Para Onde Vai a Educação?

5 abr

Prof. Roney Signorini
Consultor & Assessor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 Dia desses fui abordado por pessoa que me reconheceu nas compras em um shopping da Capital. Simpático foi logo estendendo a mão com sorriso aberto e a expressão “Que imenso prazer, professor Roney !”. O cidadão, meu leitor aqui da coluna,  já tinha idade para ser avô e pela proposta de diálogo foi fácil perceber que terá sido um pai preocupado com a formação dos filhos, agora com os netos. Pela pergunta que me dirigiu percebi  que se tratava de uma avis rara no mundo contemporâneo. Quem e quantos hoje se preocupam com a educação dos netos?

Retribuindo o cumprimento amável  abri a guarda para a primeira colocação, bombástica: “Não quero tomar o seu tempo, assim, só provoco com uma pergunta:  Para onde vai a educação nacional ? Talvez ele esperasse por única frase, tipo: para o inferno, para o passado, para qualquer canto menos para o futuro.
Confesso que sempre tive e ainda tenho pavor de tal pergunta porque não só eu mas a maioria dos operadores da educação também não têm resposta convincente, engasgam, pegam atalhos, tergiversam, quase fogem da rinha.
De bate pronto lhe disse que precisaria de horas ou muitas páginas para tentar esclarecer e justificar o que vem ocorrendo com as propostas educacionais. Portanto, adiaria minhas reflexões para estampa-las aqui neste espaço.  Pessoa sensata logo concordou e aceitou que eu tratasse do assunto futuramente.
Aqui estou, preocupado que em único artigo não aborde o suficiente  para dar as explicações necessárias, antevendo que me ocupe ainda mais uma vez do tema.

 

Na entressafra de e-mails, reuniões e assembleias, whatsapp e congêneres recebi um, com a participação do saudoso e competente professor Pierluigi Piazzi(1943-2015) [https://www.youtube.com/watch?v=weYxCI6qopI ]  que me ajudou na reflexão sobre o tema/consulta. Professor de mão cheia teve mais de 100 mil alunos.

Dizia ele que “professores não são educadores e que essa é tarefa do pai e mãe porque educação é [também] aquilo que se recebe em casa e não [só] na escola.” Divergências à parte, fica o registro. Os parêntesis são meus.

Indagado sobre o que é um cursinho ele foi taxativo:” É a evidência cabal de que o ensino  básico no Brasil não presta.” Para em seguida esclarecer que o PISAnão mede conhecimento.  Mede competências, mede se o aluno sabe interpretar um texto, se sabe entender um gráfico, se tem raciocínio lógico e matemático.” O ENEM segue o mesmo caminho (1).
Sobre o PISA(2)  mais não disse porém desdenhou, com justiça,  que ocupamos a posição de lanterninha no certame, diante de uns 60 países. E vociferou que “o Brasil tem um dos piores sistemas educacionais do mundo.”

Ignoro se ele falava da pedagogia crítica e sócio-construtivista por ele consideradas uma burrice coletiva. O professor Pier dizia que toda pedagogia baseada em Paulo Freire, Vygotsk e Piaget fazia descer a escada da inteligência e dados comprobatórios não faltam para ratificar essa afirmação.
Em uma de suas palestras, disponíveis no YouTube, Pier fez uma piada sobre o construtivismo. mostrando a gravidade dessa ideologia: “Quantos construtivistas são necessários para ensinar uma criança a ler? NENHUM! Quando a criança se sentir pronta ela aprenderá sozinha.”
Daí a proposta de cancelar todos os contratos dos professores da rede pública, fechando todas as escolas do país e deixando as crianças fazerem o que bem entenderem. Quando elas se sentirem prontas para aprender, elas irão fazê-lo. Essa é a coisa mais lógica a fazer baseando-se nessa teoria. Simples não?

A realidade, analisada sobre as propostas de  educação pelas autoridades de governo, com atribuições para a área, mostra de há muito que os desacertos, muito mais do que os acertos, estão fincados em um sem número de deficiências que ensejam críticas ácidas, a partir da quantidade de ministros que assumiram a pasta sem ter qualificação para tal, a incômoda formação de licenciados sem nenhuma vocação para o magistério, a carência de financiamentos, mal propostos e conduzidos. Como vencer o cipoal normativo/regulador editado pelo MEC, CNE, PNE, CNPQ e demais, visando excessivamente estrangular a rotina administrativa e se impondo em tentativa de paralisar as IES, sobretudo as pequenas e médias escolas?
Outros questionamentos se insurgem no cenário, por exemplo, em breve, a universidade estará preparada para receber os “novos alunos” egressos das BNCCs? Como fica(rá) o quadro ao final do decênio, certamente,  com o descumprimento do PNE, até quando o CNE manterá a queda de braço com o mercado adotando as diretrizes curriculares anacrônicas, em desarmonia conflituosa quanto às habilidades e competências do século XXI ?

Deve-se manter os seletivos/vestibulares em escolas cujas demandas são inferiores à capacidade instalada de vagas, apresentando ociosidade? Medida recente e retrógrada volta a exigir que as IES publiquem em mídia impressa os resultados classificatórios dos seletivos.

E então, podemos contar com a eficiência e eficácia ao assumir os cursos na nova modalidade, em EAD, que ainda gatinham e no contraponto, o que será dos presenciais?
Há vozes dissonantes, a partir do MEC, que devemos dar mais fôlego às chamadas frentes tecnológicas em detrimento das áreas de humanas, enquanto os radicais têm verdadeiro horror em se estabelecer diálogo moderno sobre a questão de se impor aos que podem pagar a cobrança de mensalidades nas instituições públicas, como se fora uma heresia tratar do assunto quando estão de pires e caneco na mão pedindo mais verbas, sabido que o Estado está falido com dívidas que passam os 3 trilhões. Como pagar ?

 

Não temos creches, ensino Fundamental, ensino Médio, o sistema “S” pode iniciar uma descida abrupta se lhe suprimirem verbas.

 

Aquele pai que me abordou queria saber qual o percurso da universidade atualmente, para onde ela se dirige, o que desejam os ingressantes na universidade, status, empregabilidade/trabalhabilidade ou o quê mais?

 

O mundo da educação nacional, hoje, tem imensos desafios com o surgimento de novas tecnologias precisando, como sempre, atender dois polos: o mercado e o aluno. Há inegavelmente um desencanto com a universidade e as famílias de menor renda, que não contam com financiamento de governo, passam por muitas ansiedades e angústias, sobretudo reconhecendo que a escola pública do Fundamental e Médio é fraca, por consequência forma uma aluno fraco.

 

Se há um grande desafio em enfrentar o presente, que se dirá do futuro que deixa toda a sociedade perplexa com os avanços que nos tomam de assalto a cada dia, basta abrir os olhos pela manhã. E escutando o noticiário matinal, com prenúncios para o dia todo, nada é mais desanimador do que ouvir sobre os milhões de brasileiros desempregados. Fora o lugar comum da violência.

Importa muito saber quem são eles, com que faixa de idades estão, quais suas formações, sexo e etnia, sem emprego há quanto tempo?

 

Lamentável é saber que as famílias estão abrigando os filhos, na maioria solteiros mas também os casados, em seus lares porque não há para onde correr.
A classe política, ao invés de ajudar, impede. O Judiciário quer, no trabalho,  lauto almoço nas suas mesas, do Executivo, nas três esferas, já assumimos o total desalento e decepção e só nos resta perambular pelas ruas da amargura, nem tanto por nós mas pelos filhos, netos e bisnetos ( que é o meu caso ).

 

Já perdemos o bônus demográfico e corremos o risco de perder a geração “Z”

a quem deveríamos estar estendendo tapetes vermelhos como a salvação esperada de uma juventude sagaz, ávida, preparada mas pouco incentivada.

 

Ainda sobre a manifestação do professor Pierluigi falando sobre educação em uma conferência:
“A escola brasileira tem maus professores? Não. A escola tem má vontade? Não. A escola não é profissional? Sim, é. Então qual é o problema? Sem dúvida que é o modelo, o paradigma educacional brasileiro que está completamente equivocado.”  Muito acertado pois nossos alunos só estudam para a prova e não para aprender. Eis um erro, dentre muitos, do nosso modelo. Admitidos pelos pais, não desestimulados. Gravíssimo.

 

(1)– Resultados da redação do ENEM 2014: 529 mil alunos foram zerados e apenas 250 conseguiram nota máxima. http://veja.abril.com.br/…/enem-2014-apenas-250-pessoas-ti…/

(2)– Resultados do PISA 2012: de 65 países avaliados, o Brasil obteve a 55ª posição em leitura, a 59ª em ciências e a 58ª em matemática, totalizando uma média de 57,3. http://veja.abril.com.br/…/inf…/rankings-do-pisa-2000-a-2012