.

Esse ato artístico e cultural pode ser considerado como o primeiro “registro de manifestação numa tela”, uma enorme tela, cunhada no Brasil. Assim como milhares de painéis, que, se não estão no chão, estão nos muros, nos outdoors, em telas digitais gigantescas, em grafites, educando, informando, registrando culturas.

A jornalista Renata Cafardo novamente exuberou com sua matéria “Professores youtubers atraem milhões”, publicada no jornal Estadão em 1/12/19. Ao mesmo tempo que informa, esclarece e ilustra, Renata também adverte (ou recomenda) que nas escolas o vídeo pode ser considerado como aliado, se houver qualidade. E eu acrescento que, a par dos cuidados, é imprescindível total atenção quanto às (des)igualdades, que iniciamos por observar com muito mais acuidade no início deste século, pois a igualdade de direitos continua a ser uma aspiração fortíssima das sociedades democráticas. O desejo de mudanças está expresso nas ruas, planetariamente.

É possível também acrescentar que nas modernas sociedades da “informação”, até uma pequena tela como a dos smartphones são inequivocamente um “enorme” painel-tela pedagógica, em abandono às lousas negras ou verdes, cimentadas aguardando o giz branco, predominante, a sulcar essa antiga tela que reinou por séculos, mas hoje é passado.

A proposta é de se validar a pedagogia da tela, entendida como o “novo normal” e não como “um ponto fora da curva”. Então, no conjunto de avaliações, a nova tela aparece como uma revolução cultural, ainda com hesitações de parte dos sectários porque talvez não carregue clareza de expressão. Mas, é preciso aceitar, sim, ainda que tenhamos imagens estáticas, sem cinética, algumas até parecendo os velhos filmes mudos de Chaplin, nos quais cada “frame” da película é um universo pictórico de informação.

Enquanto todos procuramos pelos acertos educacionais, a pedagogia pode, sim, ser a da lousa como alternativa ao “locus mais distante”, também a da tela pode socorrer o problema que ora enfrentamos da falta de mão de obra, adequadamente qualificada para ocupar os postos que os diversos segmentos produtivos oferecem.

Como demonstrado por pesquisas do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), vinculado à CNI (Confederação Nacional da Indústria), o Brasil precisa qualificar 10,5 milhões de trabalhadores para o setor industrial nos próximos quatro anos. Porém, a Korn Ferry Institute, empresa de recursos humanos, mostra que em 2020 faltará 1,8 milhão de trabalhadores preparados para preencher vagas destinadas a funções mais especializadas. Isso sem falar nos 12,4 milhões de desempregados, além de 38,8 milhões de trabalhadores na informalidade. Ou seja, temos um apagão de mão de obra nunca visto no país. Para mim, com modesta opinião, a pedagogia da tela veio para ajudar e colaborar na minimização desse piramidal problema porque não temos tempo nem espaço, muito menos infraestrutura para suportar tal multidão. Quer isso dizer, não estamos aqui falando da “arte pela arte”, mas de economia implacável, cujo crescimento será afetado por esse gargalo. Pode ser hora de colocarmos em prática a “tríplice hélice”(governo, indústria e universidade) produzindo como autêntico esforço de guerra produtos e materiais para a educação da tela. Na frente de tudo a EAD.

Certo é que as rápidas e exponenciais mudanças no sistema de produção industrial tornaram o aprendizado indispensável, tanto para os trabalhadores empregados como para os desempregados. Aquela condição da educação continuada, tão necessária. As atuais exigências da nova qualificação profissional exigem conhecimento tecnológico e habilidades especiais, afinal, está ocorrendo uma mudança global.

O extraordinariamente triste é que operadores privados do mercado de trabalho consideram que as universidades não estão aptas a formar os talentos exigidos pela economia e veem na preparação dos novos profissionais, pelas próprias empresas, o único caminho para enfrentar o problema e é o que muitas estão fazendo. Bola na trave das universidades brasileiras, ou melhor, gol contra.

No mesmo dia 1 de dezembro, também no Estadão, caderno de Economia e Negócios, o título da matéria redigida por Luciana Dyniewicz está: “No radar de empresas estrangeiras, profissionais de tecnologia deixam o País.” O lide, por si só é um prazer total: “Em falta no Brasil como no exterior, trabalhadores da área de Tecnologia da Informação (TI) têm sido recrutados, principalmente, por empresas na Europa, que cuidam do visto do profissional e bancam passagens e residências nos primeiros meses”. Vejam a demanda de 2018: 2.851 foi o total de vistos de trabalho a brasileiros concedidos pela Alemanha, boa parte para as áreas de ciência e tecnologia.

Para se ter uma ideia de como estão e como vão as coisas no frenético mercado digital, o governo federal acabou digitalizando 486 serviços este ano para os quais, claro, é preciso muita gente com expertise no assunto. Veja os principais: INSS, ministérios da Economia, da Educação, da Agricultura, da Justiça além das agências Anac, ANM, ANP, ANTT, Anvisa e o Inmetro.

Com isso, a tela prepondera e protagoniza milhares de serviços, propiciando a mais perfeita interação e compartilhamento de informações, em segundos e com um alto poder de confiabilidade. Tudo isso é a educação pela tela. E ainda vem mais porque surgirão outros 600 serviços que o governo pretende oferecer no próximo ano por meio da internet ou pela minúscula tela dos celulares.

Conforme Cafardo, “Professores youtubers – já chamados de edutubers – fazem sucesso aproveitando-se justamente do que os jovens sentem falta na educação formal: agilidade, linguagem fácil e próxima dos adolescentes, estratégias para entreter o aluno. Os canais com videoaulas chegam a ter 5 milhões de visualizações por mês. Nas redes sociais, os professores são tratados como estrelas e têm até fã-clube.

Continua na próxima semana: A nova forma de aprender: o  screen

.[1] Padre José de Anchieta, missionário da Companhia de Jesus, também conhecido como o apóstolo do Brasil, foi assim distinto pelo fato de ter participado do início da catequização em terras brasileiras. José de Anchieta foi beatificado em 1980 e canonizado em 2014. A seguir, a primeira estrofe do poema.
Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?
Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?
Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,
Que a morte tão cruel do FILHO chora tanto?